O fio da História da hegemonia liberal

Estamos em uma era de transformações globais. Como toda era de transição, até é possível escolher uma data como marco na passagem de um período para o outro, mas o mundo real é sempre muito mais gradual e cinzento. A era atual é caracterizada pelo enfraquecimento e recuo da ideologia hegemônica (o liberalismo pós-moderno) em todas as suas dimensões.

As várias dimensões do liberalismo recuam em ritmos diferentes dependendo da região do planeta, porém, de modo que só conseguimos ter uma visão completa olhando para todo o espectro temático. Uma nova era começa agora, mas tal como o Medievo ainda se fazia sentir em boa parte da Europa até o século XIX (ou mesmo início do XX), ainda passaremos um bom tempo (décadas, talvez mais de um século) combatendo o liberalismo enquanto ele segue se agarrando aos povos do mundo.

Mas vejamos as tendências por campo:

Espiritual: Todas as estatísticas apontam para um recuo do ateísmo e da irreligiosidade na maioria das regiões do mundo, com a exceção de partes do Ocidente. Nessas regiões, enquanto se verifica uma queda geral na afiliação cristã, grupos tradicionalistas cristãos vão na direção contrária e apresentam tendência de crescimento. Interessantemente, essa queda global do ateísmo não é resultado do crescimento de uma única religião específica, mas de uma miríade de tradições espirituais. Até mesmo na China se verifica um crescimento da religiosidade;

Político: O crescimento e expansão da democracia liberal pelo planeta parece ter sido interrompido. Ao contrário, Myanmar, Mali e Afeganistão apontam para uma inversão da marcha demo-liberal. Mesmo países invadidos não conseguiram consolidar regimes liberais e retornam a variações políticas militaristas, autocráticas ou mesmo tribais. Até mesmo países de importância mundial como a Rússia começam a se distanciar cada vez mais da casca demo-liberal. A tendência parece ser o crescimento de modelos cesaristas de democracia e dos movimentos populistas;

Geopolítico: Os EUA perderam sua capacidade de impor unilateralmente sua vontade ao redor do planeta. As instituições ocidentocêntricas têm sido cada vez mais questionadas em uma crise acelerada já desde a pandemia e que alcança seu auge com a operação especial militar. Coalizões alternativas como BRICS, OCX, OTSC aumentam em importância. Os vínculos ocidentais se enfraquecem e mesmo países ocupados há décadas pelos EUA começam um processo de distanciamento em relação ao atlantismo;

Econômico: Os dogmas do livre-mercado nunca foram tão questionados. Com a exceção de uns poucos países, processos de privatização começam a ser revertidos. Medidas protecionistas, programas de obras públicas e investimentos em infraestrutura voltam a estar na mesa em quase todas as partes do planeta. A pandemia acelerou a tendência de um enfoque em cadeias produtivas mais curtas e continentalizadas. Nenhum modelo único vai substituir o liberalismo econômico, os países parecem avançar na direção de modelos mistos como capitalismo de Estado, socialismo de mercado, dirigismo e outras formas alternativas que misturam socialismo, cooperativismo, estatismo e mecanismos de mercado;

Cultural: O progressismo, confiante em seu triunfo, decidiu acelerar e radicalizar em todas as suas pautas, apoiado pelas grandes corporações, pelas mídias de massa, por ONGs e por alguns governos. Apesar do recrudescimento do discurso pós-moderno, o Ocidente não conseguiu estender seus tentáculos culturais por todo o planeta e boa parte da humanidade permanece ainda intocada pelo discurso. Enquanto isso, mesmo no Ocidente, Europa e América Ibérica tendências conservadoras e patrióticas parecem estar crescendo ou se consolidando.

Em suma, estamos em uma era de transição e evidentemente a escolha de um marco cronológico simbólico sempre possui algo de arbitrário. Mas não, o mundo não voltará a ser como era 5 anos atrás.

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Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 451

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