A Ucrânia entre as Raízes Russas e as Influências Polaco-Ocidentais

Para compreender o moderno conflito russo-ucraniano é necessário mergulhar na genealogia do problema: as origens comuns dos eslavos orientais.

O destino da Ucrânia, ao qual a imprensa italiana tem dedicado tanto espaço nos últimos meses, é cada vez menos o foco da atenção da grande mídia. Talvez – perdoe minha franqueza – isto seja uma coisa boa, dada a desinformação tendenciosa, presepeira e unilateral oferecida pela grande mídia. O pensamento único – uma representação linguística e comunicativa precisa de um modelo geopolítico com pretensões unipolares – conseguiu afirmar um cânone exclusivo de interpretação de uma questão que, pelo contrário, é incrivelmente complexa. Além das respectivas suposições e afiliações simbólicas legítimas, é correto refletir com lucidez sobre as origens e as consequências históricas, geopolíticas e econômicas de uma crise – a crise ucraniana – que é apenas uma peça em um jogo muito maior. É necessário um ajuste fino. Para destacar alguns dos elos centrais do tema, oferecemos algumas percepções de duas interessantes conferências realizadas em Milão esta semana: a primeira, A Águia e o Urso – Rumo a uma Nova ‘Guerra Fria’? (20 de abril, Universidade de Milão) contou com a presença de Aldo Ferrari, membro do ISPI e professor da Universidade Ca’ Foscari de Veneza como especialista em história e cultura russa e caucásica; a segunda (22 de abril, Libreria Popolare na Via Tadino) ofereceu uma apresentação do ensaio O Conflito Russo-Ucraniano: Geopolítica da Nova Desordem Mundial, um volume agudo do historiador heterodoxo Eugenio Di Rienzo, publicado por Rubbettino.

Quais são os termos básicos para abordar a questão sem ficar cego por sentimentalismo, maniqueísmo politicamente correto e superficialidade analítica?

Antes de mais nada, deve-se observar que a ruptura dentro da Ucrânia não é um acidente, mas uma condição estrutural, até mesmo genética, da estrutura estatal do país. A região de Kiev é a área de origem do primeiro Estado russo, a Rus de Kiev. Deste núcleo medieval que surgiu no século IX d.C. e durou até 1240, com a invasão mongol, originou-se a identidade russa, que é, portanto, inerentemente europeia. Essas raízes mais tarde se espalharam para o leste, retomando a herança mongol e fundando a consciência multiétnica, multirreligiosa e multinacional que caracterizou primeiro o Império Russo e depois a URSS. Com o estabelecimento desta identidade eurasiática, formaram-se os três ramos dos eslavos orientais – russo, ucraniano e bielorrusso.

Os russos originais, os da Rus de Kiev, foram de pronto sujeitos a influências ocidentais, especialmente polacas: daí a gênese da distinção. A força motriz do Império Russo seriam os russos étnicos do leste, dotados de nobreza, exército e estruturas estatais. Os futuros ucranianos e bielorussos, por outro lado, teriam se tornado em sua maioria servos da nobreza polonesa. Esses povos camponeses não desenvolveram uma cultura escrita de alto nível até o século XIX.

Uma vez que os territórios ucranianos foram reintegrados na estrutura estatal russa, a identidade original foi restaurada. Esta era, pelo menos, a opinião dos russos, às vezes em desacordo com a percepção nacionalista ucraniana. No entanto, esta última identidade é muito recente – desenvolvida durante o século XIX – e responde às exigências de descentralização e pluralismo local que, após uma repressão sem dúvida severa, foram reconhecidas pela URSS, em nome de uma ideologia federalista. Assim, a estrutura estatal da Ucrânia não surgiu até 1922 como uma república socialista. Não incluía a Crimeia, que permaneceu parte da Rússia até 1954, com a doação simbólica de Khrushchev.

Paradoxalmente, a Ucrânia também tinha uma maioria linguística russa. A questão étnica também é complexa. Aldo Ferarri salientou que não é fácil fazer distinções dentro dos três grupos que compõem os eslavos orientais, que são tão semelhantes geneticamente, linguisticamente – ucraniano e russo são semelhantes, muitos ucranianos até falam melhor o russo e até surgiu um dialeto que mistura as duas línguas – e religiosamente – ucranianos e russos são ambos ortodoxos (embora na Ucrânia ocidental exista a Igreja Uniata, ou seja, uma Igreja da Europa Oriental que voltou à comunhão com a Santa Sé). Há também muito casamento entre russos e ucranianos, o que faz com que a distinção entre russos e ucranianos não seja mais fácil do que aquela entre emilianos e romanholos, de acordo com a própria comparação de Ferrari.

Uma abordagem genealógica do problema – de acordo com a melhor liçãonietzscheana – não pode deixar de destacar a ligação histórica e cultural secular – de Kultur, em suma – entre a Ucrânia e a Rússia. A Ucrânia é certamente um território liminar, orientado para a Europa, mas não pode ser indiferentemente incorporado a ela sem desenraizar violentamente a ligação tradicional com Moscou.

Esta consciência histórica também deve abordar os desenvolvimentos mais recentes. Eles revelam uma divisão radical da Ucrânia em seus componentes ocidentais e orientais. Se em todo o país a matriz russa é indelével, a autopercepção das comunidades ucranianas é certamente heterogênea.

Fonte: Geopolitica.ru

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Luca Siniscalco

Filósofo, escritor e editor italiano.

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