O Drama do Kosovo: O Berço da Sérvia tornado Enclave do Narcoterrorismo Salafista

O Ocidente hoje se põe como defensor da integridade territorial ucraniana, mas não podemos esquecer que o mesmo Ocidente fez o possível e o impossível para fragmentar os Bálcãs, com enfoque especial na destruição da Sérvia. Nisso, o Ocidente promoveu o salafismo e o wahhabismo na Bósnia e na Albânia, de modo que hoje o Kosovo, berço da cultura e espiritualidade sérvias, tornou-se um Narco-Estado salafista, com ligações com o ISIS e as máfias internacionais.

Erdogan deu início a suas atividades diplomáticas em 2022 com uma visita à Albânia. O primeiro-ministro turco está procurando consolidar sua influência no país muçulmanos dos Balcãs diante das tímidas tentativas da Itália de recuperar sua antiga presença tradicional na região, interrompida sob o comunismo e durante o regime pró-chinês de Enver Hoxha.

O poder crescente da Albânia na região não é ignorado pelos Estados da região. Kosovo, o berço e a terra santa dos sérvios, tornou-se um território de maioria albanesa e muçulmana. A lógica levará à criação de uma Grande Albânia, à qual logo se unirá a área de maioria albanesa da Macedônia do Norte, que se tornará um Estado muçulmano, ligada a Washington e Ancara no frágil palco dos Balcãs.

Kosovo, uma história turbulenta

Os restos culturais em Kosovo datam do período neolítico, sugerindo uma grande população e um grau significativo de civilização na região desde os tempos mais remotos.

Os povos indo-europeus do ramo ilírico-trácio chegaram ao território entre os séculos IV e III a.C., e o mundo romano se impôs a esta população, o que teve um efeito de aculturação significativo na região. Após a queda do Império Romano do Ocidente, o atual Kosovo tornou-se parte do Império Romano do Oriente, que os historiadores erroneamente chamam de Império Bizantino.

Kosovo, que faz fronteira com a Albânia e Macedônia, foi um dos primeiros povoados dos sérvios nos Bálcãs nos séculos V e VI. Os sérvios eram uma das tribos eslavas que povoavam a região dos Balcãs naquela época, tornando-se o elemento étnico majoritário, embora em simbiose com o substrato ilírico-latino.

Sujeitos ao chamado Império Bizantino (na realidade o Império Romano do Oriente), os sérvios se converteram ao cristianismo ortodoxo. Em 850, eles se tornaram súditos do primeiro Império Búlgaro. Os búlgaros eram um povo da estepe relacionado com os húngaros que conquistaram parte da região dos Balcãs no século IX, deixando poucos vestígios, apenas o nome e a denominação da atual Bulgária, cujos habitantes não descendem principalmente desses búlgaros, sendo eslavos por etnia, língua e religião ortodoxa e, portanto, intimamente relacionados com os sérvios e russos. Após a queda do breve Império Búlgaro, a região foi reconquistada por Constantinopla (a capital do Império Bizantino), mas os vários reinos sérvios começaram a lutar por sua independência, tornando Kosovo a área mais forte da resistência sérvia ao domínio imperial.

A Sérvia atingiu seu auge sob os Nemânicas e seu czar, Dushan, no final do século XIV, tornando-a o Estado mais importante dos Bálcãs. Kosovo, o coração do reino sérvio, viu uma proliferação de mosteiros, tesouros arquitetônicos, declarados Patrimônio Mundial, incluindo Pec, que simboliza a autoridade suprema da Igreja Ortodoxa Sérvia. Na época, os sérvios eram a maioria na região, embora houvesse pequenas comunidades de gregos, búlgaros e saxões.

A invasão turca, que ocorreu após a queda de Constantinopla (hoje Istambul), chegou ao Kosovo no final do século XIV. Para deter o avanço turco, foi formada uma coalizão cristã liderada por Lázaro Hrbeljanovic, que incluía sérvios, vlachs, albaneses (a Albânia ainda não era muçulmana), húngaros e sérvios. Os turcos avançaram rapidamente pelo território balcânico e a batalha foi travada no chamado campo do Kosovo. Os líderes de ambos os exércitos, o príncipe sérvio Lázaro Hrebeljanovic e o sultão turco Murad, foram mortos, mas as tropas turcas conseguiram dispersar as exaustas tropas cristãs.

Segundo a tradição sérvia, o príncipe Lázaro e a nobreza sérvia, que haviam sido feitos prisioneiros, preferiram morrer a se converter à fé muçulmana, escolhendo a morte em liberdade à submissão e servidão.

Esta derrota ainda está presente no coração de cada sérvio, e transforma Kosovo para eles em um lugar místico, fora do tempo, presente na memória de cada um deles. Kosovo é a terra santa onde, depois de terem conhecido o poder e a glória, os sérvios caíram na escravidão.

Para os sérvios, Kosovo não é apenas um espaço geográfico, é um território metafísico ao qual os sérvios se sentem ligados, após mais de seiscentos anos, por um juramento que proclama o culto dos heróis e encarna o mistério da morte e da ressurreição da nação sérvia.

Substituição demográfica: a albanização do Kosovo

Durante a submissão ao Império Otomano, Kosovo foi incluído na “Rumélia”, que abrangia a parte da Europa submetida ao Sultão. Logicamente, durante esses anos, a islamização do território começou, e foi nessa época que os albaneses e os bósnios – dois povos europeus – começaram a abraçar o Alcorão.

O século XVII assistiu ao início da guerra entre os turcos e o Sacrp Império Romano, que estava determinado a devolver estas terras à civilização europeia. Contraofensivas turco-muçulmanas contínuas foram acompanhadas de terríveis saques, estupros e incêndios. A repressão turca era dirigida principalmente aos sérvios, 30.000 dos quais, liderados pelo Patriarca Ortodoxo Arsênio III, foram forçados a se refugiar na Áustria, durante este episódio de sua história que os sérvios ainda chamam de a Grande Migração. Foi então, sob proteção turca, que os albaneses começaram a chegar em massa, mudando a composição étnica do Kosovo.

No século XIX, havia na região algum sentimento nacionalista kosovar albanês. Em 1912, após a Primeira Guerra dos Balcãs, Kosovo foi reconhecido internacionalmente como uma província da Sérvia recém-liberada, e a porcentagem de sérvios na região excedia 50%. Durante a Segunda Guerra Mundial, a região ficou sob a soberania albanesa, mas no final do conflito reverteu para a Sérvia, que se tornou uma das repúblicas federadas da Iugoslávia, mas nessa época a porcentagem de sérvios já havia caído para 25%.

Ao contrário da crença popular, o “golpe de misericórdia” contra os sérvios foi dado pelo regime do Marechal Tito, que proibiu o retorno dos refugiados sérvios à região, pois este tentou se aproximar da Albânia liderada pelo maoísta Enver Hoxha. Tito encorajou o nascimento de albaneses kosovares tornando-se o padrinho do sétimo filho nascido de uma família albanesa kosovar. O resultado desta política de inversão demográfica foi que, nos anos 90, a porcentagem de sérvios na região caiu para 10%; nos anos 2000, as ações terroristas do ELK reduziram este número para 8%.

ELK: narcoguerrilheiros kosovares albaneses

Em 1998, a guerrilha do ELK (Exército de Libertação do Kosovo) iniciou suas atividades armadas e suas ações estavam concentradas principalmente na morte de civis sérvios. Esta organização terrorista, com seus métodos mafiosos, não faz uma distinção clara entre sua atividade armada e o crime comum. Acredita-se que o ELK seja um dos elos mais importantes na rota das drogas do Afeganistão para a Europa Ocidental através da Turquia e dos Bálcãs. As ligações do ELK com o tráfico ilegal de automóveis e especialmente com o comércio nojento de órgãos humanos são bem conhecidas.

Em 2008, o promotor sérvio encarregado de crimes de guerra investigou dezenas de relatos de prisioneiros sérvios capturados por líderes terroristas do ELK, que mais tarde se tornaram parte do governo kosovar, enquanto eram acusados de tráfico de órgãos. O Ministério Público sérvio recebeu informações do Tribunal de Haia de que dezenas de sérvios presos por albaneses em Kosovo foram levados para a Albânia em 1999 e assassinados, seus órgãos roubados e vendidos a traficantes internacionais. A ex-procuradora-chefe do Tribunal de Haia, Carla Ponte, publicou um livro sobre o assunto intitulado A Caça, no qual ela observa que as vítimas sérvias foram capturadas de preferência após o bombardeio “libertador” da OTAN na região. Uma Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa acusou Hashim Thaci, líder do ELK, de ter estado à frente desta rede criminosa. Thaci foi eleito duas vezes presidente do Kosovo independente.

Kosovo é o epicentro das máfias na Europa

Em seu livro O G9 – As Máfias do Mundo, o especialista em criminologia Jean François Gayraud adverte sobre o perigo do surgimento de grupos narcoterroristas como o grupo guerrilheiro albanês ELK, um fator que ameaça a paz e a estabilidade mundial. Seu diagnóstico é inequívoco: “A maior simbiose entre o Estado e a máfia está ocorrendo em um país que ainda não existe: Kosovo”.

Kosovo tornou-se o principal foco do tráfico humano, da escravidão branca, do contrabando de cigarros, dos carros roubados e do tráfico de drogas na Europa.

Vários representantes do seu governo foram presos sob acusações criminais, tais como seu ex-primeiro ministro, Agim Ceku, que foi detido na fronteira macedônia-búlgara quando as autoridades colombianas o deportaram de seu país a pedido do governo de Belgrado, que quer levá-lo aos tribunais internacionais.

Os EUA estão por trás da instabilidade nos Balcãs

O século XX testemunhou um conflito geopolítico constante: a instabilidade nos Balcãs causa instabilidade e conflitos em toda a Europa.

A queda do Muro trouxe um novo cenário internacional, o “perigo comunista” desapareceu, o guarda-chuva americano tornou-se inútil e é possível uma aproximação entre a Europa Ocidental e Oriental; o equilíbrio está quebrado e a hegemonia militar americana pode ser desafiada.

Com a velha e infalível tática de “dividir para conquistar”, os estrategistas do Pentágono não foram insensíveis ao surto de conflitos na área mais sensível de nosso continente onde se cruzam as zonas de influência das potências europeias: Eslovênia-Croácia (influência alemã); Sérvia-Bulgária-Macedônia (influência russa), além da tradicional amizade franco-sérvia. O que poderia ter sido um ponto de união entre os países europeus tornou-se um ponto de confronto bélico.

Washington introduziu um elemento que desestabilizaria completamente a região: o salafismo. Enquanto o Islã existia na região como religião, foi o apoio dos EUA que introduziu um elemento político-ideológico. Os EUA usaram o salafismo da mesma forma que usaram na Chechênia contra a Rússia e através do Marrocos contra a Espanha. Esta ação do Pentágono se traduziu em apoio à criação do primeiro Estado islâmico de inspiração salafista na Europa: a Bósnia-Herzegovina; e mais tarde em apoio claro à separação do Kosovo da Sérvia, e sua inclusão na Grande Albânia, como o segundo Estado islâmico em solo europeu (a Albânia comunista era predominantemente muçulmana, mas dificilmente poderia ser chamada de Estado islâmico). A criação desta “espinha dorsal verde” – Albânia-Bósnia – com alianças táticas e ideológicas com a Turquia, à época leal à política de Washington, perturbou o equilíbrio dos Balcãs e criou permanentemente uma zona de instabilidade, transformando-a em um ninho de vespas.

A Rússia e os identitários europeus do lado da Sérvia

A Sérvia é, junto com a Bulgária, o grande aliado permanente da Rússia, três países eslavos de religião ortodoxa e fortes laços culturais. Nas recentes crises dos Balcãs, a Sérvia também contou com o apoio incondicional de países como a Romênia (latina e ortodoxa) e a Grécia (helênica e ortodoxa). Mas o apoio mais poderoso, sem dúvida, vem de Moscou.

A Rússia tem apoiado diplomaticamente a Sérvia, até mesmo considerando uma possível resposta militar Moscou-Belgrado à declaração unilateral de independência de Kosovo. Entretanto, o Kremlin não quis dar tal passo, o que o teria confrontado abertamente com os EUA. A não intervenção da Rússia em Kosovo teve sua contrapartida geopolítica na Geórgia, onde, no verão de 2008, Moscou interrompeu militarmente e com força o ataque da Geórgia à Ossétia do Sul, reconhecendo a independência deste novo Estado como um pré-requisito para sua reunificação com a Ossétia do Norte como outra região da Rússia.

O avanço militar da Rússia no grande tabuleiro de xadrez marcou um novo equilíbrio de poder. Desde então, a Rússia tem apoiado ainda mais abertamente a posição sérvia em Kosovo, tanto diplomática quanto logisticamente. Nas circunstâncias atuais, parece provável que Moscou se envolva mais em um possível novo confronto entre albaneses e sérvios sobre a dominação do Kosovo.

Na Europa Ocidental, é digno de nota o apoio que todos os partidos identitários têm dado à Sérvia e à população sérvia cristã na região. Durante os piores momentos da crise do Kosovo, as declarações dos líderes desses partidos, incluindo a FPÖ austríaca e a FN francesa, foram claras. Acrescente ações e respostas concretas, como a iniciativa francesa Solidarité Kosovo, que fornece alimentos, cuidados médicos e brinquedos às crianças sérvias desde 2011, com filiais em vários países europeus.

Para aqueles de nós que acreditam na emancipação europeia, a questão do Kosovo ainda é relevante.

Fonte: Euro-Synergies

Enric Ravello

Analista geopolítico espanhol.

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