Da histeria ocidental e a inspiração russa

A resposta do ocidente à Rússia tem se limitado às famosas sanções econômicas e um cancelamento em massa dos aspectos e figuras culturais eslavos. Um fator que nos separa profundamente deste ocidente cada vez mais histérico é a profunda curiosidade (não emulação) que o brasileiro e o russo nutrem um pelo outro. Do amor pela bossa nova de Dugin e o espírito dostoievskiano de Nelson Rodrigues.

É engraçado como as respostas ocidentais são desordenadas, impensadas e totalmente emocionais. Dias atrás entraram na onda de cancelamento total de absolutamente qualquer coisa atrelada à Rússia, agora, porém, o golpe já ricocheteou nos próprios que deram o tiro, e isso porque esse é um tipo de ação precipitada feita na emoção.

O restaurante que cancelou o strogonoff, em menos de 1 dia foi massacrado pela imbecilidade e voltou atrás. O Facebook, deixando seus próprios termos de lado para permitir xenofobia contra os russos, também já está sendo alvo de diversos protestos. A hipocrisia ocidental ficou cada vez mais escancarada.

É uma coisa que não dura muito tempo, tudo o mais feito por essas bandas tem sido de maneira aloprada e tosca, o que está levando a uma dissolução social enorme, conflitos internos, confusões na aplicação de uma política que agora precisa levar em conta no cálculo político likes de Instagram, e parece que estão patinando bastante nisso.

Esse foi o lado bom dessa tentativa de cancelamento: vai falhar miseravelmente, expor a falsidade da liberdade do Ocidente. E, ao contrário do que esperavam, isso tudo já está fazendo com que as pessoas se interessem tremendamente pela Rússia, diferente do que se achava. Escolas de língua russa, por exemplo, estão hiper lotadas em suas caixas de mensagens, com muita gente querendo aprender o russo. Até faz sentido, uma vez que se leva em conta um possível e novo polo de poder que será feito e, com ele, novas oportunidades.

Aqui não se trata de ser russófilo, mas sim de um fator mui brasileiro: o Brasil aprendeu o jiu-jitsu japonês e fez o Brazilian Jiu-Jitsu; o Brasil pegou elementos de culturas diversas africanas e fez a Capoeira. Somos criadores civilizacionais, seja na música, na arte, na literatura – pensem na influência de Dostoiévski na obra brasileiríssima de Nelson Rodrigues – entre outros âmbitos. Mas e os russos, o que podem nos passar? São também uma inspiração para a construção estatal; e que não se confundam inspirações com cópias.

Tampouco essa discussão é nova! O debate começa no livro ‘Vultos e Ideias’ (1924), de Vicente Licínio Cardoso. De lá para cá, diversos autores e brasilianistas tomaram parte no assunto. No mais clássico dos clássicos, ‘Casa Grande e Senzala’, há a comparação entre Rússia e Brasil; neste e noutro sentido, aliás, Freyre se vangloriava de ter cunhado a expressão “Rússia Americana”, chegando inclusive a entrar em debate para comprovar sua originalidade. E quem ousaria duvidar do nacionalismo de Freyre?

Dentre outros livros de Freyre, há também o ‘Nós e a Europa Germânica’, absolutamente fantástico sobre as influências alemãs e o que delas resultou em terras tropicais. O Brasil é também um pouco isso, um criador, que recebe influências sem ser mero receptáculo, criando e incorporando de forma genuína e inovadora os fatores externos. Desde os anos 20, e na literatura até antes, tivemos essa influência ao nosso estilo e de forma positiva. E, cá entre nós, só pelos escritos de Nelson Rodrigues, já valeu a pena.

Continuem esse cancelamento, pois o efeito tem sido despertar curiosidade nas pessoas!

Daniel Jyur

Bacharel em Relações Internacionais pela UNIFESP Especialista em Neurociências pela Unifesp, com Ênfase em Neurocriminologia e Sociobiologia. Graduando em Direito no quinto semestre.

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