A Rússia está em um confronto existencial por sua independência e soberania

A mídia internacional retrata a operação especial russa na Ucrânia como uma “agressão injustificada”, mas a análise dos fatos nos conduz à verdade de um longo processo de cerco e tentativa de balcanização da Rússia. Ao forçar a escalada de tensões, o Ocidente colocou a Rússia contra a parede e, agora, ela trava uma luta pela sua própria sobrevivência enquanto Estado e pela sobrevivência dos russos enquanto povo. De quebra, uma vitória russa acelerará o colapso da unipolaridade para o benefício de todos os povos oprimidos do mundo, incluindo o brasileiro.

A operação militar especial da Rússia na Ucrânia foi iniciada como último recurso para manter a integridade de suas linhas vermelhas de segurança nacional naquele país em particular (e, de modo mais amplo, na região) que estavam sendo cruzadas pelo Ocidente liderado pelos EUA em busca de sua grande trama estratégica para restaurar sua hegemonia unipolar em declínio. Se o Presidente Putin não tivesse agido de forma decisiva quando fracassou na nobre tentativa de seu país de resolver diplomaticamente a crise dos mísseis provocada pelos EUA na Europa através da oferta de seus pedidos de garantia de segurança no final de dezembro, então ele não teria conseguido evitar a Terceira Guerra Mundial como acabou de fazer. A Rússia teria sido inevitavelmente colocada numa posição perpétua de chantagem por uma Ucrânia equipada com Armas de Destruição em Massa que teria coagido concessões incessantes da mesma em nome de seus patrões ocidentais, levando em última instância à sua “balcanização” com o tempo.

É por estas razões que se pode descrever objetivamente a operação militar especial da Rússia na Ucrânia como uma luta existencial em defesa de sua independência e soberania, exatamente como os altos funcionários daquele país explicaram ao público. O Presidente Putin deixou isto bem claro em seu discurso de 24 de fevereiro ao povo russo anunciando o início desta campanha quando revelou dramaticamente que “Se olharmos a sequência dos eventos e os relatórios que chegam, o confronto entre a Rússia e estas forças não pode ser evitado. É apenas uma questão de tempo. Eles estão se preparando e aguardando o momento certo. Além disso, eles chegaram ao ponto de aspirar à aquisição de armas nucleares. Não vamos deixar isso acontecer”. Isto acabou sendo seguido pelo Ministro das Relações Exteriores Lavrov em termos semelhantes, no início deste mês.

O principal diplomata da Rússia disse que “chegamos a entender que não se trata apenas da Ucrânia, trata-se de uma agressão contra todas as coisas russas, incluindo os interesses, religião, cultura, língua, segurança e assim por diante. E agora, a reação do Ocidente a nossas ações, que é completamente frenética, eu diria – desculpem as palavras duras – mostra que uma luta real de vida ou morte está em andamento pelo direito da Rússia de existir no mapa do mundo e garantir plenamente seus legítimos interesses”. O chefe da inteligência estrangeira russa (SVR) Naryshkin acrescentou a isto em 16 de março de 2022, explicando que “Nosso país está vivendo um momento verdadeiramente histórico neste momento. O destino da Rússia, seu futuro lugar no mundo, está sendo decidido. O principal fator no desenvolvimento da Rússia, o núcleo de seus mil anos de história tem sido e continua sendo a soberania – o direito de determinar de forma independente, livre e consciente seu próprio destino”.

O Presidente Putin também falou ontem, desta vez chamando a atenção para as inúmeras ameaças da guerra híbrida de seu país que estão sendo alavancadas pelo Ocidente liderado pelos EUA, numa tentativa de desestabilizá-lo a partir de dentro. Ele advertiu que “É claro que eles (o Ocidente) vão tentar apostar na chamada quinta coluna, nos traidores – naqueles que ganham seu dinheiro aqui, mas vivem lá. Vivem, não no sentido geográfico, mas no sentido de seus pensamentos, de seus pensamentos servis. Qualquer povo, e especialmente o povo russo, sempre será capaz de distinguir os verdadeiros patriotas da escória e dos traidores, e simplesmente cuspi-los como um mosquito que acidentalmente voou para dentro suas bocas… E há um objetivo – a destruição da Rússia… Estou convencido de que esta autopurificação natural e necessária da sociedade só fortalecerá nosso país, nossa solidariedade, coesão e prontidão para enfrentar qualquer desafio”.

Estes três altos funcionários estão absolutamente corretos em suas avaliações da grande dinâmica estratégica em jogo. O Ocidente liderado pelos EUA está de fato tentando tirar a Rússia do mapa como um ator geopolítico independente através dos meios que foram explicados no primeiro parágrafo da presente análise. O conflito era realmente inevitável exatamente como o Presidente Putin revelou, razão pela qual ele foi obrigado a agir quando o fez, a fim de evitar que inevitavelmente ocorresse no território de seu próprio país e assim desencadear a Terceira Guerra Mundial. Lavrov e Naryshkin foram, portanto, precisos ao descrever a operação militar especial de seu país na Ucrânia como uma luta existencial para a Rússia em defesa de seu direito de escolher livremente seu destino. Durante todo o tempo, o Presidente Putin foi prudente ao advertir seus compatriotas sobre as inúmeras ameaças internas a seu Estado-civilização e ao insinuar sobre as operações de contraespionagem em andamento.

Para simplificar tudo, a investida unipolar dos Estados Unidos contra os processos multipolares desencadeados pela transição sistêmica global em curso com o objetivo de neutralizar geoestratégicamente a Rússia antes de completar a consequente “contenção” da China, que os formuladores de políticas americanas avaliam como seu principal desafio neste século. A Terceira Guerra Mundial teria sido desencadeada se o Presidente Putin tivesse continuado sem sucesso na busca de soluções diplomáticas para as linhas vermelhas de segurança nacional de seu país, já que a guerra inevitável teria finalmente ocorrido no território da Rússia em vez do da Ucrânia. A Grande Potência Eurasiática provavelmente teria sido obrigada a empregar desesperadamente armas nucleares em autodefesa, levando assim ao fim do mundo ou pelo menos da Rússia e de uma grande parte do Ocidente (muito provavelmente de toda a Europa), com consequências completamente imprevisíveis para as Relações Internacionais na sequência.

A operação militar especial da Rússia na Ucrânia evitou, portanto, esse cenário apocalíptico, pelo menos por enquanto, dando a esse Estado-civilização uma chance de defender sua independência e soberania que estão sob ameaça existencial do Ocidente liderado pelos EUA. Ao preservar a existência geoestratégica de sua Grande Potência, o Presidente Putin está na verdade tentando reter alguma aparência de estabilidade no mundo cada vez mais desestabilizado que tem sido lançado ao caos pela perigosa conspiração dos Estados Unidos para restaurar sua hegemonia unipolar declinante. A alternativa teria sido aceitar passivamente a inevitável dissolução da Rússia como o resultado natural da chantagem a que teria sido permanentemente submetida se o Presidente Putin tivesse recuado e permitido ao Ocidente equipar a Ucrânia com Armas de Destruição em Massa, em paralelo com a neutralização das capacidades nucleares de resposta de seu país.

Longe da chamada “guerra fascista de agressão injusta” que a mídia ocidental americanocêntrica alega que ele está travando, o Presidente Putin está realmente travando uma luta existencial em defesa da independência e soberania da Rússia que estão sob uma ameaça sem precedentes do Ocidente literalmente fascista. Ele está fazendo o máximo para devolver às Relações Internacionais o modelo ambicioso originalmente previsto pela Carta das Nações Unidas, mas que não conseguiu entrar em prática devido ao início da Velha Guerra Fria, provocada pelos EUA, logo após a promulgação desse documento e o breve período de hegemonia unipolar, que desceu sombriamente ao mundo depois de 1991 e resultou na morte de milhões de pessoas em todo o Sul Global desde então. Em outras palavras, a Rússia está tentando salvar o mundo da trama apocalíptica dos Estados Unidos para destruí-lo a fim de um dia, espera-se, restaurar a igualdade e a justiça nos assuntos globais.

Fonte: Oriental Review

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro "Guerras Híbridas".

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