O que a Igreja quer dizer quando condena o socialismo?

No dia do trabalhador e no 31° aniversário da Encíclica “Centesimus annus” de São João Paulo II, cumpre responder uma pergunta: o que a Igreja realmente quer dizer quando condena o socialismo?

Não sei como está a situação hoje frente à realidade concreta do Brasil, mas há uns anos eu percebia que o uso do magistério social católico era feito principalmente para atacar os vermelhos, e por pessoas que, conscientemente ou não, defendiam que o capitalismo e o individualismo social e filosófico eram modelos essencialmente mais conservadores que o socialismo. A crítica aberta ao liberalismo definitivamente não era comum, e abundavam ataques a coisas classificadas como “estatismo”, “coletivismo”, “positivismo” e afins, coisas essas que geralmente não passavam de direitos dos mais básicos comuns a todas as sociedades sãs com os quais ficamos “acostumados” a viver sem nas últimas décadas. Bem, é aqui que a “Centesimus annus” vem à nossa ajuda.

A ambivalente crítica ao socialismo e ao capitalismo permanece (isso é marca de todas as encíclicas sociais), só que a crítica ao socialismo se apresenta dividida em dois pontos principais: primeiro, o ateísmo do “socialismo real” e, segundo, como a experiência concreta deste “socialismo real” dizimou a presença proliferada da propriedade privada nas “organizações intermediárias” entre o indivíduo e o Estado: as cooperativas ou empresas de capital misto, as associações de operários, guildas, sindicatos, etc; em suma, tudo passa para a posse “coletiva” do Estado.

Portanto, para SJPII, a reestruturação de um mundo pós-socialista do pós-1991 que almejasse, de igual modo, superar o capitalismo, deveria passar pela reestruturação dessas organizações intermediárias. Muita tinta é gasta na Encíclica para descrever termos como atividade sindical organizada e combativa (sim, “combativa”), associações operárias com o fim de fazer pressão para ditar os salários, solicitar direitos mais amplos como aposentadoria, formação profissional, previdência social, pensões, seguros, prevenção de acidentes, etc. Aliás, sabe o seria um salário justo para SJPII? Um salário familiar, aquele capaz de sustentar o trabalhador e sua família com o esforço do ofício daquele.

Também são mencionadas as empresas mistas, cooperativas de produção ou empresas com participação democrática dos trabalhadores em sua gestão. Por fim, fala-se em linhas de crédito e outros direitos universais devidos ao trabalhador diretamente pelo Estado.

Em suma, o contrário do socialismo ateu e estatizante não é a sociedade de mercado individualista e privatista que se impõe no país há literais décadas. A solução proposta passa tranquilamente como socialismo pra muita gente. Os de direita rasgam as vestes, os adeptos de socialismo cristão louvam. Desde que se permaneçam nas rédeas da Doutrina Social, é uma questão de palavras.

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João Guilherme Pianezzola

Estudante de TI, católico e trabalhista.

Artigos: 585

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