Ucrânia: A Grande Manipulação

Da mobilização de farsas midiáticas, passando pela instrumentalização da religião, o Ocidente tem utilizado diversos mecanismos para enfrentar a Rússia no conflito atual entre a potência eurasiática e a OTAN. A Rússia, por sua vez, aproveita a oportunidade para reforçar os laços com os países da Comunidade Econômica Eurasiática e os BRICS.

As operações militares continuam na Ucrânia com duas narrativas radicalmente diferentes, dependendo se se escuta a mídia ocidental ou russa. Estas duas versões divergem não apenas na descrição da guerra, mas mais importante ainda na descrição dos objetivos da guerra.

No Ocidente, o público está convencido de que o exército russo tem enormes problemas logísticos e não consegue abastecer seus tanques. Seus aviões atacam indiscriminadamente alvos militares e civis, destruindo indiscriminadamente cidades inteiras. O ditador Putin não ficará satisfeito até que esmague Kiev e mate o presidente eleito Zelenski. Aos seus olhos, a Ucrânia é culpada de ter escolhido a democracia em 2014, ao invés de reconstituir a União Soviética. Até lá, ele semeia morte e desolação sobre uma população civil, enquanto seus soldados são mortos em grande escala.

Pelo contrário, na Rússia, acredita-se que os combates são limitados a áreas específicas, o Donbass, a costa do Mar de Azov e alvos militares em todos os outros lugares. Certamente, houve algumas baixas, mas não um massacre. Observa-se com espanto o apoio que os antigos aliados da Grande Guerra Patriótica (a Segunda Guerra Mundial) dão aos banderistas, os neonazistas ucranianos. Esperamos até que todos eles sejam neutralizados para que a paz possa voltar.

Em segundo plano, o Ocidente lançou uma guerra econômica e financeira contra a Rússia. Muitas empresas ocidentais estão deixando o país e são imediatamente substituídas por outras de países não envolvidos nesta guerra. Por exemplo, os restaurantes McDonald’s serão substituídos pela cadeia turca Chitik Chicken, enquanto os Emirados Árabes Unidos recebem os oligarcas expulsos da Europa. A China e a Comunidade Econômica Eurasiática estão planejando criar um sistema econômico e financeiro paralelo ao sistema de Bretton Woods. Em resumo, o mundo está sendo dividido em dois.

Quem está dizendo a verdade?

A guerra propriamente dita

Segundo observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), ou seja, o fórum intergovernamental criado pelos Acordos de Helsinki (1973-75), a frente do Donbass ficou estável por vários meses, quando o bombardeio recomeçou na quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022, para atingir seu auge na sexta-feira 18 (mais de 1.400 explosões ouvidas).

Na noite do dia 18, teve início a reunião anual das elites da OTAN, a “Conferência de Segurança de Munique”. Um dos convidados mais destacados foi o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski. No dia 19, ele tomou a palavra e declarou que seu país tinha ambições de adquirir armas nucleares contra a Rússia. No dia 20, a Duma estava em tumulto em Moscou e votou uma moção pedindo ao Presidente Putin que reconhecesse as duas repúblicas do Donbass como independentes, o que ele fez com pressa na noite do dia 21. Não havia sequer bandeiras das duas novas nações no Kremlin.

No dia 24, a operação militar russa começou com um bombardeio maciço de sistemas antiaéreos, depois das fábricas de armas e quartéis banderistas (neonazistas ucranianos). A estratégia militar russa foi improvisada, assim como o reconhecimento diplomático das repúblicas de Donbass. As tropas destacadas já estavam exaustas pelas manobras que acabavam de realizar na Bielorrússia.

A Casa Branca e a imprensa ocidental, por outro lado, ignorando a guerra no Donbass e as declarações do Presidente Zelenski, afirmaram que tudo isso havia sido planejado por muito tempo e que as tropas russas haviam sido posicionadas com antecedência. O ditador Putin, não apoiando a escolha dos ucranianos pela democracia, forçou-os a reintegrar seu Império como Leonid Brezhnev havia forçado os tchecoslovacos a se alinharem em 1968. Esta leitura dos acontecimentos causou pânico entre todos os antigos membros do Pacto de Varsóvia e da União Soviética (que esqueceram que Brezhnev não era russo, mas ucraniano).

Desde então, aplicando a técnica desenvolvida por Jamie Shea durante a guerra do Cosovo, a OTAN tem escrito diariamente uma nova história edificante sobre os crimes da Rússia. Vai desde o bombardeio irresponsável de uma usina nuclear ucraniana na fronteira russa até a comovente anedota de uma jovem criança que alcança a liberdade sozinha atravessando a Europa até Berlim. Tudo isso é ridículo e terrível, mas amplamente divulgado sem reflexão ou verificação por parte da mídia ocidental.

A guerra diplomática

Com as coisas indo mal para o exército ucraniano e seus apoiadores banderistas (ou “neonazistas” em terminologia russa), o Presidente Zelenski pediu à embaixada chinesa em Kiev que enviasse um pedido de negociações ao Kremlin no segundo dia do conflito. Os Estados Unidos inicialmente se opuseram, mas depois permitiram que isso acontecesse. Durante os contatos, a França e a Alemanha tomaram iniciativas antes de serem substituídas pela Turquia e Israel. Isto é bastante normal. De fato, a França e a Alemanha falharam em suas responsabilidades ao permitir que Kiev massacrasse 13.000 a 22.000 pessoas, violando os acordos de Minsk dos quais eles eram os garantidores. Enquanto a Turquia apoiava os tártaros ucranianos sem tomar nenhuma medida na Ucrânia, e Israel subitamente tomou consciência de que o perigo banderista (ou seja, “neonazista”) que seu embaixador em Kiev estava denunciando era real.

Estas negociações estão indo bem, apesar do assassinato pelo banditismo ucraniano de um delegado de seu próprio país, o banqueiro Denis Kireev, culpado aos seus olhos de ter afirmado que ucranianos e russos eram irmãos eslavos. Apesar do erro do ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, que achou inteligente lembrá-los de que a França é uma potência nuclear, fazendo com que a Rússia entrasse em alerta nuclear.

Estas negociações poderiam terminar de uma maneira difícil de imaginar: A Ucrânia, que incluiu 102.000 criminosos em suas forças de defesa territorial, poderia ser desarmada e colocada sob a proteção dos Estados Unidos e do Reino Unido (ou seja, na prática, da OTAN). Esta é a única maneira de cumprir os tratados, incluindo as declarações de Istambul (1999) e Astana (2010). A Ucrânia tem o direito de escolher seus aliados, mas não de receber armas estrangeiras em seu país. Ela pode, portanto, assinar acordos de defesa, mas não pode ser colocada em um comando integrado. Esta é uma posição muito gaullista: Charles De Gaulle manteve a assinatura da França no Tratado do Atlântico Norte, mas retirou o exército francês do comando integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e expulsou os soldados norte-americanos do solo francês.

A Rússia deve ocupar permanentemente, ou mesmo anexar, a costa do Mar de Azov (incluindo Mariupol) a fim de juntar a Crimeia ao Donbass. Além disso, deve ocupar, ou mesmo anexar, o Canal Norte da Crimeia, que fornece água potável para a península da Crimeia. Finalmente, poderia ocupar ou mesmo anexar a costa do Mar Negro (incluindo Odessa) a fim de se unir a Crimeia à Transnístria. A minoria húngara, também vítima dos banderistas que fecharam suas escolas, poderia ser anexada à Hungria. Entretanto, o melhor é o inimigo do bom: A perda do acesso ao mar por parte da Ucrânia pode ser uma causa de conflitos futuros.

A única coisa certa é que a Rússia continuará sua ação até que todo o banditismo tenha sido neutralizado e que Israel a apoiará nisto, mas não além. Deste ponto de vista, a reunião que o Presidente Putin convocou em Moscou “contra os nazistas” não é uma simples mensagem de determinação para sua opinião pública, já é um grito de vitória. Todos os monumentos a Stepan Bandera e outros devem ser destruídos. As outras nações que apoiaram os neonazistas, incluindo a Letônia, devem entender isso.

A guerra econômica e financeira

É aqui que tudo está em jogo para os Estados Unidos. Em poucos dias, eles conseguiram fazer com que todos os seus aliados tomassem medidas unilaterais (e, portanto, ilegais sob o direito internacional). Mas estas medidas, descritas como “sanções” embora sem julgamento, não são sustentáveis a médio prazo. Elas já levaram a uma especulação desenfreada sobre a energia e a um aumento imediato dos preços na Europa. As grandes empresas europeias estão deixando a Rússia com o coração pesado. Elas garantem ao Kremlin que não têm escolha e esperam retornar o mais rápido possível.

O Presidente Vladimir Putin apresenta os liberais que foram acusados não há muito tempo de serem vendidos a estrangeiros. O ex-presidente Dmitri Medvedev está de volta. A presidente do Banco Central Russo, Elvira Nabiullina, que foi escolhida na época do romance com o Ocidente, foi apresentada à Duma para suceder a si mesma, mas agora para trabalhar com outros parceiros. Sergey Glazyev, cujo nome estava associado às privatizações da era Ielstin, foi encarregado da criação de um novo sistema econômico e financeiro para substituir o concebido pelos anglo-saxões em 1944, Bretton Woods. Tudo está perdoado desde que garantam aos chineses e à Comunidade Econômica Eurasiática (Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão) que não serão estatistas.

A guerra ideológica

A paz na Ucrânia não vai resolver o conflito russo-americano aberto desde 17 de dezembro de 2021. Ele continuará com outros confrontos. Por sua vez, os straussianos, que usaram e abusaram de argumentos religiosos para atacar a Rússia na Bósnia-Herzegovina, Afeganistão, Chechênia e no Oriente Médio em geral, pretendem utilizá-los em escala global.

Recordemos que o orientalista straussiano Bernard Lewis (ex-oficial da inteligência britânica, então membro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, então conselheiro de Benjamin Netanyahu) havia idealizado uma forma de mobilizar os árabes, ao invés do Ocidente, contra os russos. Era a estratégia do “choque de civilizações”. Ele explicou que no Afeganistão, os crentes muçulmanos tinham que lutar contra os soviéticos ateus. Esta visão foi concretizada pelos árabes-afegãos de Osama bin Laden. A mesma estratégia foi utilizada com sucesso na Bósnia-Herzegovina e na Chechênia. No primeiro teatro de operações, a OTAN contou com o exército saudita e a Guarda Revolucionária Iraniana (assim como alguns elementos do Hezbollah libanês). Um straussiano, Richard Perle, chegou a ser o conselheiro diplomático do presidente bósnio Alija Izetbegović, de quem Osama bin Laden era o conselheiro militar. Mais tarde, durante a Segunda Guerra da Chechênia, os straussianos organizaram a aliança entre os banderistas ucranianos e os islamistas chechenos (Congresso Ternopol, 2007), com o apoio logístico do Milli Görüş (então liderado por Recep Tayyip Erdoğan). Todos lutaram lado a lado pelo Emirado Islâmico de Ichkeria (Chechênia). Finalmente, a estratégia de Bernard Lewis foi popularizada por seu assistente, Samuel Huntington. Entretanto, ele não a apresentou mais como um plano militar, mas como uma inevitabilidade que explicava convenientemente a atribuição dos ataques do 11 de setembro aos muçulmanos em geral.

Considerando que nada impede as pessoas que lutam na crença de que estão servindo a Deus, os straussianos decidiram há quatro anos reativar o cisma que separou os católicos dos ortodoxos no século XI. Eles começaram por separar a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou. Eles conseguiram com a ajuda da Turquia, que pressionou o Patriarca de Constantinopla. Agora é uma questão de desencadear paixões, ressuscitando as profecias de Fátima. Em 1917, logo após a Revolução Russa, visionários portugueses tiveram aparições da Virgem Maria. Ela lhes confiou várias mensagens, uma das quais denunciava implicitamente a derrubada do Czar por direito divino. A Rússia era apresentada como escolhendo o mal e tentando disseminá-lo. Portanto, o Conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, foi a Roma, por ocasião de um encontro com a China, na verdade para convencer o Papa Francisco. Ele conseguiu.

Foi elaborado um cronograma. O Presidente Zelenski se dirigirá ao Parlamento francês, depois o Presidente Biden virá à Europa para presidir uma extraordinária cúpula da OTAN e, finalmente, o Papa Francisco, cumprindo a oração da Virgem Maria em Fátima, consagrará a Ucrânia e a Rússia ao Imaculado Coração da Virgem. Esta montagem pode parecer artificial, mas seu efeito deve ser poderoso. Para muitos católicos, lutar contra a Rússia se tornará um dever religioso.

Conclusão

Nas próximas semanas, o Presidente Joe Biden terá que tentar fazer um novo discurso. Será para apresentar a paz na Ucrânia como uma vitória da sabedoria. Não importa que os ucranianos tenham jogado e perdido. Não importa que os banderistas sejam presos ou mortos. Não importa que a Ucrânia perca seu acesso ao mar. Os Aliados serão solicitados a aumentar seus gastos militares e pagar com seu próprio dinheiro por toda essa carnificina.

Fonte: Oriental Review

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Thierry Meyssan

Intelectual francês, presidente e fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace, é autor de diversos artigos e obras sobre política externa, geopolítica e temas correlatos.

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