A história não tem moral

O que de fato está por trás da sanha esquerdista por derrubadas de monumentos e estátuas pelo Brasil?

Essa questão de defesa ou ataque aos bandeirantes pouco tem a ver, no fundo, com um debate historiográfico. A história enquanto ciência, em teoria, não se importa com heróis ou vilões, eu não inicio um estudo de um determinado recorte histórico e saio de lá com um vilão e um herói, eu saio com um contexto bem complexo e frio que deixa pouco espaço para mocinhos e bandidos. A história não tem moral, mas todo povo tem a necessidade de moralizar e sacralizar seus heróis históricos, principalmente seus heróis fundadores, o que sempre vi mais como um sentimento religioso que foi laicizado com o avanço da modernidade. Todo povo possui mitos que dão coesão à sua existência, que justificam leis, hierarquias, valores, sua cosmovisão; e esses mitos geralmente estão acompanhados dessas figuras semidivinas ou completamente divinas, que matam o dragão, passam por desafios e saem vitoriosas.

O bandeirante, na psique do caipira, está mais próximo de um Odisseu e de um Hércules do que de uma simples figura histórica. Temos inúmeros exemplos de civilizações pré-modernas em que a história e o mito se confundem, principalmente em sociedades de forte tradição oral, a realidade prática do nosso sertão. Tudo isso torna o ato de destruição desses monumentos mais grave ainda. Eu falei mais cedo que um bom estudo da história não cria heróis e vilões, mas essa esquerda desconstrucionista vai além, porque ela não cria herói nenhum, só vilões e vítimas; ela se importa mais em derrubar monumentos do que erguer novos. Por exemplo, quem fala em erguer novas estátuas para homenagem a Zumbi? No auge do pensamento decolonialista, Zumbi deveria ser alçado como o grande herói nacional, mas para essa esquerda ele ainda é um personagem problemático, afinal, ele foi um rei e seu maior valor era a virilidade, a coragem; eles distorcem, mas é difícil negar que ele fosse um personagem apolíneo. Ou seja, todo esse movimento é niilista, cibelino, satânico; é mais profundo que rasgar uma página da nossa história, é como quebrar um ídolo sagrado, queimar um templo.

Guilherme Chaves Herrero

Graduando em história, responsável pelas artes do Laokratia, e membro da NR-SP.

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