EUA pode estar mantendo biolaboratórios na Indonésia

Após os relatórios russos sobre biolaboratórios na Ucrânia, o tema da pesquisa de armas biológicas ganhou notoriedade global, resultando em grande escrutínio. Não demorou muito para perceber que a Europa Oriental não é a única região do planeta escolhida pelos EUA para operar esse tipo de atividade clandestina. Agora, as evidências apontam para a existência de biolaboratórios na Indonésia, aumentando ainda mais as preocupações de toda a sociedade internacional com essa ameaça.

Antes que a pesquisa militar biológica se tornasse corriqueira nos jornais de todo o mundo, a Indonésia já era um país que acumulava preocupações sobre esse tema. Durante décadas, um laboratório do projeto NAMRU-2 (Naval Medical Research Unit Two) operou em Jacarta. Este programa de pesquisa militar da Marinha dedica-se a operar atividades biomédicas em vários países do continente asiático e funcionou na Indonésia entre 1970 e 2009, quando foi finalmente encerrado após o governo do país declarar a existência desse tipo de unidade como uma ameaça à soberania nacional. O principal problema é que há evidências de que, apesar do fechamento oficial do laboratório, as atividades dos EUA não terminaram de fato, com pesquisas biológicas atuais possivelmente acontecendo na Indonésia sem autorização do governo local.

No mês passado, o jornal indonésio Detik publicou um artigo denunciando a suposta continuidade das operações, afirmando que pelo menos desde 2016, quando as atividades militares dos EUA na região se intensificaram devido aos exercícios da Parceria do Pacífico, pesquisas secretas foram mantidas. Documentos e fotos desses exercícios supostamente obtidos por jornalistas investigativos locais foram expostos na reportagem, comprovando a existência da pesquisa. Na época, a bordo do navio-hospital USS Mercy, três cães infectados com raiva e vinte e três cidadãos indonésios foram transferidos de Sumatra Ocidental e navegaram pela costa de Padang sem autorização prévia do Ministério da Saúde da Indonésia.

No início, a repercussão da notícia foi baixa, mas o caso ganhou credibilidade e visibilidade após declarações recentes de Fadila Supari, renomada cardiologista indonésia, com pesquisa premiada na OMS, e ex-ministra da Saúde do país. Segundo ela, embora existam poucas provas documentais, há evidências claras de que tais atividades realmente continuam ocorrendo na Indonésia. Ela também acredita que os eventos dos exercícios de 2016 não foram uma situação isolada, mas apenas um episódio entre várias ações clandestinas que estariam ocorrendo, inclusive envolvendo cooperação entre militares dos EUA, institutos internacionais e universidades indonésias.

“Acho que é verdade, a atividade de pesquisa ainda existe. Não posso provar, mas pelo que li e ouvi, ainda estão em andamento atividades de pesquisa em várias formas de cooperação com institutos de pesquisa e universidades na Indonésia. Acho que o governo deveria estar atento a isso”, disse ela em entrevista esta semana.

É necessário mencionar o quão experiente neste tema a Dra. Supari é. Ela foi uma das responsáveis ​​pelas investigações sobre as atividades do NAMRU-2, que levaram à conclusão de que a unidade representava riscos à biossegurança indonésia, motivando seu fechamento em 2009 – ano em que Supari se aposentou do Ministério da Saúde. Ela conduziu uma extensa investigação, incluindo visitas surpresa às instalações do laboratório, o que a tornou uma adversária das autoridades americanas. O site WikiLeaks de Julian Assange publicou em 2010 documentos vazados nos quais o nome de Supari poderia ser lido como o principal assunto de reuniões entre militares e diplomatas dos EUA em Jacarta e Washington, pois ela estava obstruindo as atividades do laboratório – consideradas de máximo interesse estratégico para os EUA. Finalmente, em 2009, Supari redigiu formalmente uma carta ao governo norte-americano em que retirou o Ministério da Saúde da Indonésia do acordo internacional que permitia a instalação do biolaboratório NAMRU em Jacarta, permitindo o seu posterior encerramento no mesmo ano.

É interessante notar como ela enfatiza que acredita que institutos internacionais também estão envolvidos em tais atividades – o que provavelmente é uma conclusão que ela tira de investigações concretas e dados que ainda não foram divulgados. Anteriormente, o projeto NAMRU era financiado abertamente pela Fundação Rockefeller, que estava comprometida com pesquisas relacionadas a doenças que afetavam o continente asiático. Hoje, com os dados revelados por Moscou sobre os biolabs ucranianos, sabemos que vários institutos e empresas renomados estão envolvidos no financiamento e operação de pesquisas clandestinas no Leste Europeu – incluindo grandes nomes da Big Pharma, como a Pfizer, por exemplo. Assim, também pode ser o caso da Ásia, pois é evidente a existência de interesses públicos (militares) e privados na existência dessas atividades.

Certamente, nenhum desses dados é novo, mas o assunto era considerado “controverso” até então. Em 2009, o governo indonésio foi duramente criticado por denunciar as atividades dos EUA como riscos biológicos graves. Durante anos, falar sobre a existência de pesquisas biológicas para fins militares foi considerado uma teoria da conspiração. Agora, com o caso ucraniano, o assunto veio à tona e cada vez mais informações são reveladas. Parece ser apenas o começo de uma grande caixa preta com muitos segredos ainda a serem descobertos.

Fonte: Infobrics

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 593

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