O Ocidente se fragmenta por causa da Rússia

O Ocidente, numa tentativa desesperada de frear o avanço russo em direção a um mundo multipolar, acaba prejudicando mais a si mesmo que a própria Rússia, no texto abaixo temos uma clara demonstração que os contornos geopolíticos do mundo atual vem mudando de uma forma que era inimaginável até pouco tempo atrás.

Por M. K. Bhadrakumar

O sultão otomano Abdulmejid não poupou dinheiro para construir o suntuoso Palácio Dolmabahce em Istambul entre 1843 e 1856, construído para impressionar o mundo. Tinha o maior lustre de cristal Boêmio já instalado e quatorze toneladas de ouro para enfeitar os tetos.

Na história não-oficial, esse capricho, que o sultão mal podia pagar, foi necessário em parte pela necessidade desesperada de confundir os credores que suspeitavam que o poente Império Otomano pudesse estar afogado em problemas, perto da falência, prejudicado pela inflação, agravada pelo imperialismo.

A reunião de três dias dos líderes do G7 no Castelo de Elmau, nos Alpes da Baviera, de domingo a terça-feira (26-28 de junho), que parecia um cenário de conto de fadas, lembra o passado análogo do declínio otomano. Há muitas críticas de que um espetáculo tão opulento não está mais de acordo com os tempos atuais e é um exemplo de como esses políticos estão fora da realidade, até mesmo decadentes.

O chanceler alemão Olaf Scholz, sendo o anfitrião, fez uma última aparição perante a mídia na terça-feira com uma atmosfera um tanto sombria refletida em sua mensagem aos jornalistas reunidos: “Um tempo de incerteza está à nossa frente. Não conseguimos prever como isso vai acabar.”

Scholz estava se referindo à crise na Ucrânia e suas consequências. Scholz falou de um “longo túnel” e de consequências para tudo e todos. Acabou-se a narrativa ocidental triunfalista sobre a estratégia de “cancelar a Rússia”.

De fato, o principal ponto de discórdia entre os países do G7 era como lidar com a Rússia. Os países do G7 percebem que não conseguiram isolar a Rússia e, talvez, nem seja do seu interesse brigar totalmente com Moscou por conta da dependência econômica.

A cúpula mal concordou em discutir um lote de novas sanções contra a Rússia, mas as deliberações sublinharam os limites do uso de ferramentas econômicas para punir a Rússia. A estratégia ocidental está em um impasse, a Rússia está vencendo a guerra apesar das entregas maciças de armas dos EUA à Ucrânia: as sanções não conseguiram deter a Rússia estão, possivelmente, prejudicando mais a Europa do que a Rússia; as alternativas se esgotaram.

Não houve nenhum sinal de discordância em público, mas mesmo quando os líderes do G7 prometeram seu apoio inabalável à Ucrânia, pesava em suas mentes que as sanções sem precedentes contra a Rússia implementadas pelo G7 e pela União Européia, visando a economia, energia, exportação e reservas do banco central russo causaram volatilidade no mercado global e aumentaram os custos de produção de energia.

“Agora, a inflação alta, o crescimento econômico fraco e o fantasma da escassez de energia na Europa neste inverno estão diminuindo o apetite do Ocidente por sanções mais duras contra Moscou. Divergências entre os líderes dos EUA, Canadá, Grã-Bretanha, França, Itália e Japão os impediram de concordar com novas sanções concretas, com o grupo apenas concordando em começar a trabalhar em medidas que vão desde um teto de preço nas compras de petróleo russo até um embargo de ouro. Com as opções mais imediatas disponíveis para punir a Rússia amplamente esgotadas, apenas alternativas mais complicadas e controversas permanecem na mesa.”

O comunicado do G7 dizia: “Consideraremos uma série de abordagens, incluindo uma possível proibição abrangente de todos os serviços que permitem o transporte de petróleo bruto e produtos petrolíferos marítimos russos globalmente. Encarregamos nossos ministros de continuar a discutir essas medidas com urgência, consultando países terceiros e as principais partes interessadas do setor privado, bem como fornecedores de energia antigos e novos, como alternativa aos hidrocarbonetos russos”.

Os líderes do G7 também discutiram uma proposta dos EUA, que prevê que os próprios compradores de petróleo russo determinem o preço máximo que estão dispostos a pagar por ele. No final, nenhuma decisão concreta foi tomada. A proposta dos EUA só fará sentido com a plena participação de todos os países da UE, bem como China e Índia, que provavelmente não apoiarão tal decisão. De fato, alguns países da UE são quase 100% dependentes do petróleo russo e, se a Rússia não concordar em fornecer petróleo a um preço reduzido, esses países correm o risco de ficar completamente sem essa matéria-prima fundamental.

Uma das principais razões para convidar Índia, Indonésia, África do Sul, Senegal e Argentina para a cúpula do G7 foi expandir a aliança global contra a Rússia, mas a manobra não funcionou. Segundo o jornal, o primeiro-ministro Modi disse a Scholz em uma reunião bilateral que a Índia não poderia unir esforços contra a Rússia e também defendeu publicamente as compras de petróleo da Rússia.

Da mesma forma, uma segunda área em que o G7 espera prejudicar a renda da Rússia é interromper a importação de ouro russo. Mesmo aqui, faltou consenso. Scholz queria que a proposta dos EUA fosse discutida primeiro junto da UE. Mas o chefe do Conselho Europeu, Charles Michel, estava cético: “Quanto ao ouro, estamos prontos para discutir os detalhes e ver se é possível atingir o ouro de maneira a atingir a economia russa e não a nós mesmos”.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi abertamente sarcástico: “O mercado de metais preciosos é global, é bastante grande, volumoso e muito diversificado. Como acontece com outros bens, é claro, se um mercado perde sua atratividade devido a decisões arbitrárias, há uma reorientação para onde esses bens são mais procurados dentro de regimes econômicos mais legítimos.”

O baixo desempenho do presidente dos EUA, Joe Biden, na cúpula do G7 fala por si só, ele se contentou em deixar outros líderes falarem mais. No último dia da reunião, enquanto o sol desaparecia e nuvens escuras caíam sobre o imponente cenário montanhoso atrás do Schloss Elmau, Biden usou uma tempestade como desculpa para fazer uma partida apressada para o aeroporto de Munique, abandonando um discurso que planejava fazer.

Na verdade, a falta de união é quase surreal. Na última cúpula do G7 sob a presidência alemã em 2015, os líderes ocidentais se comprometeram a libertar 500 milhões de pessoas da fome até 2030, enquanto os números só vêm aumentando desde 2017 e, em 2022, há mais de 150 milhões de pessoas sofrendo da desnutrição. O clima é outro exemplo.

O chanceler alemão Olaf Scholz foi criticado por tentar diluir os acordos sobre proteção climática internacional na cúpula do G7. Por causa da crise energética, a Alemanha está tentando reverter seu compromisso voluntário de eliminar gradualmente o financiamento público de combustíveis fósseis até o final de 2022.

Sem dúvida, este ano é importante para o clima. A comunidade internacional prometeu atualizar os planos climáticos nacionais e adaptá-los para cumprir a meta de 1,5 graus Celsius a menos antes da conferência climática da ONU no Egito em novembro e, para que isso aconteça, o G7 deve dar um bom exemplo.

Pelo contrário, a Alemanha está intensificando suas importações de carvão devido às incertezas sobre o fornecimento de gás russo. O G7 destacou o papel do aumento das entregas de gás natural liquefeito, acrescentando que “reconhece que o investimento neste setor é necessário em resposta à crise atual”. Scholz, novamente, alertou para o risco real de escassez de energia na economia alemã e um efeito dominó semelhante ao Lehman (1). Sem dúvida, esta é uma inversão flagrante da estratégia climática.

Fundamentalmente, o que tudo isso destaca é que o G7 não tem noção de como navegar em direção a uma saída de suas “sanções auto-prejudicantes” contra a Rússia. A cúpula expôs que as sanções existentes contra a Rússia foram além da capacidade da maioria dos formuladores de políticas ocidentais. E os líderes europeus estão descobrindo agora que há um preço a ser pago por novas sanções.

Certamente, há uma necessidade urgente de decidir sobre uma nova estratégia ocidental em caso de um confronto econômico prolongado com a Rússia, e educar os eleitores sobre as possíveis consequências. O governo da Alemanha alertou na semana passada sobre uma possível escassez de gás que poderia desencadear o fechamento de fábricas e um possível racionamento de fornecimento de gás para as residências.

Fonte: Indian Punchline

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