A dialética do vírus separatista

De modo geral, o separatismo pode ser visto como um fenômeno de formação de Estados-nações modernos a partir de antigos Estados-Impérios ou, a partir de outros Estados-nações construídos a partir dos colapsos de Impérios.

Para que se possa situar o tema, recordemos que os nacionalismos austríaco, húngaro, tcheco, eslovaco, iugoslavo, etc., surgem como fenômenos burgueses e modernos, são nacionalismos no sentido negativo do termo, que militaram pela destruição do Império Austro-Húngaro, uma importante força política na luta contra o atlantismo e o liberalismo.

Como esse tipo de nacionalismo sectário é sempre infinitamente fraturante, o nacionalismo iugoslavo depois se fraturou em nacionalismos croata, bósnio e sérvio. Depois, o nacionalismo sérvio se fragmentou em sérvio e montenegrino, etc. Para esses fenômenos todos se recorre, quase sempre, até à invenção de nações inexistentes.

Etnias e povos não são sinônimos. Há milhares ou dezenas de milhares de etnias no planeta e nem por isso todos precisam ou deveriam ter seus próprios Estados soberanos. Quando o atlantismo deseja que isso aconteça ele fomenta o nacionalismo dentro de uma etnia que faz parte de um povo maior, os intelectuais financiados então inventam uma “nação histórica” não raro com raízes multimilenares, inventam um idioma que, antes, era apenas dialeto ou mesmo sotaque e por aí vai.

Essa história se aplica tanto aos bósnios como aos ucranianos ou aos catalães. Mesmo aos curdos. Os curdos são um povo irânico que não foi uma nação e nunca teve um Estado-nação. Enquanto etnia irânica, os curdos sempre foram parte dos Estados-Impérios islâmicos da região, como o Império Seljúcida, o Sultanato Aiúbida, o Califado Fatímida ou o Império Otomano. De fato, novamente, boa parte dos problemas do Oriente Médio se deve aos nacionalismos separatistas artificiais fomentados pelo Ocidente para promover a desintegração do Império Otomano.

Com Pykes-Sicott, os atlantistas pretenderam traçar Estados-nações artificiais, com fronteiras instáveis e inviáveis. Como é parte do pressuposto da ideia de Estado-nação a absoluta homogeneidade étnica, daí a necessidade dos nacionalismos pós-otomanos de exterminar ou expulsar minorias, ou perseguir suas culturas e identidades.

Nesse sentido, todo separatismo é um nacionalismo moderno e daí a desconfiança que devemos ter em relação a esses tipos de discursos de tendência sectária e fraturante, independentemente de seu disfarce retórico. Nem todo nacionalismo é bom. Nem todo nacionalismo é interessante. Na prática, todo nacionalismo que não possa ser lido como um nacionalismo imperial ou um patriotismo imperial pode ser precisamente instrumentalizado ou em um sentido chauvinista ou em um sentido separatista e sectário.

O tema permanece atual na América Ibérica. Tanto o Brasil como os países vizinhos são Estados multiétnicos. Trata-se aqui de povos que emergem historicamente a partir de uma miríade de etnias. A cola que sustenta essas construções é a crença em um projeto imperial comum, vinculado à civilização ibero-americana. Daí a importância de deslegitimar a obra de construção das culturas ibero-americanas, suas histórias, seus heróis, etc. Trata-se de fomentar nacionalismos separatistas em cada etnia. Ao mesmo tempo, se fomenta nacionalismo chauvinista nas maiorias, para evitar uma integração continental.

O nacionalismo separatista também permanece atual na Europa. Lá a lógica é a seguinte: sempre que um Estado parece estar se inclinando para se retirar da UE se fomenta o separatismo para que mesmo que a saída da UE ocorra, o país não consiga sair completo e a parte separada volte à UE. Observe-se que praticamente todos os separatismos europeus mais fortes, como o escocês e o catalão, são mais pró-UE do que os Estados-nações aos quais pertencem atualmente.

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Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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