A Geopolítica do Império Anglo e a balcanização da Rússia

José Alsina Calvés traz uma breve introdução à teoria do Heartland de Mackinder e disserta sobre os impactos desta na geopolítica do Império Anglo e da Rússia nos últimos 100 anos.


Ultimamente temos observado uma formidável ofensiva ideológica e informativa, impulsionada pelos EUA e os principais centros de poder globalistas, contra a Rússia de Putin. Os meios de comunicação sipaios não param de repetir, irritantemente, uma série de mantras, onde a Rússia atual aparece como um inferno ditatorial, onde se persegue aos “dissidentes”, aos homossexuais e aos imigrantes. Para os neoliberais de direita a Rússia continua sendo comunista. Para os neoliberais de esquerda, a Rússia de Putin seria como uma reencarnação do “fascismo”.

“No entanto, esta atitude agressiva de Biden não é nada novo. Desde muito tempo, muito antes da Revolução Comunista, o império anglo tem enfrentado a Rússia por razões geopolíticas. Primeiro a Inglaterra e depois os EUA (seu sucessor), como potências talassocráticas, tem visto a Rússia um inimigo a abater, independente do regime político.

A GUERRA DA CRIMEIA


A guerra da Crimeia foi um conflito que entre 1853 e 1856 livraram ao Império Russo e ao Reino da Grécia contra uma liga formada pelo Império Otomano, França, Reino Unido e o Reino da Sardenha. Desencadeada pela política inglesa, decidida a impedir a influência da Rússia sobre a Europa, diante da possibilidade de que o Império Otomano se desmoronasse, e se disputou fundamentalmente na península da Crimeia, ao redor da base naval de Sebastopol. Culminou com a derrota da Rússia, e culminou com o Tratado de Paris de 1856.

“Desde o final do século XVII, o Império Otomano se encontrava em decadência e suas estruturas militares, políticas e econômicas não foram capazes de modernizar-se. Por consequência de vários conflitos, tinha perdido os territórios ao norte do Mar Negro, entre eles a península da Crimeia, a qual a Rússia tomou posse. Esta desejava minar a autoridade otomana e assumir a proteção da abundante minoria de cristãos ortodoxos das províncias otomanas europeias. A França e o Reino Unido temiam que o Império Otomano se transformasse em um vassalo russo, o que teria transtornado o equilíbrio político entre as potências europeias.

O primeiro ministro britânico Lord Palmerston foi um ator decisivo no desenvolvimento desta política anti-Rússia, que já seria uma constante na política externa britânica, continuada depois no século XX por Halford John Mackinder, um dos criadores da ciência política, ideólogo do tratado de Versalhes e do apoio inglês aos Russos Brancos na Revolução Russa.


O HEARTLAND OU “CORAÇÃO DA TERRA”

                   
O conceito geopolítico de Heartland foi introduzido por Mackinder [1], e já ligado a existência geográfica de bacias endorréicas, ou seja, grandes bacias fluviais que desembocam em mares fechados (Mar Cáspio, Mar Negro). Heartland vem do inglês heart (coração) e land (terra), sendo talvez “terra nuclear” ou “região cardíaca” as traduções mais aproximadas em português. O Heartland é a soma de uma série de bacias fluviais contíguas cujas águas desembocam em corpos aquáticos inacessíveis para a navegação oceânica. Se tratam das bacias endorréicas da Eurásia Central mais a parte da bacia do Oceano Ártico congelada na Rota do Norte com uma capa de gelo dentre 1.2 a 2 metros, inutilizável durante boa parte do ano, exceto para navios quebra-gelo de propulsão nuclear (que somente a Federação Russa possui) e embarcações similares. [2]

“A regra de ouro de Mackinder poderia ser traduzida como “Quem une a Europa com o coração da terra, dominará o coração da terra e, portanto, a Terra”. O Heartland carece de um centro neurálgico claro e pode ser definido como um gigantesco e robusto corpo em busca de um cérebro. Dado que entre o Heartland e a Europa não existem barreiras geográficas naturais ( cadeias montanhosas, desertos, mares, etc. ), a cabeça mais viável para o Heartland é claramente a Europa, e seguida de longe pela China, Irão e Índia.”

A marcha da humanidade europeia em direção ao coração da Ásia culminou quando a cultura grega foi introduzida na própria Mongólia: hoje a língua mongol é escrita com caracteres cirílicos, de herança greco-bizantina, o que significa que a queda de Constantinopla realmente projetou a influência mais a leste do que a imperadores ortodoxos jamais poderiam ter imaginado. A tarefa da Europa não termina aqui, no entanto, pois somente a Europa pode assumir a tarefa de transformar o Heartland no poderoso espaço fechado profetizado por Mackinder.


Para nos aprofundarmos no assunto, é necessário nos familiarizarmos com a cosmogonia mackinderiana, que dividiu o planeta em vários domínios geopolíticos claramente definidos


A Ilha do Mundo é a união da Europa, Ásia e África, e o mais próximo que há nas terras emergidas de Panthalassa ou Oceano Universal. Dentro da Ilha do Mundo está a Eurásia, a soma da Europa e da Ásia, que é uma realidade ainda mais separada da África desde a abertura do Canal de Suez em 1869, que permitiu que o poder marítimo envolvesse ambos os continentes.

O Heartland não precisa de mais introduções. A teoria Mackinderiana parte da base de que Heartland é uma realidade geográfica dentro da Ilha do Mundo da mesma forma que a Ilha do Mundo é uma realidade geográfica dentro do Oceano do Mundo.

O Rimland, também chamado de Crescente Interior ou Crescente Marginal, é uma enorme faixa de terra que circunda o Heartland e consiste nas bacias oceânicas ligadas a ele. A Pentalásia, os Balcãs, a Escandinávia, a Alemanha, a França, a Espanha e a maior parte da China e da Índia estão no Rimland.


O Crescente Externo ou Insular é um conjunto de domínios ultramarinos periféricos, separados do Crescente Interno por desertos, mares e espaços congelados. A África Subsaariana, as Ilhas Britânicas, as Américas, Japão, Taiwan, Indonésia e Austrália estão no Crescente Exterior.


O Oceano Mediterrâneo (Midland Ocean) é o Heartland do poder marítimo. Mackinder definiu o Oceano Mediterrâneo como a metade norte do Atlântico mais todos os espaços marítimos tributários (Báltico, Baía de Hudson, Mediterrâneo, Caribe e Golfo do México). Lembremos que as maiores bacias hidrográficas do mundo são as que deságuam no Atlântico — depois vêm as do Ártico e só em terceiro lugar estão as bacias do Pacífico.


Observe que essas ideias geopolíticas serviram de guia na política e estratégia externa inglesa. Tanto na Primeira como na Segunda Guerras Mundiais, a diplomacia britânica conseguiu impedir uma aliança germano-russa que unisse a Europa ao Heartland. Na verdade, Mackinder, longe de ser um simples intelectual, era uma pessoa muito comprometida com a diplomacia e a política externa inglesa. Foi um dos ideólogos do Tratado de Versalhes, cujo objetivo era a neutralização política e militar da Alemanha. Ele também foi um dos ideólogos do apoio inglês aos russos brancos, em sua luta contra os bolcheviques. O objetivo era fragmentar a Rússia em uma série de pequenos estados feudais do Império Britânico, embora a vitória bolchevique tenha frustrado esse plano.

A GUERRA CIVIL RUSSA (1917-1923)


Embora esta guerra civil tenha sido um conflito interno, a geopolítica e as ligações conflitantes com potências estrangeiras desempenharam um papel considerável [3]. Os vermelhos (bolcheviques) lutaram contra os brancos. O bloco bolchevique tinha uma clara identidade ideológica, política e geopolítica. Eram marxistas, apostavam na ditadura do proletariado e geopoliticamente orientavam-se para a Alemanha e contra a Entente (Inglaterra, França, EUA).

“Em contraste, o bloco branco não era uniforme, nem ideológica nem politicamente. Reuniu desde socialistas revolucionários a monarquistas czaristas, mas do ponto de vista geopolítico tendia a apostar na aliança com a França e a Inglaterra. Apenas pequenos segmentos desse movimento mantiveram uma orientação pró-alemã, como foi o caso do líder cossaco Krasnov e do Exército do Norte.”


Mackinder, principal ideólogo do apoio britânico aos brancos, estava convencido de que, pela disparidade desse bloco, em caso de vitória, provocaria uma segmentação da Rússia em pequenos estados, pois cada general ou “senhor” da guerra acabaria por se estabelecer como o fundador de um novo estado. A estratégia inglesa para o desmembramento da Rússia seguiu, passo a passo, a empregada pela América espanhola após a independência da Espanha. Lá ele conseguiu, e o que poderia ter sido uma grande plataforma continental se dividiu em inúmeros pequenos estados em desacordo uns com os outros.


Na Rússia não foi assim. A vitória dos bolcheviques frustrou as pretensões inglesas. Mackinder estava perfeitamente ciente de que, após essa vitória, a URSS seria uma grande potência, como aconteceu.


Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA assumiram o lugar da Inglaterra como a vanguarda do Império Anglo. A Guerra Fria não foi apenas (mas também) um confronto entre o capitalismo liberal, representado pelos EUA (e seus aliados/vassalos Inglaterra, França e Alemanha), e o socialismo marxista ou comunismo real, representado pela URSS. O componente geopolítico também foi muito importante.


COLAPSO DA URSS


As mudanças na URSS começaram com a ascensão de Gorbachev ao cargo de secretário-geral do PCUS. A situação que ele encontrou não era nada boa. A derrota e a humilhação no Afeganistão pairavam sobre a sociedade soviética. O carro social, econômico e ideológico começou a parar. A economia sofria com os gastos militares e a ineficácia do controle estatal absoluto. A visão de mundo marxista havia perdido todo o seu apelo, e até os partidos comunistas ocidentais estavam se distanciando da URSS e proclamando seu “eurocomunismo”.

“Gorbachev teve que se posicionar sobre a estratégia futura da URSS, e o fez adotando as teorias da convergência [4] como fundamento e começando a se aproximar do mundo ocidental por meio de concessões unilaterais. Essa política, que recebeu o nome de perestroika, baseava-se no pressuposto de que o Ocidente deveria responder a cada concessão com movimentos semelhantes em favor da URSS. É evidente que não foi assim.


A Perestroika foi uma cadeia de passos que levou à adoção da democracia parlamentar, do mercado, da glasnost (transparência) e da expansão das zonas de liberdade cívica. Mas nos países do bloco oriental e na periferia da própria URSS, essas mudanças foram percebidas como manifestações de fraqueza e concessões unilaterais ao Ocidente. Movimentos secessionistas começaram nas repúblicas bálticas, na Geórgia e na Armênia.


Após a fracassada tentativa de golpe em 1991, liderada pelos setores mais conservadores do PCUS, a ascensão de Boris Yeltsin foi imparável. Em 8 de dezembro de 1991, ele se reuniu com os presidentes da Bielorrússia e da Ucrânia na Floresta Bialowieza, onde foi assinado um acordo para a criação de uma Comunidade de Estados Independentes, o que significou, de fato, o fim da existência da URSS. No entanto, a partir daqui é desencadeado um processo que ameaça não a existência da URSS, agora extinta, mas a própria Rússia.

Parecia que o sonho de Mackinder estava prestes a ser posto em prática. Estônia, Letônia, Lituânia, Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia, Armênia, Geórgia, Azerbaijão e Daguestão iniciam seus processos de independência. A declaração de Yeltsin, feita em Ufa em 6 de agosto de 1990, entrou para a história: “Tome o máximo de soberania que puder engolir”. As novas repúblicas apelaram (claro!), ao direito à autodeterminação dos povos. Assim, por exemplo, na Constituição da República de Sakha, aprovada em 27 de abril de 1992, foi declarado “Um governo soberano, democrático e legal, fundado no direito do povo à autodeterminação”.

A própria política nacional da Federação Russa foi estabelecida por Ramzan Abdulatipov [5] e Valery Tishkov [6], que defendiam abertamente a conversão da Federação em confederação, com total separação das repúblicas nacionais.


O conflito na Chechênia teve um impacto especial. Desde 1990, e protegidos das tendências autodestrutivas que operavam na Rússia, surgiram vários movimentos nacionalistas, notadamente o Congresso Nacional do Povo Checheno, liderado por Dzhondar Dudayev, ex-general da força aérea soviética. Em 8 de junho de 1991 Dudayev proclamou a independência da Chechênia, dando início a um longo conflito armado, que foi complicado pela intervenção do fundamentalismo islâmico.

A REAÇÃO


Diante de todos esses eventos, amplos setores da opinião pública russa estão começando a perceber que as políticas de Yeltsin levariam à destruição da Rússia.  Ainda se somou um tremendo caos econômico, que mergulhou a maioria da população na miséria, enquanto alguns oligarcas se enriqueceram com privatizações selvagens. Em setembro e outubro de 1993 ocorreu uma revolta, centrada no próprio Soviete Supremo (parlamento). Em 4 de outubro, unidades militares leais a Yeltsin puseram fim à revolta bombardeando o Soviete Supremo.

As forças políticas que se uniram contra Yeltsin eram muito diversas: comunistas, nacionalistas e partidários da monarquia czarista ortodoxa. Mas todos eles têm algo em comum: a defesa da soberania da Rússia e o eurasianismo. Essa coalizão de forças será a que apoiará o surgimento de Vladimir Putin e o renascimento da Rússia. Mas este é outro tema.


[1] The Geographical Pivot of History publicada em 1904

[2] Alsina Calvés, J. (2015) Contribuições para a Quarta Teoria Política. Tarragona, Edições Fides, pp. 110-112.

[3] Dugin, A. (2015) A Última Guerra Mundial das Ilhas. A geopolítica da Rússia contemporânea. Tarragona, Edições Fides, p. 38.

[4] Teorias surgidas entre 1950 e 1960 (Sorokin, Gilbert, Aron) segundo as quais, à medida que o desenvolvimento tecnológico avançasse, os sistemas capitalista e socialista formariam um grupo cada vez mais próximo, ou seja, tenderiam a convergir.

[5] Presidente da Câmara das Nacionalidades [6] Presidente do Comitê Estadual da Federação Russa sobre nacionalidades.

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José Alsina Calvés

Graduado em Biologia, Mestre em História da Ciência e Doutor em Filosofia, é também diretor da revista Nihil Oblast.

Artigos: 52

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