Afeganistão: Cemitério de Impérios

A paisagem montanhosa e inóspita do Afeganistão oculta um povo corajoso e feroz, que há milênios tem resistido aguerridamente a tentativas de ocupar seu território. E as últimas vítimas são os EUA, que são finalmente forçados a bater em retirada após 20 anos de ocupação do país. Mas isso não significa o fim do caos. Praticamente todos os vizinhos do Afeganistão possuem interesses nesse território, enquanto a CIA fomenta o separatismo.

A guerra conduzida pelos EUA no Afeganistão parece estar terminando, e nem um dia muito cedo. O pai dos Estados Unidos, Benjamin Franklin, escreveu sabiamente: “Nenhuma guerra boa; nenhuma paz ruim”.

No entanto, durante 20 anos, os Estados Unidos travaram uma guerra total contra este pequeno, remoto e empobrecido Estado, cujas únicas armas eram velhos rifles AK-47 e a coragem sem limites de seu povo feroz.

Em meu primeiro livro sobre o Afeganistão, Guerra no Topo do Mundo, escrito depois de estar no campo com os combatentes “mujahideen” antissoviéticos, eu os chamei de “os homens mais corajosos do mundo”. Agora, cerca de 21 anos depois, repito este título.

Nas últimas duas décadas, os mujahideen nacionalistas afegãos têm enfrentado todo o poder do império americano: ondas de bombardeiros pesados B-1 e B-52; frotas de drones assassinos, ataques aéreos constantes das bases aéreas dos EUA no Afeganistão, Ásia Central e Golfo; 300 mil mercenários afegãos financiadas pelos EUA; até 120 mil homens dos EUA e da OTAN e outros mercenários pagos pelos EUA; a brutal polícia secreta afegã dirigida por comunistas, a polícia governamental regular, as milícias tajiques, hazara e uzbeques, os esquadrões da morte enviados pelos EUA e pela Grã-Bretanha, além de fome e doenças. O uso da tortura pelas forças ocidentais foi desenfreado.

Tudo isso para defender os governos fantoches afegãos instalados pelos EUA, cujo principal negócio era proteger o crescente comércio de ópio da nação, o que fez do Afeganistão o maior exportador mundial de ópio/morfina que era transformado em heroína. Outro momento de orgulho para Washington que, na década de 1970, esteve até seus ouvidos no comércio de ópio da Indochina, e mais tarde no negócio de cocaína da América Central.

O Afeganistão foi uma guerra de mentiras, sustentada pela poderosa mídia americana e britânica. O presidente George W. Bush, um homem de profunda ignorância, lançou esta guerra para cobrir o fato de ter sido pego dormindo pelos ataques do 11 de setembro. Bush culpou Osama bin Laden, antigo aliado dos EUA, e o governo talibã do Afeganistão pelo 11 de setembro, embora os afegãos provavelmente não estivessem envolvidos com ele.

A única prova do envolvimento de Bin Laden foi uma série de vídeos falsos que, creio, foram feitos pelo serviço de inteligência do Afeganistão. Quando apontei que esses vídeos eram falsos, a CNN me colocou na lista negra para novas transmissões. A CBC TV do Canadá e a cadeia Sun também o fizeram depois que eu avisei que tropas canadenses estavam sendo enviadas ao Afeganistão sob falsos pretextos.

Oficialmente, os EUA perderam 31.376 homens, entre mortos e gravemente feridos, no Afeganistão; o Canadá perdeu 158 homens; a Grã-Bretanha 456 homens; os afegãos só Deus sabe quantos. As estimativas variam de 100 mil a um milhão. Dois milhões de afegãos terão morrido durante a ocupação soviética, que durou uma década. Quase tudo que se movia foi bombardeado.

O custo conhecido desta guerra inútil foi de 2 trilhões de dólares americanos, mais centenas de milhões em pagamentos secretos para contratar “voluntários” dos aliados americanos para lutar no Afeganistão. Quase tudo isso foi dinheiro emprestado escondido na dívida federal americana.

E a seguir? Os EUA estão tentando encontrar uma maneira de permanecer engajados no Afeganistão através de ataques aéreos a partir de suas bases no Golfo e possivelmente de novas bases na Ásia Central. A principal potência militar do mundo simplesmente não pode suportar a humilhação da derrota no Afeganistão, particularmente por um bando de guerreiros muçulmanos das montanhas. Todos aqueles “especialistas” americanos e britânicos que defenderam a guerra no Afeganistão estão agora escondendo seus rostos, como fizeram após o desastre do Iraque.

O partido da guerra está tentando encontrar maneiras de manter o conflito, levantando falsos alarmes sobre a escolaridade das meninas, tradutores e direitos das mulheres. Mas não ouvimos nada desses hipócritas pró-guerra sobre o assassinato e estupro de milhares de mulheres na Índia a cada ano. Quantos americanos desinformados sabem que o Talibã era um movimento religioso formado para deter o estupro de mulheres afegãs e o banditismo durante a amarga guerra civil dos anos 90? Eu estava lá e vi tudo isso.

E agora? Com o declínio do poder americano, a CIA tentará reforçar os movimentos separatistas entre as minorias tajiques e uzbeques do Afeganistão. O Irã vai armar e financiar a minoria xiita hazara. O Tadjiquistão e o Uzbequistão, ainda socialistas, apoiarão seus irmãos étnicos no Afeganistão. Mais importante ainda, a Índia intensificará as intrigas no Afeganistão, onde sua poderosa agência de inteligência, RAW, está cada vez mais ativa.

Enquanto isso, o Paquistão apoia calmamente o Talibã que, como um quarto dos paquistaneses, é da etnia pashtun. Surpreendentemente, a China não sabe o que fazer no Afeganistão: ela quer bloquear a expansão da influência indiana no subcontinente, mas teme profundamente o Islã militante e sua crescente influência no Xinjiang, o antigo Turquistão, governado pela China.

Portanto, os americanos podem não ter se livrado derradeiramente do Afeganistão, uma das maiores loucuras da política externa dos EUA. Parafraseando o grande Talleyrand, a guerra dos EUA no Afeganistão “foi pior que um crime, foi um erro”.

Fonte: Oriental Review

Eric Margolis

Jornalista e escritor canadense-americano de orientação republicana, mas antineocon.

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