O cação e o problema da regulamentação e fiscalização ambiental

Na justa e necessária reflexão alimentar levantada por grupos e campanhas de conscientização e preservação ambiental, seguidamente nos encontramos no meio de uma disputa narrativa que inclui, como sempre, uma mescla de pauta justa e agendas obscuras que ignoram nossa cultura e soberania, que seria resolvida com o trabalho correto de regulação. O exemplo do cação é valioso.

Nos últimos anos, tem crescido a atenção coletiva para a questão da conservação dos tubarões. Isso tem sido o resultado direto de algumas campanhas, como a “Cação é tubarão”, que visa conscientizar a população brasileira de que, ao comprar o genérico “cação” no supermercado, está simplesmente ingerindo carne de tubarão.

Acho isso tudo muito positivo. E fico também um tanto impressionado de saber que a maior parte das pessoas não conhece o fato de que cação é realmente tubarão – eu cresci sabendo, mas venho de família de pescadores. O único problema é que as informações que tem sido divulgadas sobre isso não costumam abarcar a totalidade do problema em torno dos tubarões.

Basicamente, a campanha de conscientização traz consigo um intuito de boicote (como era de se esperar das ONGs ambientalistas). Algo como “Cação é tubarão, então pare de comer cação”. Como justificativa para o desincentivo ao consumo de tubarão, alega-se, corretamente, que muitas espécies ameaçadas estão sendo comercializadas e que as carcaças consumidas aqui sob a alcunha de “cação” são provenientes da prática do “shark finning” (o ato de caçar tubarões apenas para recolher suas nadadeiras/barbatanas). Mas o problema vai muito além disso.

A verdade é que o comércio de “cação” é uma grande reciclagem da pesca industrial. O Brasil é o maior importador mundial de carne de tubarão. E essa carne vem realmente do mercado de pesca para extração de nadadeiras. No mundo todo, se valoriza a carne das nadadeiras (que chega a mil dólares por quilo), mas o restante do corpo não possui grande valor. No Brasil, por outro lado, a carne de elasmobrânquios (tubarões e raias) está fortemente inserida na culinária popular, então importamos as carcaças que seriam descartadas em outros países.

O grande problema é que não há, de nossa parte, distinção de espécies e, com isso, o controle dos animais consumidos aqui fica precário, pois passa a depender do rigor da fiscalização estrangeira. Ou seja, se um país fechar os olhos para que navios de pesca abatam espécies ameaçadas de tubarões em sua costa, nós certamente comeremos essas espécies quando importarmos as carcaças pescadas nesse país. Nisso, de fato, animais ameaçados podem estar sendo consumidos em larga escala por aqui.

Agora, vamos imaginar que o consumo de cação seja simplesmente erradicado no Brasil. O que mudará? Absolutamente nada, pois a pesca para extração de nadadeiras/barbatanas continuará acontecendo livremente no exterior. Mais do que isso: o fim da importação poderia gerar como efeito colateral um aumento da demanda da pesca doméstica de tubarões, o que seria extremamente negativo.

Enfim, mais uma vez, uma bandeira justa é mesclada a várias pautas de grupos que tentam se aproveitar de um problema real para empurrar suas agendas. A conscientização sobre cação ser tubarão é necessária – afinal, todo mundo precisa saber o que põe no próprio prato -, mas a solução não está no desincentivo ao consumo, mas na pressão para que sejam impostas regras de controle, havendo uma lista de espécies não-ameaçadas com importação autorizada, além de forte fiscalização através de identificação de carcaças.

O gosto brasileiro pelo tubarão vem de muito tempo. Nossa costa sempre foi palco de espetaculares cenários de caça a elasmobrânquios. Há relatos de povos indígenas na Mata Atlântica que mergulhavam armados com lanças, nadando ao lado de tubarões para abatê-los dentro da água. É um sabor enraizado em nossa cultura, ainda que alienado pela alcunha comercial do “cação” nos meios mais urbanos (em zonas costeiras, todo mundo sabe que cação é tubarão).

No mesmo sentido, a proibição da pesca artesanal desses animais é totalmente desnecessária. Ao contrário do que possa parecer, tubarões são animais que evoluíram para as formas de reprodução mais variadas e eficientes, inclusive por partenogênese em algumas espécies. A pesca artesanal não é capaz de impactar as populações, cujas únicas ameaças são a pesca industrial (alimentada pelo shark finning) e os desequilíbrios em cadeia, provocados por poluição ou diminuição de alimentos.

Além disso, outro argumento muito usado por quem defende o fim do consumo de “cação” é o de que a carne de tubarão oferece risco à saúde humana devido ao acúmulo de substâncias que os tubarões, sendo predadores, adquirem ao longo da vida com a ingestão de suas presas. Há um fundo de verdade nisso. O ser humano evoluiu seu comportamento para desprezar a carne de predadores justamente pelos riscos de contaminação. Mas a alcunha do “cação” engloba uma ampla variedade de peixes cartilaginosos, incluindo milhares de animais que se alimentam quase exclusivamente de invertebrados (como a raia-viola, por exemplo). Então, há um exagero imenso em dizer simplesmente que “cação faz mal à saúde”.

O que falta, no fim, é regulação e fiscalização. O mais correto sempre dá mais trabalho, mas é o que deve ser feito.

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 451

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