A Geopolítica Global e o Grande Reset

O que nos aguarda no “grande reset” prometido pelas elites econômicas mundiais? Quais as contradições e problemas inerentes a essa promessa distópica de um novo mundo? Neste texto, Jorge Casals Llano faz um ensaio sobre a possibilidade de reforma do capitalismo global apresentada no Fórum de Davos.

Por Jorge Casals Llano

Para evitar mal-entendidos, e como existem quase tantas definições de geopolítica quanto os autores que a ela se referem, é adequado começar por aquela que consideramos válida, porque inclui, além dos mecanismos utilizados para influenciar a “ordem” global estabelecida e a estratégia orientada a tal fim, a própria “ordem”, seja a existente ou a que se pretende alcançar. Com o mesmo intuito e, para evitar confusões, é importante deixar claro que estamos partindo para a análise da previsão marxista de que um modo de produção não é substituído por outro até que aquele tenha esgotado todas as suas possibilidades, e também de que a tentativa de manipulação midiática implícita na declaração da necessidade do “grande reset” está incluída e forma parte da estratégia, agora à moda de Lampedusa*, fazendo parecer que tudo muda para que nada mude.

É fundamental estabelecer, para prosseguirmos, que, quando nos referimos à “ordem” global predominante, estamos obviamente nos referindo ao capitalismo e, mais especificamente, ao capitalismo decadente e que por isso mesmo, segundo o Fórum Econômico Mundial (Fórum de Davos) e a revista The Economist, precisa-se de um “grande reset”; e também ao seu decadente paradigma, os EUA, que seu presidente hoje tenta reconstruir.

Não parece necessário, aqui e agora, explicar qual o significado do capitalismo para o desenvolvimento da humanidade. Ao menos uma parte dos habitantes atuais do planeta, aquela que vive no reduzido mundo burguês – sem falar no 1% desse mundo – e a classe média que o acompanha alcançam hoje níveis de vida nem sequer sonhados a 100 ou 150 anos atrás, ou inclusive no final do século passado, há pouco mais de 20 anos; é tampouco desnecessário demonstrar como esse capitalismo – cuja existência só é possível revolucionando constantemente os meios de produção e espoliando os recursos do planeta que habitamos – deixou o mundo à beira da catástrofe pelo aquecimento global e as mudanças climáticas.

No entanto, parece oportuno analisar se o sistema esgotou as suas possibilidades de funcionar e desenvolver-se (e o quanto isso se ajusta ao que disse Marx), ainda que fosse capaz de sustentar-se no estreito e desumano quadro predatório do egoísmo liberal burguês para o qual somos convidados pela elite do poder mundial.

O mundo em que hoje vivemos e que se pretende resetar é um mundo em que, desde o início da pandemia (segundo dados do FMI), a dívida pública global ultrapassa o produto bruto mundial e a dívida pública e privada do setor não financeiro é o triplo desse valor; é um planeta em que o número de pobres aumentou em mais de cem milhões e em que mais de oito milhões morreram, enquanto a riqueza das empresas farmacêuticas que produzem vacinas aumentou em mais de 350.000 milhões de dólares e a riqueza acumulada das onze primeiras (considerando o preço de suas ações na bolsa) representa cerca de 16% do produto bruto mundial e atua nas esferas de serviços e mídia interativa, tecnologia de hardware e software, varejo de internet, uma em semicondutores e também uma petrolífera.

É o mesmo mundo em que se pretende firmar (e certamente será aceito) um acordo que garanta que, na ocasião de uma guerra convencional, esta não se transforme em guerra nuclear, ainda que todos nós saibamos que os EUA já se encarregaram de situar os possíveis cenários do início de uma nova guerra longe de seu território; o que lhes é inclusive conveniente, se levarmos em conta seus escusos interesses geopolíticos, que incluem a redução das potencialidades (todas) dos participantes diretos no campo de batalha e resultaria numa destruição que eles poderiam ajudar a reconstruir, evidentemente, assim como o fizeram depois da Segunda Guerra Mundial.

Logo após o “grande reset”, o mundo que nos espera, ou melhor, o mundo que espera o megacapitalismo, pode-se resumir a partir do que publicou o The Economist: o trabalho à distância irá se manter em moradias mais tecnológicas e com as condições necessárias; a quantidade e a qualidade do trabalho serão mensuradas por plataformas tecnológicas que o farão de acordo com seus resultados; haverá uma drástica redução do emprego, pois a Inteligência Artificial (AI) substituirá o trabalho vivo de maneira cada vez mais acelerada, substituindo primeiro os trabalhos mais simples, começando pela produção de bens e serviços e o comércio varejista e, depois, os trabalhos mais complexos, incluída a educação, que irá se modificar, e o atendimento médico, que também se modificará de maneira cada vez mais acelerada, aumentará o ócio, o lazer, a alimentação saudável…

Contudo, por mais que procuremos, nada podemos encontrar sobre como se pretende, com o “grande reset”, solucionar o problema da pobreza e do desemprego, incluso aquele que será consequência da aplicação massiva e acelerada da Inteligência Artificial. Nem sequer algo relacionado à solução urgente que demandam os problemas do aquecimento global e mudanças climáticas depois do fracasso da COP26 com suas promessas vazias, tão vazias como as do New Green Deal norte-americano ou o Pacto Verde europeu. E sem falar no retrocesso social, a direitização do pensamento e o questionamento da democracia, o que, evidentemente, inclui a democracia liberal burguesa, características cada vez mais acentuadas no denominado ocidente, em especial nos EUA.

E ainda que o ocidente e o mundo pós-reset pretendam ignorá-los, na medida em que o “grande reset” é pensado como mais capitalismo – em que seguirão dominando cada vez mais as megaempresas, os megabancos e o individualismo exacerbado – ninguém pode esquecer que o consumo nos EUA, em grande medida, depende não de sua produção, mas do que produz o socialismo na China, e que a energia que consome a Europa não depende somente de sua própria produção, mas também da energia que importa não do Ocidente, mas da Rússia; e que a interrupção desse abastecimento não só levaria ao encarecimento, mas ao desmantelamento das atividades produtivas e a extinção massiva de empregos. Mas tudo isso intensificaria a crise e a competição intercapitalista, que aprofundaria ainda mais a já crônica crise e aproximaria a possibilidade de guerras – às quais a própria competição do capitalismo conduz, mas que a humanidade e o mundo em que ele se desenvolve não podem permitir.


Nota do tradutor:

*O autor se refere à célebre expressão do romance Il gattopardo de Giuseppe Tomasi de Lampedusa: “Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi.” (Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.)

Fonte: Dossier Geopolitico

Jorge Casals LLano

Professor e analista geopolítico cubano.

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