Cirurgia (Anti)Estética: A Uniformização por Bisturi

Na sanha pós-moderna por autodesconstrução e reconstrução, a indústria da cirurgia plástica está se universalizando fora de controle e o resultado é que, em vez de mais belas, as mulheres estão se tornando mais bizarras e idênticas umas às outras.

Já que, de agora em diante, todo desejo torna-se uma demanda imperiosa que inevitavelmente leva a um novo “direito”, por que não deveríamos todos ter o “direito à beleza”? Ou pelo menos, se não à beleza, pelo menos a um conjunto de referências físicas validadas pela imprensa e pelas redes sociais como sendo os cânones absolutos e insuperáveis do encanto e do “sex appeal”. É para alcançar este Graal estético que os bisturis dos médicos loucos da cirurgia plástica são agora liberados em todos os estratos da sociedade, muito além dos círculos muito pequenos e “privilegiados” onde estavam confinados até agora.

Se está na moda ridicularizar a cantora ou estrela de cinema envelhecida, aterrorizada pela devastação do tempo, que, por força de facelifts e várias injeções, acaba parecendo uma múmia transumanista que escapou de um mau filme de ficção científica, rimos muito menos da generalização dessas práticas e de sua crescente banalização. Antes reservada à classe média alta, política e showbiz, a cirurgia estética – e obviamente não estamos falando aqui de cirurgia reconstrutiva – agora diz respeito a todas as categorias sócio-econômicas e, ainda mais preocupante, a quase todas as faixas etárias, desde o início da adolescência. Uma “democratização”, alguns diriam.

Um exército de clones

Portanto, é comum hoje em dia encontrar um conhecido, geralmente uma mulher, e ser surpreendida por uma mudança em sua fisionomia, ser desafiada por uma modificação de sua expressão facial… Não necessariamente discernimos imediatamente a causa deste distúrbio, mas acabamos, no entanto, percebendo-o: é o apêndice nasal que foi “aplainado”, as maçãs do rosto levantadas, os lábios e/ou o peito inflados. O caminho a seguir é parecido com as estrelas dos vídeos de música e outros “influenciadores”. E quando os “filtros” digitais no Instagram ou Facebook não são mais suficientes, resta a injeção e o bisturi.

Mais uma vez, esta sociedade, que se orgulha da “diversidade”, revela sua picaretagem e sua verdadeira face, se você quiser, a de um apetite compulsivo pela semelhança, pelo indiferenciado, pelo normalizado. Para viver feliz, vamos viver idênticos. Esta triste mímica nem sempre é assumida, no entanto, e muitas vezes tentamos escondê-la atrás de justificações psicológicas de supermercado. “Eu não me sentia eu mesma, não me encaixava na minha aparência”, explica esta jovem de vinte e poucos anos na televisão, que trocou a boca por um colchão de ar. Para “ser você mesma”, você tem que se amputar, transformar e “aumentar” a si mesma. Resumindo, “sente-se si mesmo” quando já não se é si mesmo. E esta esquizofrenia fez a fortuna de uma armada de médicos que mal merecem este título e se tornaram simples prestadores de serviços estéticos.

E os chamados círculos “conservadores” ou supostamente “reacionários” não são mais poupados do que outros por esta sinistra tendência, tanto que a tirania da imagem e a busca frenética por “likes” nos vários meios de comunicação da Internet se impuseram como únicos referenciais de uma “vida social” bem sucedida e realizada.

Como a psicanálise, a cirurgia estética parece estar a caminho de se tornar uma doença que consegue se passar como uma terapia através de programas de televisão e publicidade. E nossas ruas estão se enchendo de clones com cara de pato que trocaram sua particularidade, e muitas vezes sua beleza, por mais imperfeita que seja, por uma cópia ruim e pálida de um modelo falso e globalmente uniformizado.

Fonte: Revue Éléments

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Xavier Eman
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