O mito da Máquina: Sol escaldante e o homem cego

O escritor irlandês Paul Kingsnorth reflete sobre nossa relação com a tecnologia e como ela é, em si, um sintoma duma submissão muito mais profunda a um mito que atravessa e supera séculos e civilizações, homem e tecnologia: A Máquina.

Por Paul Kingsnorth

Eu reluto em admitir, dada minha reputação como um aficionado pela foice, mas recentemente eu comprei um cortador de grama. Eu tenho muita grama, ela cresce muito rápido e nem toda ela é sensível ao corte manual. Eu vivo num país de fazendeiros, então ir às compras por um cortador é também um tour por toda a tecnologia sendo empurrada aos donos de terra para poupar-lhes tempo, dinheiro, além de serem indispensáveis se você quer competir com a China. Tratores do tamanho de celeiros, enfardeiras, garras, espalhadores, tanques de polpa, etc.: está tudo aqui, se puder pagar.

O astro atual é o cortador de grama robotizado. Não serve para um fazendeiro, mas um dono de casa com muita grama é o sucesso da estação pandêmica. Um destes estava num pedestal no meio da loja que visitei, carregado de propagandas e promessas – corte sua grama sem sair de casa! – sobre tempo, esforço e consumo.

A noção de que novo maquinário equivale a ‘progresso’ é provavelmente tão velha quanto a civilização. Na minha vida, toda a tecnologia empurrada sobre nós, desde micro-ondas até a internet, nos trouxe algo que não tínhamos e nos tirou um tanto mais, mas se há uma coisa que nenhuma tecnologia nos deu é tempo ou diminuição do esforço. Eu sou velho o bastante para lembrar, por exemplo, de quando nos prometeram que o advento do e-mail nos pouparia horas: Nada de fax, abrir ou responder cartas! Agora gastamos trinta dias por ano (!) só enviando e-mails, e é cada vez mais difícil ficar sem contato com alguém, em qualquer lugar.

Eis o pacto demoníaco da técnica, no qual temos caído desde sempre: abrace o novo, perca o velho, enrole-se cada dia mais na teia tecnológica da qual não pode escapar mesmo se quiser. Também conhecida como a armadilha do progresso, esse é o mundo em que vivemos, e o cortador robô é apenas o exemplar mais atual, junto de geladeiras inteligentes, aspiradores robotizados, um monte de quinquilharias e a terrível Alexa, que gentilmente monitora toda a sua privacidade e manda tudo para Jeff Bezos. Tudo excitantemente vendido para poupar seu tempo e melhorar sua vida. Tudo uma armadilha sobre a qual alegremente pisamos.

Em meu último ensaio, eu escrevi sobre o colapso da Cristandade no Ocidente. Pode parecer um pulo estranho, ir de cortadores de grama para Jesus Cristo, mas me acompanhem. É comum sugerir que quando passamos da Cristandade, através do Iluminismo para a atualidade (modernidade, pós-modernidade, pós-pós-modernidade?) o mundo se dessacralizou, ou “desencantou”: nos tornamos materialistas. Para seus apoiadores, esse processo significou um passo adiante da ‘razão’ e um afastamento da ‘superstição’. Para seus oponentes, representou um descaminho para a decadência e dissolução. De qualquer modo, a tese do desencantamento, digamos assim, tem sido influente desde sua famosa anunciação por Max Weber.

Mas num interessante artigo de alguns anos atrás para a revista Aeon, Eugene McCarraher diverge dessa ideia. A modernidade, ele afirma, não dispensa a ordem sagrada Ocidental para deixar apenas materialismo dessecado em seu lugar. Nosso sistema de valores é tão encantado quanto antes – mas nós falhamos em reconhecê-lo porque ele posa como outra coisa:

Desde o século XVII, boa parte da história moderna nos dá boas razões para encarar o “desencantamento” como uma fábula, uma mitologia que enevoa a persistência do encantamento sob um véu ‘secular’. O capitalismo, no fim das contas, pode ser a forma de encantamento moderno mais sedutora, modelando o universo moral e ontológico à sua imagem e semelhança pecuniárias.

Se McCarraher estiver certo, nós não trocamos uma ordem sagrada por uma profana. Nós entronizamos um novo deus e disfarçamos sua adoração como uma perseguição desencantada do ganho puramente material. Nós vestimos de ‘economia’ o novo ídolo soberano: a Máquina.

Mas o que é essa máquina, de onde veio e como conseguimos defini-la?

O imenso The Myth of the Machine, de Lewis Mumford, publicado em dois volumes entre entre 1967 e 1970, é uma tentativa exaustiva de relatar a ascensão e triunfo do sistema de poder e tecnologia que hoje nos enreda a todos; um sistema que ele denomina ‘a megamáquina’. Ele apresenta sua tese logo nas primeiras páginas do primeiro volume.

Todos percebemos que o último século testemunhou uma transformação radical em todo o ambiente humano, como resultado de um impacto profundo das ciências físicas e matemáticas sobre a tecnologia … Nunca antes, desde as Pirâmides, tantas mudanças foram consumadas em tão curto período. Todas essas mudanças, em troca, produziram alterações na personalidade dos homens, e muitos outras mudanças radicais se avizinham, caso esse processo continue irrefreado.

Ele escreveu esse parágrafo enquanto a TV colorida ainda era uma criança e a humanidade não havia pisado na lua. O processo continuou, de fato, irrefreado. Mumford faleceu em 1990, antes da internet, dos celulares, I. A. e smart-tudo, mas ele sabia o que estava a caminho:

Com essa nova ‘megatécnica’, a minoria dominante criará uma estrutura uniforme super-planetária que englobará tudo em designs operações automatizadas. Em vez de funcionar ativamente como uma personalidade autônoma, o homem se tornará passivo, sem propósito, um animal maquinalmente condicionado cujas funções serão, conforme a interpretação técnica do papel humano, alimentar a máquina ou beneficiar organizações coletivas dissociadas.

Essas ‘organizações coletivas dissociadas’ são as gigantes corporativas que agora nos controlam. Elas produzem nossa comida, nossas roupas, nossa tecnologia, entretenimento e as notícias sobre as quais baseamos nossas opiniões, enquanto empregam milhões de trabalhadores, nos cultivando como produtos através de informações pessoais que voluntariamente cedemos por toda a rede.

Essas corporações operam via redes tecnológicas globais de grande poder e complexidade – cabos submarinos, satélites, monitoramento local e corpóreo (nossos bolsos) e eventualmente com ruas, edifícios e tudo o mais conectado à rede, monitorando em tempo real e vendendo tudo o que não precisamos. A autorização vem de estados igualmente dissociados, que não existem para promover os interesses do povo (apesar do que as corporações nos fazem acreditar), mas para servir as corporações e garantir seus interesses: o tal do ‘crescimento econômico’.

Esse ‘crescimento’ é o propósito prevalecente da economia ‘global’ construída pela máquina: todo o mais é secundário. O crescimento não possui objeto ou fim específico, e sempre pode ser justificado ao apontar problemas – pobreza, degradação ambiental, etc. – dos quais é muitas vezes causa e a “única solução”. Ele é facilitado pela produção e consumo de bens e serviços, o desejo (ou ‘necessidade’) fabricado por vastas empresas de marketing e publicidade, cujas melhores mentes são treinadas na essência da manipulação psicológica.

A ascensão e o triunfo da Internet – a rede neurológica da Máquina – significou que agora existem poucos lugares na Terra onde podemos escapar do incessante ruído deste ‘crescimento’ estatal-corporativo e do incessante impulso de contribuir, clicando, rolando, comprando e competindo. Ele prescreveu todos os nossos valores, proibiu as alternativas e não mostra sinais de parar. Na verdade não pode parar, pois fazê-lo significaria um colapso. O crescimento se tornou um fim em si mesmo, divorciado há muito de qualquer meio. E, como o grande Edward Abbey uma vez apontou: “o crescimento pelo crescimento é a ideologia da célula cancerígena”.

Eis então a máquina. Não é simplesmente a soma de tecnologias individuais que habilmente agitamos – carros, laptops, cortadores robóticos e todo o resto. De fato, tais ‘técnicas’, como Mumford chama, são produtos da máquina, não sua essência. A Máquina é, ao contrário, uma tendência dentro de nós, concretizada pelo poder e circunstâncias, que se unem num imenso aglomerado de poder, controle e ambição. E não é uma novidade; podemos traçar sua origem muito além do que imaginamos, no alvorecer da própria civilização.

Existia um íntimo paralelo entre as primeiras civilizações orientais e a nossa, embora a maioria de nossos contemporâneos ainda considerem as técnicas modernas não apenas como o ponto mais alto do desenvolvimento intelectual humano, mas como um fenômeno completamente novo. Pelo contrário … [ela] se origina muito antes da revolução industrial do século XVIII, mas no início da organização de uma máquina arquetípica feita de partes humanas.

Mumford chama essa máquina feita de partes humanas de ‘megamáquina’: uma sociedade inteira, ordenada do alto para baixo, justificada por um mito empregado pelos líderes e dirigido por uma ambição de ‘ordem, poder, previsibilidade e, acima de tudo, controle.’ O exemplo arquetípico da megamáquina não provém da Europa ou América modernas, mas do antigo Egito, cujas legiões de escravos construtores eram condicionados a pensar e agir como engrenagens de um vasto e inumano mecanismo.

Os trabalhadores que levaram esses desígnios adiante possuíam mentes de outra ordem: mecanicamente condicionados, executando cada tarefa com obediência às instruções, com infinita paciência, limitando suas respostas ao comando. O trabalho maquinal só pode ser feito por máquinas. Esses trabalhadores eram despidos de seus reflexos, para assegurar uma performance mecanicamente perfeita.

Se isso soa como a descrição de uma fábrica inglesa de 1848 – ou uma chinesa atual – é porque é uma, de fato. As pirâmides têm quatro mil anos, mas o principal testemunho da megamáquina montada para construí-las é terrivelmente familiar.

Já as grandes pirâmides egípcias, o que são se não o preciso equivalente estático de nossos foguetes espaciais? Ambos feitos para assegurar, a custos extravagantes e para poucos seletos, uma passagem para o Paraíso.

Se formos falar da Máquina hoje, então, a primeira coisa que devemos notar é que ela não é uma exclusividade da modernidade, nem nova em essência. No antigo Egito, conforme Mumford, as sementes de nosso império tecnológico global já era plantada:

Algumas sementes cresceram tumultuosamente: outras precisaram de cinco mil anos antes de brotar. Quando aconteceu, o deus-rei apareceria outra vez, sob nova forma. E a mesma ambição infantil o acompanharia, inflada para além de qualquer dimensão, mas agora realizável.

Combine a análise de Mumford com a de Spengler e uma imagem do ritmo da história humana emerge, onde civilizações centrais se elevam, acumulam poder através das conquistas, então constroem sistemas que se tornam megamáquinas, com componentes humanos, mecânicos ou digitais – ou no nosso caso, os três. Essas megamáquinas crescem e crescem, perseguindo a vanglória – economia global, organismos geneticamente modificados, viagem interplanetária, abolição da morte – até que devoram culturas, devastam ecossistemas e quebram barreiras que não conheciam. Então, elas caem; mas como Sauron, elas ressurgem.

Mas Mumford diz que – e aqui está o tecido que o conecta com Spengler, Macintyre e McCarraher – nenhuma sociedade vai tão longe apenas por fins materiais. A Máquina não é apenas um vasto mecanismo sem alma para a conquista de bens. Ela é um objeto sagrado e mortífero em si. É seu próprio encantamento:

As comunidades nunca se esforçam ao máximo, ou reduzem a vida individual, exceto para o que consideram um grande fim religioso … onde tais esforços e sacrifícios parecem feitos para fins econômicos, eles se tonam um deus, um objeto sagrado e libidinoso, identificado com Mamon ou não.

Isso é que Mumford chama de ‘o mito da Máquina’. Por vezes, em nossa era, chamamos de crescimento, por vezes de progresso. Outras vezes não precisamos de palavras, pois nenhuma palavra pode circunscrever uma deidade. Mas uma deidade ela é – e ao longo da história humana, do Egito à Babilônia, Suméria à Roma, onde quer que a Máquina caia, nós a reconstruímos, porque num certo nível, precisamos que ela nos conte sobre nós mesmos.

A última contribuição duradoura da megamáquina era o mito da máquina em si: a noção de que essa máquina era, por natureza, absolutamente irresistível – e ainda sim, dado que ninguém se opusesse a ela, beneficente. Esse feitiço mágico ainda hoje cativa tanto os controladores quanto as vítimas em massa da megamáquina.

Isso ela faz. Através dos espectros, de conservadores a liberais, marxistas, fascistas, socialistas e verdes, crentes e ateus, poucas críticas sérias sobre os mitos de progresso, crescimento e materialismo serão ouvidas na esfera pública. Finalmente, a maioria de nós acede ao soberano, felizes ou não. Diariamente somos lembrados que, no fim das contas, não existem alternativas realistas para perseguir o que, conforme Mumford, é o ‘animus fundamental’ da Máquina:

O esforço para conquistar espaço e tempo, acelerar o transporte e a comunicação, expandir a energia humana através do uso de forças cósmicas, aumentar exponencialmente a produtividade industrial, estimular o consumo e estabelecer poder centralizado absoluto sobre a natureza e o homem.

Conquista e expansão são essenciais para a Máquina. Se é possível dizer que ela possui uma ideologia, seria a quebra e destruição de limites, homogeneização de tudo na busca pelo crescimento contínuo. O resultado final é o achatamento do mundo – culturas, ecossistemas, paisagens, tradições: qualquer forma de resistência que limite o escopo de seu reino. A Máquina é, no limite, anti-limites e anti-forma: o que quer dizer anti-natureza e anti-humano. Como tal, seu fim é claro: ele foi explorado em milhares de romances ao longo dos séculos (e incluo meu próprio esforço à lista), previsto e alertado por filósofos, cineastas e cientistas. A Máquina mira aquilo que C. S. Lewis denominou a abolição do homem, que é também a abolição da natureza.

Esses escritores e cineastas, emitindo seus avisos, agora atuais, sobre o eclipse da humanidade por sua própria tecnologia, tinham duas características em comum: eles estavam certos, e estarem certos não fez nenhuma diferença. Todos nos impressionamos com The Machine Stops e Matrix noventa anos depois, fomos para casa e nada mudou. A genialidade da Máquina, e a razão para seu florescimento, é a capacidade de absorver a crítica, cooptá-la e então comercializá-la. E tão pervasivos são os valores da Máquina, que seguidamente aqueles que promovem alternativas se encontram realizando a sua obra.

Considerem, por exemplo, as duas grandes ideologias totalitárias do século XX. Comunismo e fascismo – na realidade, variações do mesmo tema – foram vendidos como alternativas para a ‘decadência’ do capitalismo liberal. Ambos prometeram sociedades universalistas utópicas, mas eram, de fato, ideologias da Máquina – provavelmente a manifestação mais pura da política da Máquina jamais vista. Ambos eram controladores, puristas, materialistas, totalitárias, militaristas, imperiais, tecnológicos e pelo menos em teoria, ‘científicos’, manifestando as formas mais deturpadas de pseudo-racionalismo imagináveis. Considerem o Lysenkoismo ou a medida craniana para determinação racial; veja um filme das Reuniões de Nuremberg ou marchas soviéticas pela Praça Vermelha. Ali está a Máquina, nua e desavergonhada.

Mas hoje, até as formas mais brandas de resistências são cooptadas. Já escrevi muitas vezes sobre o movimento verde outrora radical que se transformou num acelerador da Máquina. Um movimento que começou com mais simplicidade e parcimônia, aproximação da natureza e vidas simples transformou-se em uma cruzada para sobrepor áreas selvagens com vidro e metal, abolindo plantações, industrializando ainda mais a rede alimentar, traçando perfis de consumo para promover uma visão de ‘sustentabilidade’ que fariam qualquer Fortune 500 sorrir.

O mesmo ocorre em outras áreas. Aqui no Substack, a ‘feminista reacionária’ Mary Harrington explora como a longa cruzada feminina por reconhecimento e tratamento igual tornou-se um dispositivo para preencher forças de trabalho com mulheres ao mesmo tempo que erode a unidade familiar inconveniente para a Máquina: tudo por um lucro, claro. Sobre o movimento de ‘justiça social’ que causa a insônia dos conservadores: seu ‘radicalismo’ é maquinal, como demonstrado pela emergência do capitalismo ‘woke’. A nova esquerda, como a Máquina que a pariu, busca abolir o mercado, limites, fronteiras, se adequando perfeitamente ao mundo da Máquina. Aqui é curioso pensar numa ‘revolução’ que é apoiada por toda grande corporação e mídia, assim como o establishment intelectual ocidental, e que vê a Big Tech derrubar seus opositores diariamente.

Aqui estamos nós. Quais são, então, as características essenciais que podemos identificar na manifestação da Máquina atual, e seus valores fundamentais? Vou me arriscar e listá-los. O primeiro esboço vem com um convite aberto para o seu desafio, ou acréscimos. Juntos, talvez possamos delinear a forma de nosso soberano coletivo:

  • Sociedade centralizada, hierarquizada e de larga escala.
  • Burocracia efetiva, capaz de ordenar e monitorar o cidadão.
  • Força policial e militar suficiente para manter a ordem.
  • Excesso populacional, predominantemente urbano, necessitado da Máquina para sobreviver e inclinado a defendê-la.
  • Economia centralmente direcionada; instituições financeiras poderosas.
  • Expansão via colonização (poder militar, tratados internacionais e pressão econômica) para manutenção de mercados e recursos.
  • Sistema de propaganda, desenhado para normalizar todo o resto (‘a mídia’).
  • Substituição de partes humanas por tecnologia; expansão do sistema tecnológico em todas as áreas.
  • Redes avançadas de comunicação universal, capazes de propaganda e monitoramento da população (‘a rede’).
  • Matriz sofisticada de produção e distribuição de bens e serviços (‘o mercado’).
  • ‘Eficiência’ econômica como pilar do valor. Comércio como motor e valor da sociedade.

Valores centrais:

  • Progresso: Mito central da Era da Máquina. Avanço material em todas as áreas é necessário e inevitável. O futuro é sempre melhor que o passado.
  • Abertura: limites são prisões, fronteiras são ofensivas, autodefinição é um direito. Todos devem ser expostos, tabus devem ser quebrados. A felicidade resultará de menos restrições.
  • Universalismo: Valores da Máquina são aplicáveis em todo lugar e devem estar disponíveis para todos por direito, dada sua natureza libertária (ver acima).
  • Futurismo: Contra o passado e local, devemos escapar da História, raízes são limitantes do progresso, potencialmente prejudiciais.
  • Individualismo: Fragmentação de comunidades locais, unidades familiares e outras formas tradicionais de organização, em favor de desejos e ambições individuais.
  • Tecnologismo: Novas tecnologias são benevolentes e inevitáveis, e apesar de pequenos desvios, devem ser abraçadas. ‘A tecnologia é neutra’ e não possui telos: serve para o bem e para o mal.
  • Cientificismo: ‘Ciência e razão’ são ‘objetivas’, árbitros utilitários do valor.
  • Comercialismo: valores de mercado infiltram-se em toda a vida; a realização está ligada ao consumo material.
  • Materialismo: Deuses, fantasmas e superstições devem ser transcendidos.

NHA: ‘não há alternativa’. A Máquina é ‘absolutamente irresistível … e, no limite, benéfica.’ A oposição é, no melhor dos casos, ingênua, no pior, uma negação perigosa de seus benefícios aos necessitados. A frustração dos anti-Máquina é direcionada para a ‘arte’, agora um commodity neutralizado e comercializado.

Isso é um começo imperfeito, mas estarei atento aos acréscimos e substratos. O que tento realizar aqui é delinear o que constitui nosso mito contemporâneo da máquina. Porque a Máquina é, antes de tudo, um mito – o que quer dizer que é uma história, promovendo valores. Tal história tomará forma se muitos a contarem e acreditarem nela. A história da Máquina vem sendo contada por muito tempo, e nos esquecemos que é uma história.

Aproximadamente na metade do primeiro volume de The Myth of the Machine, considerando os inúmeros horrores desse soberano, Mumford se pergunta porque o suportamos:

Por que este complexo técnico ‘‘civilizado’’ deveria ser considerado como um triunfo incondicional e por que a raça humana o suportou por tanto tempo, será sempre um dos quebra-cabeças da história.

Mas esse mistério em si implica numa luz, ainda que fraca: uma fenda no topo da caverna que poderá apontar alguma forma de escapar. Se a Máquina é uma história, o primeiro passo para desmantelá-la não é nem um macaquinho nem uma revolução – é parar de acreditar nela. O segundo passo é parar de contá-la para os outros; o terceiro é parar de procurar por uma melhor.

Para nos libertar, continuamente, uma alma humana por vez, devemos nos afastar da Máquina em corpo e alma. Ou, como Mumford conclui em seu segundo volume:

Para aqueles de nós que despojaram o mito da máquina, o próximo passo é nosso: pois os portões da prisão tecnocrática se abrirão automaticamente, apesar de suas dobradiças antigas enferrujadas, assim que optarmos por sair.

Fonte: The Abbey of Misrule
Tradutor: Augusto Fleck

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Paul Kingsnorth

Escritor irlandês, cristão ortodoxo e autor do blog The Abbey of Misrule.

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