Todos contra Le Pen: o bipartidarismo subjacente da França

A união entre esquerda, direita e centro para barrar Le Pen no segundo turno das eleições presidenciais da França torna evidente a obsolescência da dicotomia esquerda versus direita, revelando o caráter suprapartidário e supraideológico das forças hegemônicas globalistas.

Como estamos prestes a falar de França, é pertinente evocar uma frase do ilustre francês Alain de Benoist:

Não há nada mais trágico que a incapacidade de entender o momento histórico que estamos atravessando atualmente.

Baluarte acidental da chamada Nouvelle Droite, de Benoist é mais uma prova viva de que a corrente antiglobalista da Europa Ocidental sempre veio da direita. Esse fato tem um peso ainda maior na França, berço do fatídico Maio de 68 que sequestrou qualquer caráter verdadeiramente anti-sistema da esquerda europeia de forma generalizada, tornando-a cultural e politicamente submissa ao liberalismo, adepta de um reformismo pueril, intrinsecamente burguesa e social-democrata. Para manter o foco na França, podemos citar nomes dissidentes mais ou menos recentes à direita como Christian Bouchet, Dominique Venner, Jean-Gilles Malliarakis e até mesmo o próprio Jean-Marie Le Pen. Certamente não foi esse o caso da Iberoamérica do século XX, que viu florescer figuras políticas dissidentes e verdadeiramente revolucionárias à esquerda como Hugo Chávez, Salvador Allende e Fidel Castro.

A conclusão que tiramos disso é que a compreensão de facto do momento histórico que atravessamos atualmente culmina de forma inevitável na realização primeira de que, extracontextualizada (ou seja, a nível universal e atemporal, estando egressa de uma conjuntura pontual que diz respeito a um Grande Espaço específico), a dicotomia direita versus esquerda muitas vezes beira a inutilidade. Como sabemos, ela foi um instrumento criado justamente para servir a um determinado momento histórico que, para muitos, representou o nascimento da modernidade que visamos varrer para o lixo da história. Ademais, conclui-se também que o antiglobalista radical deve apoiar, simultaneamente, um Castillo no Peru e um Orbán na Hungria, e que não há qualquer contradição entre ambas essas posições fora dos confins da dicotomia supracitada. A própria Hungria, em grande parte por fazer parte da periferia europeia não-tão-Ocidental e ser um dos elos espaciais e espirituais entre o Primeiro Mundo e o Segundo, mesmo estando inserida na União Europeia, consegue entender isso bem melhor do que seus vizinhos franceses a oeste.

O apelo do “socialista” Jean-Luc Mélenchon pelo clássico voto pragmático contra o suposto fascismo de Marine Le Pen no segundo turno francês após a sua derrota prematura só reafirma essa natureza extremamente sectária e pós-moderna da esquerda europeia dominada pelo romantismo político burguês denunciado por Carl Schmitt. Apesar de Mélenchon estar claramente mais alinhado à “fascista” Le Pen do que ao Rothschild honorário Emmanuel Macron em noventa por cento de suas posições, é simplesmente anátema para um autointitulado “socialista” no Ocidente sequer cogitar apoiar uma candidata de “extrema-direita”, mesmo quando a única alternativa é a mais pura encarnação de tudo que você afirma odiar. Nem mesmo Leon Trótski, maior referência ideológica de Mélenchon, caiu em tais armadilhas; pelo contrário, fez questão de declarar que apoiaria o “fascista” Getúlio Vargas em uma hipotética guerra entre o Brasil e a Inglaterra liberal, dado que, segundo ele, tal embate configuraria para o Estado Novo uma luta anti-imperialista. Se até o sectário-mor Trótski afirmou que apoiaria Vargas apesar de diversas divergências fundamentais — ainda que vislumbrando uma futura derrubada de seu governo —, por que então não poderia Mélenchon apoiar Le Pen? A resposta é simples: porque a política perdeu o seu caráter concreto e passou a ser um mero exercício puramente platônico (no sentido popular da palavra).

O mais triste nisso tudo é que Mélenchon, apesar de ter provado ser um pelego inofensivo em comparação a Le Pen, sabe muito bem que, caso tivesse sido ele o cotado para enfrentar Macron no segundo turno, sofreria os mesmos golpes que ela está a sofrer agora. Pouco importa isso para ele, entretanto, dado que parece seguir a mesma linha política que seguem o seu amigo Lula e o PT no Brasil; tudo pelo poder, nada pela nação. Afinal, uma coisa é óbvia: no momento que os franceses tiverem um gosto do populismo de “extrema-direita” de Le Pen, após tantos anos de submissão nada gaullista, a esquerda francesa perderá quaisquer chances que ainda tem de alcançar esse poder. Nada de novo nisso, é simplesmente o velho “jogo democrático” liberal que já conhecemos. É, porém, preocupante perceber que tal jogo permanece intacto mesmo quando é levado em conta o momento geopolítico de caráter absolutamente excepcional e oportuno que estamos vivendo e sabendo que, nesta eleição, está em jogo uma saída da OTAN (coisa que Mélenchon defendia com unhas e dentes) que impediria que a França desmoronasse junto com esse sistema de segurança em falência iminente. Está em jogo também uma saída da União Europeia, que daria à França a possibilidade de exercer políticas internas e externas independentes dos mandos e desmandos de Bruxelas, visando apenas seus próprios interesses socioeconômicos.

Parece, em muitos aspectos, ser um espelho das eleições estadunidenses de 2016 e 2020. A importação europeia desenfreada do espírito ianque trouxe também consigo o câncer político que elegeu Joe Biden a contragosto da maioria da população e de seus próprios eleitores. A França viverá a mesma desilusão amarga se reeleger Macron, cujos números no primeiro turno não são nada agradáveis para alguém que busca reeleição. Estão todos contra Le Pen: direita, esquerda e centro. Estão todos unidos da mesma forma que estiveram contra Donald Trump. No fim, tudo é reduzido a uma espécie de bipartidarismo à la États-Unis com um twist suprapartidário mais europeu: globalistas versus antiglobalistas; os primeiros formando, sempre que for necessário, uma “frente ampla” informal e circunstancial para derrotar os segundos. A rasa dicotomia direita versus esquerda segue e seguirá sendo instrumentalizada a fim de manter o status quo a qualquer custo até que não haja mais suco possível a ser tirado dela, mas se mostra uma fachada insustentável e apolítica em quaisquer momentos cruciais. Casos como este fazem vir à tona também uma outra frase, desta vez do italiano Diego Fusaro:

O totalitarismo do sistema liberal está no fato que ele aceita um liberalismo de direita, de centro e de esquerda. Mas não pode aceitar aquele que não seja liberal.

Beto Farías

Membro NR-RS e tradutor independente.

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