Assembleia Nacional do Paquistão é dissolvida e primeiro-ministro é exonerado

Em meio a conspirações apoiadas pelos EUA, anúncios de golpe branco e planos para assassinar o primeiro-ministro Imran Khan, o presidente Arif Alvi desesperou seus apoiadores e revoltou seus opositores com a medida dramática.

Nas eleições de 2018, consolidou-se como maior força política do país o Movimento Paquistanês pela Justiça (PTI), sob as bandeiras do nacionalismo, do populismo, da democracia islâmica e do regionalismo, elegendo o presidente Arif Alvi e o primeiro-ministro Imran Khan.

Deste então, a política externa paquistanesa tem se caracterizado por relações mais pacíficas com a Índia no conflito da Caxemira, envolvimento mais ativo na pacificação do Afeganistão e fortalecimento das relações bilaterais tanto com os EUA de Trump como com a Rússia e a China, inclusive intercedendo pela comunidade muçulmana de Sinquião.

Com o fim do governo Trump, a estratégia globalista dos EUA se moveu em uma direção notoriamente menos cooperativa, deteriorando as relações com potências regionais verdadeiramente soberanas, como o Paquistão cada vez mais demonstrava ser.

Em fevereiro de 2022, simultaneamente ao início das operações russas na Ucrânia, Khan se encontrou com Putin. Em março, iniciaram-se contra Khan processos de moção de censura liderados pela Liga Muçulmana do Paquistão, partido controlado pelo banqueiro pró-EUA Nawaz Sharif, que exercera o cargo de primeiro-ministro até os Papéis do Panamá revelarem seu envolvimento com corrupção e lavagem de dinheiro internacional.

A situação se escalou rapidamente na última semana. Na última quarta-feira (30/3), o líder do Movimento Paquistanês pela Justiça, Faisal Vawda, alegou que haveria planos para assassinar Khan, o que historicamente não é tão é uma forma tão incomum de se resolverem disputas políticas no país. Na sexta-feira (1/4), o Ministério da Informação e Radiodifusão confirmou as alegações. Khan fez um discurso em que citou um memorando dos EUA sugerindo sua deposição em tom ameaçador, imediatamente fingindo ter se confundido. A Casa Branca, claro, negou qualquer envolvimento.

A fim de interromper a veloz radicalização política e a pedido do próprio Khan, o presidente Alvi dissolveu hoje (3/4) a Assembleia Nacional, exonerando Khan e agendando eleições para daqui a três meses. Seus apoiadores se revoltaram com a necessidade de uma medida tão radical, enquanto seus opositores inverteram a situação e estão acusando o Movimento Paquistanês pela Justiça de conspiração e golpe branco, apesar de tudo ter sido no feito nos termos delineados pela Constituição do Paquistão.

P.S.: Pouco após o fechamento deste artigo, Imran Khan foi mantido em capacidade interina, o que significa que, pelos próximos 15 dias, podendo ser renovado até 3 meses, terá a responsabilidade de garantir eleições livres e justas no país. Ainda, confirmou que o responsável pela tentativa frustrada de derrubá-lo foi Donald Lu, Secretário de Estado Adjunto para a Ásia do Sul e Central dos Estados Unidos, que recentemente encontrou-se com oficiais da embaixada paquistanesa e manifestou o desejo de Joe Biden e do Conselho de Segurança Nacional por uma mudança de regime.

Rafael Alexandre

Militante, jornalista e professor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *