O caminho para a paz na Ucrânia é seu desmembramento

Ao longo de um conflito militar, os objetivos das partes beligerantes são constantemente revistos e atualizados para que fiquem mais condizentes com a realidade do campo de batalha e atendam mais perfeitamente aos interesses estratégicos envolvidos.

Por oito anos, o interesse russo foi a solução pacífica da guerra civil ucraniana. Em 24 de fevereiro, após o exaurimento das vias diplomáticas, Moscou lançou uma Operação Militar Especial para desnazificar e desmilitarizar a Ucrânia.

Até então o interesse territorial russo estava claro: garantir a soberania das Repúblicas Populares. A primeira consequência da “resistência ucraniana” foi expandir os limites territoriais e pensar na separação de toda a porção de terra correspondente à Novorrossiya – até então este seria o objetivo máximo.

Um dos primeiros recados de Moscou foi deixar claro que não toleraria interferência da OTAN no conflito. E isso foi acatado em um primeiro momento. Por algum tempo, a ajuda da aliança atlântica a Kiev se limitou à assistência financeira e humanitária.

Foi em abril que a intervenção militar direta começou, após a República Tcheca enviar lotes de tanques e armas para as forças ucranianas. A OTAN fez um teste naquele momento, esperou para analisar a resposta russa. Mas Moscou fez vista grossa, não respondeu à altura e a aliança endureceu.

Começou então a avalanche de pacotes de ajuda militar. Nesse momento os objetivos territoriais russos foram novamente revisados, resultando no anúncio de Lavrov de que a fundação da Novorrossiya havia passado para o patamar de objetivo territorial MÍNIMO da Rússia.

Até então também não havia indicativo algum de integração dos territórios libertados à FR. Faria mais sentido estratégico formar um ou mais Estados pró-Rússia entre a Kiev neutralizada e o espaço soberano de Moscou, formando uma gordura de terra entre os polos.

Contudo, a escalada foi atrapalhando tudo isso. O Ocidente começou a enviar um contingente massivo de tropas privadas, assassinos profissionais e forças especiais disfarçadas. A inteligência ocidental começou a participar de atentados dentro do próprio território russo usando agentes ucranianos. Liz Truss ameaçou usar armas nucleares.

A Rússia então atualizou novamente os interesses territoriais e começou a organizar referendos populares para atestar a vontade dos povos libertados de se integrarem ou não à Federação. O resultado positivo é esperado, já que são regiões de maioria étnica russa, que há anos são massacradas pelas forças neonazistas.

Na última semana, finalmente, a OTAN deixou claro que está coordenando todas as atividades ucranianas – praticamente declarando guerra à Rússia. Hoje Zelensky lançou uma nova estratégia nacional de segurança demandando ajuda militar ocidental por décadas, expondo sem rodeios que pretende seguir com o conflito.

Aliás, é bom lembrar que o governo ucraniano também atualizou seus objetivos estratégicos e territoriais algumas vezes. Empolgados com a falaciosa “contraofensiva”, oficiais de Kiev declararam que agora o objetivo ucraniano seria “desmilitarizar Moscou” – piada, mas é verdade.

Obviamente, a Rússia precisaria reagir. Hoje Moscou vetou todas as formas de negociação. A escalada militar engrossará ainda mais nos próximos dias. Kiev deixou claro que levará a guerra até o final e que, se receber ajuda ocidental suficiente para tal, entrará no território russo até “desmilitarizar” Moscou.

Ou seja, para a Rússia a guerra atualmente é contra a OTAN e o risco é, sem meias palavras, existencial ao Estado russo. A doutrina militar moscovita estabelece o direito de uso das forças nucleares em caso de ameaça existencial.

Não estou dizendo que ocorrerá algo do tipo, até porque Moscou já mostrou mil vezes que está disposta a perdoar e fazer vista grossa para evitar grandes escaladas. Mas a verdade é que a OTAN já fez tudo sair do controle.

Os novos objetivos territoriais devem ser atualizados e anunciados em breve. Mas uma coisa é certa: a existência do Estado ucraniano é danosa e representa risco existencial à Rússia. O desmembramento do Estado ucraniano pós-1991 é a única via de paz.

Se os territórios libertados serão ou não integrados à Rússia é uma outra discussão. Mas o que importa por agora é que Kiev já deixou claro que nunca será uma “Suíça eslava”, logo, a Rússia terá de buscar a neutralização por meios mais radicais.

A história poderia ter sido outra. Kiev poderia perder muito menos terra, mas brincou com o fogo e pagará por isso.

Repito: desmembrar a Ucrânia é a única via de paz.

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 585

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