A maioria dos americanos aceita a derrota ucraniana

Os Estados Unidos seguem agindo como os donos do campo geopolítico, mas ao mesmo tempo que as vitórias não vem no âmbito militar, o desgosto do povo estadunidense cresce.

Um dos maiores think tanks americanos, o Democracy Institute, realizou recentemente uma pesquisa de opinião sobre alguns tópicos sobre a questão ucraniana, avaliando a popularidade das ações do governo Biden no conflito. Os resultados mostraram uma extrema desconfiança do povo americano em relação ao seu próprio governo, com desaprovação das atitudes que foram tomadas até agora para ajudar Kiev. Quase metade dos entrevistados mostrou que não se importava com um cenário de derrota ucraniana, o que mostra um verdadeiro fracasso das campanhas anti-russas promovidas pelas agências de mídia de massa.

Os dados mostram como os americanos estão cansados de ver seu governo envolvido em um conflito cujos resultados não trarão nenhuma melhoria para o povo. Apenas 36% dos entrevistados disseram apoiar a política de Biden na Ucrânia, enquanto 53% disseram ser contra. Os números referentes a outras perguntas feitas aos entrevistados corroboram a impopularidade do presidente democrata. Por exemplo, 45% disseram que ficariam bem se os EUA “permitissem” a derrota ucraniana, parando de enviar ajuda militar e deixando o conflito terminar com a inevitável vitória russa. Na mesma linha, 50% dos entrevistados foram contra os pacotes de ajuda de bilhões de dólares para a Ucrânia, e apenas 5% afirmaram ver Kiev como uma prioridade para os EUA.

Além disso, 16% dos entrevistados afirmaram que gostariam de ver o presidente russo Vladimir Putin como o líder dos EUA. Apesar do número ser bastante minoritário, a peculiaridade da pergunta torna a resposta deveras curiosa. Aparentemente, uma parcela dos americanos tem mais simpatia pelo presidente da maior nação rival de Washington do que pelo próprio líder da Casa Branca. Isso revela não apenas o quão impopular Biden é atualmente, mas também como o povo americano está deixando de acreditar nas narrativas da mídia tradicional e começando a ter simpatia por líderes políticos que contradizem os interesses ocidentais.

Os resultados, embora curiosos, eram realmente esperados. O apoio popular americano à gestão de Biden da crise ucraniana tem sido mínimo. As razões são óbvias: não há melhora proveniente da participação americana no conflito. Mais do que isso, a vida do povo americano piorou significativamente, pois a crise econômica, que existia antes da Rússia lançar a operação militar especial, foi agravada pela constante transferência de dinheiro público para Kiev. Na vida do cidadão americano, o conflito ucraniano representa inflação descontrolada e crise de abastecimento, além do medo constante de uma escalada na Europa que envolva o país em mais uma guerra.

Em qualquer sociedade, a opinião pública é formada não apenas pela propaganda da mídia de massa, mas também pela experiência direta das pessoas. Não importa o quanto as agências de mídia digam que é “necessário” apoiar a Ucrânia, se esse apoio se materializar em prejudicar a vida dos cidadãos comuns, a popularidade das medidas será inevitavelmente baixa. Em meio a uma grave crise social e econômica, acumulando problemas como falta de alimentação para crianças, desemprego, crescimento da criminalidade e imigração ilegal, a tendência é que os cidadãos americanos ignorem qualquer questão de política externa e exijam de seu governo um foco na problemas domésticos. Claro, isso inclui a demanda popular para que o dinheiro público deixe de ser gasto na Ucrânia e comece a ser investido para aliviar os efeitos da emergência interna.

Comentando o caso durante uma entrevista recente, o diretor fundador do Democracy Institute, Patrick Basham, disse: “Uma pluralidade de americanos pode aceitar que a Ucrânia perca o conflito com a Rússia porque eles não consideram o conflito de extrema importância para eles. Os americanos estão preocupados com problemas econômicos e sociais em casa, como inflação, interrupções na cadeia de suprimentos, crime e imigração ilegal. Esses problemas os afetam todos os dias e das maneiras mais tangíveis. O conflito na Ucrânia não. Portanto, os americanos continuam se opondo as ações russas na Ucrânia, mas eles não veem essas ações como necessariamente uma ameaça ao próprio povo americano”.

Além disso, é necessário mencionar o fato de que a narrativa ocidental está arruinada. O avanço russo em Azovstal impossibilitou qualquer pretensão de “vitória ucraniana”, o que levou inclusive muitos analistas pró-ocidentais, para salvar sua credibilidade, a reverter alguns de seus argumentos anteriores e começar a admitir o evidente cenário de derrota do forças de Kiev. Não é realista acreditar que a Ucrânia, recebendo ajuda ocidental, será capaz de reverter a situação do conflito. E as pessoas comuns estão começando a perceber isso, percebendo que seu dinheiro de impostos está sendo gasto desnecessariamente em um conflito onde a vitória do proxy dos EUA é impossível.

De fato, o apoio popular à política externa americana depende da estabilidade econômica e social doméstica, que não pode ser alcançada hoje. Se o Partido Democrata quiser permanecer no poder nas próximas eleições, o que deve ser feito é simplesmente uma forte pressão interna para que Biden resolva as demandas nacionais e pare de se preocupar com conflitos em outros continentes. Caso contrário, a impopularidade de Biden se materializará em protestos em massa e apoio aos republicanos.

Fonte: Infobrics

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 451

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