Cazaquistão esteve à beira de uma guerra civil?

Para entender a atual situação no Cazaquistão, Shahzada Rahim do “The Radical Outlook” entrevistou o Sr. Andrew Korybko, um renomado analista geopolítico russo-americano. Andrew Korybko é um analista político baseado em Moscou. Ele se especializa na relação entre a estratégia dos EUA na Afro-Eurásia, a Iniciativa Cinturão e Rota da China e a Guerra Híbrida. Suas outras áreas de foco incluem assuntos do Sul Asiático e a recente restauração da influência hegemônica dos EUA na América Latina.

O Cazaquistão é um país importante na região da Asia Central tanto em termos de geopolítica quanto de geoeconomia. A estabilidade de toda a região da Ásia Central depende da paz e estabilidade do Cazaquistão. Desde sua independência depois da desintegração da União Soviética em 1991, o país foi governado pelo presidente Nursultan Nazarbayev. Ele saiu do poder secretamente ano passado ao transferir seus poderes ao seu auxiliar Kassym-Jomart Tokayev. O novo presidente enfrentou seu primeiro desafio quando os protestos em larga escala começaram na antiga capital Almaty contra o aumento do preço dos combustíveis. No entanto, muitos analistas especulam que existe um racha entre os clãs políticos no país, que querem que Nursultan Nazarbayev não manobre a decisão do atual governo desde as sombras.

Shahzada Rahim (SR): Primeiramente, estou honrado em ter você para a entrevista sobre este assunto quente. Andrew, você poderia brevemente explicar o que está acontecendo no Cazaquistão agora mesmo? Como a situação surge em primeiro lugar?

Andrew Korybko (AK): Obrigado por dar a oportunidade para eu compartilhar meus pensamentos sobre este assunto importante com o seu público, agradeço por isso. Brevemente, a remoção pré-planejada dos subsídios de combustível por parte do governo do Cazaquistão foi explorada como evento gatilho para lançar uma Revolução Colorida planejada há muito tempo. O estado imediatamente cedeu às demandas dos manifestantes ao impor controle de preço e estender os mesmos a outros commodities sociais e serviços de utilidade pública. Isso deveria ter sido o fim disso, porém o movimento imediatamente se transformou em uma guerra não convencional por meio da sequência de Guerra Híbrida que consequentemente levou a uma explosão sem precedente de terrorismo por todo o país.

A situação de segurança deteriorou tão rapidamente a tal ponto que o Cazaquistão solicitou a seus aliados da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) para enviarem uma limitada tropa para missões de paz a fim de restaurar a lei e ordem ali. Esta operação liderada pela Rússia vai assegurar pontos estratégicos pelo país e auxiliar autoridades em outras maneiras, mas não irão dispersar nenhuma das manifestações. Tudo tem melhorado desde então, mas a situação ainda continua desafiadora em alguns aspectos. Conflitos anti terroristas continuam ocorrendo em algumas áreas, mas a dinâmica estratégica tem mudado favorecendo o estado. O governo terá que investigar a fundo o que aconteceu para poder identificar todos os conspiradores e trazê-los à justiça.

Shahzada Rahim (SR): Estrategicamente e geopoliticamente, o Cazaquistão é um dos países mais importantes na região da Ásia Central, que é quintessencial para a segurança Russa e Eurasiática. No entanto, a atual situação em curso no país indica uma revolta civil. Na sua opinião, como a Rússia vê a atual situação no Cazaquistão?

Andrew Korybko (AK): A Rússia, assim como todos os membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), se opõem ao terrorismo, separatismo e extremismo, que o colocam ao lado do governo cazaque vitimizado pela Guerra Híbrida. Moscou está preocupada que a descontrolada explosão de terrorismo ali possa impactar diretamente sua segurança nacional por meio do fluxo de refugiados e até mesmo a propagação de terroristas ao longo de suas fronteiras. É de fundamental importância restaurar a estabilidade ali o mais cedo possível, reforçar as defesas anti-terroristas do estado, e assim assegurar que nada como isto ocorra novamente seja ali ou em outra região.

Shahzada Rahim (SR): De acordo com os relatórios, os protestos do dia 2 de janeiro se desencadearam devido a decisão do governo de aumentar os preços do combustível. Na sua opinião, quais são os motivos ocultos por trás do caos político no país?

Andrew Korybko (AK): Tudo se trata de Guerra Híbrida – que neste contexto particular se refere na transição em fases de Guerra Híbrida para Guerra Não Convencional – que objetiva coagir o governo alvo a uma série de concessões unilaterais. A inicial Revolução Colorida anti-reforma conseguiu seu objetivo praticamente de imediato, depois ela se transformou em uma Guerra Não Convencional impulsionada pelo terrorismo para alcançar seu objetivo maior que era uma mudança de governo. Esta tentativa falhou devido à intervenção decisiva por parte da OTSC em relação ao pedido internacionalmente reconhecido por parte do governo do Cazaquistão. A próxima fase deste conflito provavelmente se dará no campo informacional, enquanto elementos adversários procuram desacreditar esta intervenção e o governo do Cazaquistão.

Shahzada Rahim (SR): Uma das maiores demandas dos manifestantes é a saída do antigo presidente Nursultan Nazarbayev da vida pública. Você acha que existe uma racha entre as elites políticas dentro do Cazaquistão?

Andrew Korybko (AK): Há especulações sobre rivalidades entre clãs políticos há algum tempo, com algumas conjecturas de que eles desempenharam um papel nos últimos distúrbios. Isso não seria surpreendente, já que as Guerras Híbridas armam conflitos de identidade preexistentes – incluindo neste caso os conectados ao clã político – para alcançar seus objetivos. Não está claro, porém, até que ponto isso foi um fator real por trás da Guerra Híbrida no Cazaquistão. Certamente parece ser o caso que alguns membros da elite apoiaram essa violência sem precedentes, assim como alguns membros das forças de segurança também, que supostamente trocaram de lado durante o conflito. Mais investigações são necessárias para estabelecer o papel das rivalidades ligadas a clãs políticos.

De um modo geral, no entanto, a “transição de liderança em fases” de Nazarbayev para Tokayev resultou em uma continuidade política que desacreditava as alegações na época de que rivalidades conectadas a clãs políticos poderiam se mostrar incontroláveis. No entanto, isso também não significa que elas não tenham piorado desde então, inclusive por meio de intromissões externas destinadas a ampliar as brechas especulativas entre a elite e os clãs políticos que elas representam. Na superfície, porém, a continuidade política entre as administrações sugere que essas divisões permaneceram em grande parte administráveis. Isso é explicado por suas elites perceberem que é melhor promover os interesses nacionais duradouros do país do que permitir que desacordos os sabotem.

Shahzada Rahim (SR): Desde que as manifestações começaram no dia 2 de Janeiro, autoridades americanas estão realizando comentários controversos ao chamar isso de uma questão internacional, mesmo quando os membros da OTSC enviaram forças de paz para o Cazaquistão a fim de controlar a situação. A maioria das autoridades americanas demandaram que esta situação fosse discutida no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) argumentando que a OTSC não teria jurisdição. Como você observa estes comentários? Você acha que os EUA estão tentando causar instabilidade e perturbar o quintal Russo?

Andrew Korybko (AK): Os EUA têm um interesse próprio em descredibilizar qualquer coisa que a Rússia faça por motivos de soft power. É irrealista esperar que os EUA reajam de maneira diferente de como reagiram. Questionar as missões de paz lideradas pela Rússia por parte da OTSC objetiva dar credibilidade na guerra de informação para a narrativa de que a Rússia seja imperialista. Dito isso, os comentários provocativos das autoridades americanas são insignificantes e incapazes de mudar a situação de qualquer maneira significativa. São apenas propagandas já que os EUA não tem os meios para influenciar as ações da Rússia neste caso específico.

Shahzada Rahim (SR): O Cazaquistão é um país importante quando se trata da segurança da Eurásia. E se uma guerra civil começar no país? Isso terá um efeito de transbordamento sobre os países vizinhos, como Tajiquistão, Quirguistão e Turcomenistão?

Andrew Korybko (AK): É improvável que uma guerra civil surja no Cazaquistão. O que ocorreu recentemente lá não foi um conflito entre participantes políticos legítimos, mas sim uma guerra híbrida de terror entre forças terroristas e o estado. Além disso, a situação se estabilizou em grande parte desde o início da missão de paz liderada pela Rússia por parte da OTSC, de modo que as chances são escassas de que qualquer violência em larga escala ocorra novamente. O conflito foi contido e felizmente não se espalhou para nenhum país vizinho. Isso poderia ter desestabilizado toda a região da Ásia Central e, portanto, a Rússia e, portanto, toda a Eurásia.

Shahzada Rahim (SR): Desde 2010, a maioria dos comentaristas políticos americanos têm contemplado e especulado sobre a Primavera da Ásia Central, assim como vimos no Oriente Médio depois de 2011. Você acha que a situação atual no Cazaquistão pode abrir caminho para uma nova onda de instabilidade na região?

Andrew Korybko (AK): Não necessariamente, embora permaneça sempre uma ameaça estratégica devido à situação regional. Na verdade, houve uma tentativa em 2010 de catalisar o que, em retrospectiva, poderia ser chamado de proto-“Primavera Árabe”. Eu elaborei isso em detalhes em minha análise de abril de 2016 na Oriental Review, que pode ser lida aqui. Em resumo, as consequências de segurança regional da Revolução Colorida do Quirguistão na época ameaçavam se espalhar para o Uzbequistão e catalisar um conflito maior. Felizmente, foi contido, mas a região estava no fio da navalha por algumas semanas. Se a situação piorasse, teria sido uma catástrofe completa.

Shahzada Rahim (SR): A situação atual no Cazaquistão não é apenas uma ameaça geopolítica para a Rússia, mas também para outras partes interessadas da Eurásia, como China e Turquia. Na sua opinião, como a China e a Turquia podem desempenhar um papel na estabilidade do país?

Andrew Korybko (AK): A China e a Turquia são partes interessadas na estabilidade do Cazaquistão porque esse país faz parte de seu “Corredor Médio” pela Ásia Central para conectar suas duas economias e todas as outras, mas eles não têm muito papel a desempenhar na estabilização desse país. A missão de paz liderada pela Rússia por meio da OTSC é mais do que suficiente para atender às suas necessidades de segurança. A China e a Turquia podem, no entanto, priorizar o investimento na reconstrução de Almaty e outras cidades do Cazaquistão vitimadas pela Guerra Híbrida. Essa seria uma maneira pragmática de ajudar a estabilizar a situação socioeconômica depois.

Shahzada Rahim (SR): Por último, mas não menos importante, como um especialista eurasiano, como você vê o futuro da ordem eurasiana se a região da Ásia Central permanecer instável e em uma confusão civil?

Andrew Korybko (AK): Conforme explicado em minha resposta a uma pergunta anterior, a desestabilização da Ásia Central teria vastas consequências negativas para a estabilidade geral do supercontinente. O inverso é que sua estabilização sustentável aumentaria muito a estabilidade eurasiana. É, portanto, de grande importância para a Rússia, China, Paquistão, Irã e Turquia garantir que não haja mais Guerras Híbridas na Ásia Central, ou se houver, que elas sejam decididamente tratadas como a última que aconteceu no Cazaquistão, resolvida por meio de uma missão de paz por parte da OTSC.

Shahazada Rahim é pós-graduado e analista geopolítico. Ele é o fundador e editor-chefe da agência de notícias online e portal da web “The Eurasian Post” e “The Radical Outlook”. Ele é um colaborador frequente da Oriental Review, Geopolitica.Ru, Jerusalem Post, New Strait Times, Daily Times, New Eastern Europe e outros jornais internacionais como Independent Australia e Eurasia Review.

Andrew Korybko é um analista político baseado em Moscou. Ele se especializa na relação entre a estratégia dos EUA na Afro-Eurásia, a Iniciativa Cinturão e Rota da China e a Guerra Híbrida. Suas outras áreas de foco incluem assuntos do Sul Asiático e a recente restauração da influência hegemônica dos EUA na América Latina.

Fonte: The Radical Outlook

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro "Guerras Híbridas".

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