O brasileiro é direita ou esquerda? Análise da pesquisa do DataFolha

O Datafolha tentou fazer uma leitura da população brasileira a partir de uma distinção ideológica entre Esquerda e Direita ou, mais especificamente, Esquerda, Centro-Esquerda, Centro, Centro-Direita e Direita. Como sempre, a mídia e as demais instituições liberais seguem insistindo nessa distinção caduca e obsoleta.

Os eleitorados de Lula e Bolsonaro são, claramente, transversais. Há pessoas categorizadas como direitistas que pretendem votar Lula e pessoas categorizadas como esquerdistas que pretendem votar Bolsonaro. A Folha fez alarde de que 49% do povo brasileiro se consideraria de esquerda. O número, porém, cai para 41% quando se considera apenas os temas comportamentais da pesquisa. Assim, o eleitorado de Lula seria 23% direitista, ao passo que o eleitorado de Bolsonaro seria 29% esquerdista.

O eleitorado de Ciro acaba sendo muito semelhante ao de Lula (mas conta com 27% de direitistas), sinalizando que o pedetista ainda não conseguiu transformar sua imagem em uma “terceira via”, como gostaria e deveria.

O problema mesmo está na metodologia. Por algum motivo, o Datafolha decidiu que faria 10 perguntas sobre Comportamento e 6 perguntas sobre Economia. O motivo não é bem explicado. As perguntas, por sua vez, são horríveis e pesam sempre na direção do liberalismo.

A questão sobre migração, muito alardeada, por exemplo, mistura imigrantes com migrantes e menciona que eles vêm para “trabalhar”. Ora, ninguém é contra a vinda de trabalhadores produtivos e todos distinguem entre migração internacional e nacional. Na prática, a questão é construída de modo que quem vota na opção “direitista”, assume, claramente, uma posição quase xenofóbica. Ou seja, quatro letras: viés.

A questão sobre a pena de morte também é mal formulada. Ninguém defende pena de morte para “crimes graves”, assim, formulado genericamente. As pessoas apoiam pena de morte para crimes específicos, como homicídio doloso com agravantes, latrocínio, etc.

A pergunta sobre homossexualismo também assume altos graus de genericidade. O que é ser “aceito”? Significa apoiar o casamento LGBT? A divulgação de conteúdo LGBT para crianças? Adoção LGBT? Quase todo mundo “aceita”, social e psicologicamente, homossexuais, inclusive aquelas que são contra o casamento e a adoção LGBT, paradas LGBT e propaganda pública do lobby LGBT.

O âmbito econômico também não é isento de problemas. Mais especificamente, a questão sobre depender do governo. Não querer depender do governo não tem nada de liberal. As pessoas não querem depender do governo e ainda assim querem a presença de um Estado com o qual possam contar caso precisem de ajuda. Em suma: querem um Estado atuante, colaborador e coordenador. Mas quase ninguém quer uma “babá” e tampouco é nesta noção que se baseia qualquer tipo de “socialismo”.

O último problema metodológico é que os resultados das pontuações são distribuídos de forma arbitrária entre as “posições” políticas. Para você ser categorizado como centrista, a sua pontuação direita/esquerda tem de, literalmente, empatar. Em outras palavras, é uma chance de 1/13. Por sua vez, existe uma chance de 8/13 do sujeito ser categorizado como esquerdista OU direitista: o Datafolha claramente queria forçar a atualidade da distinção. Ainda assim, 25% do eleitorado ficou precisamente na metade do caminho, apesar da metodologia desfavorável ao “centrismo”.

Conclusão: o povo brasileiro tem uma tendência bastante transversal, sendo ligeiramente conservador nos costumes e ligeiramente socialista na economia, caso descontemos as deficiências da metodologia dessa pesquisa.

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Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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