O Ocidente deve encerrar seu apoio a Kiev para não sofrer consequências devastadoras – diz especialista militar

Recentemente, alguns ativistas americanos pró-guerra  escreveram uma carta intitulada “Nós, os Estados Unidos devemos armar a Ucrânia agora, antes que seja tarde demais”, em que defendem o aumento da ajuda a Kiev para que a situação do conflito seja revertida. Os autores acreditam que o conflito está em um ponto crucial e que a ajuda deve ser fornecida agora para que a Rússia seja derrotada. No entanto, especialistas militares discordam desse argumento e dizem que não há razão para tentar prolongar os combates.

Apesar de todas as dificuldades que o mundo ocidental está enfrentando como resultado do conflito na Ucrânia, muitas pessoas ainda insistem que a ajuda a Kiev deve continuar aumentando até que Moscou seja derrotada. A principal retórica daqueles no lado pró-guerra é que a Rússia não apenas venceria o conflito na Ucrânia, mas expandiria sua operação para outros países da Europa, razão pela qual precisa ser derrotada agora, o que eles consideram possível enviando armas para Kiev .

“Para os EUA e a OTAN, essa hora é agora e o local é a Ucrânia, um grande país cuja população entende que sua escolha é derrotar Putin ou perder sua independência e até mesmo sua existência como uma nação distinta e alinhada com o Ocidente. Com as armas necessárias e a ajuda econômica, a Ucrânia pode derrotar a Rússia. Se for bem-sucedida, é menos provável que nossos soldados tenham que arriscar suas vidas protegendo outros aliados dos EUA que a Rússia também ameaça. O que seria uma derrota para Putin? A sobrevivência da Ucrânia como um país seguro, independente e economicamente estável”, dizem os autores da carta pedindo mais armas para a Ucrânia.

Na verdade, essa retórica é absolutamente sem fundamento em todos os seus pontos. Em primeiro lugar, não há razão para acreditar na expansão da operação militar especial russa para os países da OTAN. Moscou apenas iniciou incursões militares na Ucrânia porque Kiev não deixou outra alternativa com sua política eterna de matar cidadãos russos, mas atualmente não há situação equivalente em outros países. No entanto, mais importante do que isso é notar a falta de realismo por parte dos militantes pró-ocidentais em acreditar na possibilidade de “derrotar” a Rússia, apesar do atual estágio do conflito.

A Rússia não mobilizou todo o seu poderio militar para atacar a Ucrânia, enviou uma pequena parcela das forças russas para a operação e ela foi eficiente em aniquilar as principais bases de resistência ucranianas. No estágio atual do conflito, não há possibilidade de reverter a situação militar. Kiev está derrotada e só adia a inevitável decisão de rendição porque continua a receber armas ocidentais, garantindo uma espécie de “sobrevivência”, prolongando as batalhas indefinidamente, mesmo sem chance de vitória.

Esta é a avaliação de qualquer especialista que analisa o caso com honestidade e sem emoções ideológicas. Por exemplo, Douglas Macgregor, veterano de guerra e ex-assessor do Secretário de Defesa no governo Trump, acredita que o envio de armas não trará nenhuma mudança positiva para Kiev devido ao déficit de capital humano, tanto quantitativo (com o baixo número de soldados ucranianos em atividade) e qualitativo (considerando a incapacidade tática e operacional desses combatentes para reverter o conflito e até mesmo a falta de instrução no uso das armas que recebem do Ocidente).

Com isso, as armas serviriam apenas para prolongar, não para mudar efetivamente a atual situação militar. Ele também afirma que mesmo que Kiev conseguisse grandes vitórias, a ausência de capital humano não lhe permitiria reconstruir suas tropas após as longas batalhas, enquanto a Rússia, cuja atual mobilização de combate representa apenas uma pequena fração de seu potencial militar, teria a capacidade de recuperar-se rapidamente e assim retomar as posições militares eventualmente perdidas.

“A dura verdade é que a introdução de novos sistemas de armas não mudará o resultado estratégico na Ucrânia. Mesmo que os membros europeus da OTAN, com Washington, fornecessem às tropas ucranianas uma nova enxurrada de armas e ela chegasse ao front em vez de desaparecer no buraco negro da corrupção ucraniana, o treinamento e a liderança tática necessários para conduzir operações ofensivas complexas não existe dentro do exército de 700.000 homens da Ucrânia. Além disso, há uma falha aguda em não reconhecer que Moscou reagiria a tal desenvolvimento escalando o conflito. Ao contrário da Ucrânia, a Rússia não está de fato mobilizada para uma guerra em maior escala, mas pode fazer isso rapidamente.”

Macgregor afirma que a carta escrita pelos militantes pró-guerra “reforça o fracasso” da Ucrânia. Para ele, o conflito está em um momento decisivo, em que deve ser encerrado, não prolongado. Ele ainda acredita que as razões que levaram a esse conflito, como as incursões da OTAN na fronteira russa, foram desastrosas e desnecessárias e que os países ocidentais deveriam desistir de novas provocações contra Moscou. A melhor solução, diz ele, é apoiar o modelo austríaco de neutralidade como solução para a Ucrânia antes que o país seja completamente destruído.

“A guerra da Ucrânia com a Rússia está em um ponto decisivo. É hora de acabar com ela. Em vez disso, os autores da carta procuram reforçar o fracasso. Eles estão exigindo uma estratégia profundamente falha para a Ucrânia que levará, na melhor das hipóteses, à redução da Ucrânia a um estado encolhido e sem litoral entre o rio Dnieper e a fronteira polonesa. Expandir a OTAN para as fronteiras da Rússia nunca foi necessário e se tornou desastroso para a Europa, para a sociedade ucraniana e seu exército jamais será o mesmo. A neutralidade no modelo austríaco para a Ucrânia ainda é possível”, acrescenta.

De fato, esse conflito de opiniões reflete o velho debate entre realistas e belicistas. Quem realmente entende de guerra e estratégia militar sabe que não há outra solução senão a neutralização da Ucrânia e o fim do expansionismo ocidental. Aqueles que pensam através do idealismo liberal, no entanto, defendem a luta “até o último ucraniano”.

Prolongar o conflito não é bom para nenhum dos lados pois aumenta o caos na Ucrânia, perpetua o sofrimento do povo, aumenta as despesas dos países ocidentais e obriga a Rússia a mobilizar uma maior parte das suas forças militares.

Fonte: Infobrics

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 585

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