Cuba e Rússia: Novas Estratégias Anticapitalistas

Após o colapso do comunismo, Cuba se encontrou em uma encruzilhada na qual o país ainda permanece. Se render ao liberalismo ou construir um caminho autônomo? Aleksandr Dugin fala sobre as possibilidades que se encontram diante de Cuba, bem como da importância das relações entre Cuba e Rússia, que transcendem qualquer ideologia.

Hoje é muito importante para Cuba e para a Rússia fortalecer suas relações diplomáticas, especialmente porque vivemos em uma situação bastante difícil. Como outros oradores já assinalaram, há alguns indivíduos e estruturas na Rússia que não consideram Cuba um aliado: eles simplesmente consideram este país de um ponto de vista econômico. Devemos superar esta posição e entender que somente uma Cuba soberana pode ser um verdadeiro sujeito da grande política: nesse sentido, Cuba não deve ser considerada simplesmente como um Estado a serviço dos interesses locais da Rússia na região. Algo que, sem dúvida, aconteceu no passado. Nosso objetivo é respeitar Cuba e considerá-la um sujeito político, ou seja, um povo. Os cubanos são um povo heroico que muitas vezes demonstrou sua capacidade de mudar o curso da história internacional. O povo cubano é um povo heroico e nós o consideramos um povo fraternal. Se reconhecermos esta realidade, seremos capazes de criar as bases para construir verdadeiras relações internacionais. Concordo que as relações entre a Rússia e Cuba pertencem ao futuro e não ao presente ou ao passado. Tudo isso nos levará a vislumbrar quais serão os novos valores e interesses para começar a cooperar uns com os outros.

Cuba deve ser um país independente e não algum tipo de Estado cliente a serviço da Rússia ou dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, Cuba é um sujeito da geopolítica internacional e isto é demonstrado pelo fato de Cuba não ter deixado de ser um país socialista após a queda da URSS. Isto revela que o socialismo é uma decisão tomada pelo povo cubano e não uma imposição externa.

Portanto, gostaria de lhes sugerir as diretrizes que nos permitirão compreender o novo contexto no qual as relações internacionais russo-cubanas estão se desenvolvendo. Há dois campos atualmente em luta:

1) Primeiro, há os representantes da globalização liberal e capitalista. Entretanto, não estamos mais lidando com o capitalismo tradicional: estamos diante de um novo sistema capitalista tecno-genético e pós-moderno que se apropriou de alguns elementos da esquerda. Mas não é a esquerda proletária ou dos trabalhadores, mas uma esquerda progressista que defende uma agenda baseada na ideologia de gênero. É uma nova esquerda liberal que está a favor dos interesses do Grande Capital, daí seu apoio ao imperialismo e ao capitalismo. Isso explica porque todos são a favor de Biden, porque esta esquerda pós-moderna representa esta nova tendência mundial do liberalismo pós-moderno que quer unir alguns dos elementos da direita liberal com o liberalismo de esquerda: é uma espécie de centrismo ou síntese liberal.

Este novo sistema unifica em si mesmo tanto a direita quanto a esquerda: politicamente este liberalismo é de esquerda e economicamente é de direita. Esta unificação de ambas as tendências do liberalismo é pior do que tudo o que existia antes e podemos considerá-la como uma nova fase do imperialismo liberal hegemônico criticado por Lênin. Penso que temos que estudar melhor esta transformação da ideologia dominante. O liberalismo e o capitalismo também estão se desenvolvendo e mudando. Temos que entender este desenvolvimento e, portanto, é necessário estudar, do ponto de vista intelectual, esta mudança ou evolução do capitalismo. A história não fica parada, ela está sempre se desenvolvendo. Portanto, devemos usar nosso intelecto para entender estas mudanças.

2) O pólo alternativo a este sistema hegemônico (que se manifesta cada vez mais, mas que não podemos afirmar que seja necessariamente socialista) é um bloco contra-hegemônico formado por civilizações. Este bloco, de um ponto de vista geopolítico, é até mesmo representado pelos Grandes Espaços. Podemos dizer que cada um dos membros deste bloco tem ideologias muito diferentes, mas todas elas coincidem na luta contra o liberalismo. Estas civilizações são incapazes de adaptar suas identidades aos valores promovidos pelo liberalismo. Este bloco é formado pela civilização islâmica, a civilização chinesa (uma mistura entre nacional-comunismo e identidade confucionista) e a civilização ortodoxo-eurasiática russa (que não aceita esta globalização liberal ocidental). Podemos também dizer que a América Latina (embora não seja um território onde o socialismo triunfou) rejeita e protesta contra a hegemonia norte-americana e capitalista. Acredito que devemos encontrar uma forma de unir estas tendências, estas identidades, estes Grandes Espaços, culturas e civilizações, opostas à hegemonia unipolar, a fim de enfrentar os Estados Unidos e o globalismo. É por isso que sugiro aos presentes que estudem geopolítica, porque a geopolítica se tornou hoje um método para compreender as relações internacionais: é o instrumento que nos permite compreender a visão que a unipolaridade quer impor para combater a multipolaridade. A geopolítica nos ajuda a entender o que está acontecendo hoje e isso nos permite nos orientar e analisar as coisas de um ponto de vista mais amplo. Desta forma, podemos ocasionalmente deixar para trás a estreiteza do pensamento ideológico e adotar um modo de pensar mais pragmático. Tudo isso deve nos levar a repensar nosso lugar no mundo.

Se deixarmos de lado nosso passado ideológico e a inércia que criou a aproximação entre os dois povos, podemos dizer que muito poucas coisas unem hoje Cuba e Rússia. No entanto, há outros aspectos que podemos levar em conta. A Rússia não é mais um país socialista, mas Cuba ainda é socialista. Os novos princípios que unem a Rússia e Cuba devem ir além do passado histórico, dos sentimentos ou da política. É por isso que é essencial identificar os valores que nos unem hoje. Devemos levar em conta os interesses de nossos aliados, analisar os problemas e pensar sobre os valores que nos identificam. Desta forma, poderemos preparar o terreno para as futuras relações internacionais que surgirão entre a Rússia e Cuba. O papel que uma Cuba soberana, socialista e independente desempenhará a partir de agora determinará o futuro e a formação de uma futura civilização latino-americana. Acredito que é por isso que devemos dar um passo adiante e desenvolver novos instrumentos de análise geopolítica, ideológica e social. Somente desta forma poderemos enfrentar os desafios de hoje.

As acusações de Biden contra Putin devem ser analisadas no contexto atual em que vivemos. É uma declaração de guerra, mas desta vez a guerra não é mais ideológica (ou seja, uma luta entre capitalismo e socialismo), mas um conflito que confronta duas civilizações. São duas visões de mundo diferentes que estão agora no centro desta luta: por um lado, temos uma visão de mundo unipolar que se baseia na hegemonia americana e, por outro, temos um mundo multipolar, onde existem várias civilizações independentes e soberanas. Quando Biden ataca Putin, ele não declara guerra apenas contra a Rússia, mas contra todos aqueles que querem dar à luz este mundo multipolar e se libertar da hegemonia do globalismo. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, acredita que em nosso mundo muitas verdades e sistemas econômicos e políticos diferentes podem coexistir; ele acredita que neste mundo pode haver muitos povos com suas próprias identidades e valores. Todos estes sistemas podem estabelecer relações harmoniosas e amigáveis entre si. O fato de que estas diferenças existem não leva necessariamente a uma luta entre as diferentes civilizações.

Entretanto, os globalistas querem impor sua visão das coisas a todos nós. Eles querem nos impor sua civilização e seus valores para que, no final, todos nós sejamos submetidos ao Grande Capital e sua hegemonia única. Os liberais querem nos transformar em escravos, em clientes que seguem seus princípios econômicos. Eles querem transformar todos os países da América Latina em Porto Rico (um país completamente dependente da ideologia norte-americana) e não em uma Cuba independente, orgulhosa e livre. O sonho globalista americano seria um tipo de projeto que impõe a servidão universal. É necessário que todos nós lutemos juntos contra este projeto e é por isso que um projeto geopolítico concreto deve ser criado. As tensões atuais entre a Rússia e os Estados Unidos não podem ser explicadas por diferenças ideológicas, mas por diferenças geopolíticas fundamentais. A fim de desenvolver nossas relações com Cuba e, em geral, com a América Latina, devemos promover e propor uma perspectiva geopolítica. Este confronto entre o mundo unipolar, que a administração Biden quer nos impor, é na realidade um retorno ao momento unipolar (eles simplesmente o chamam de “novo normal”) e à hegemonia globalista. Biden ataca não apenas a Rússia, mas também a República Popular da China, o mundo islâmico, países africanos e também Cuba, Irã, Turquia, etc… Para os globalistas, todos aqueles que defendem sua liberdade contra os princípios do liberalismo são inimigos da Sociedade Aberta. Entretanto, a Sociedade Aberta que eles defendem é a forma atual de ditadura capitalista hegemônica. Nesse sentido, podemos dizer que ela não é nem “livre” nem “aberta” de forma alguma. Antes de tudo, esta ideologia quer cancelar ou censurar todos os críticos da hegemonia moderna.

É por isso que considero imperativo o diálogo entre professores, jornalistas, intelectuais, artistas, políticos, líderes da opinião pública, etc. Este diálogo permitirá que os representantes da grande civilização russa da Eurásia se encontrem com os representantes da grande civilização da América Latina. Cuba seria o ponto simbólico e estratégico mais importante de todos, pois esta ilha encarna a idéia de libertação, a dignidade dos povos da civilização da América Latina que lutam por sua descolonização e liberdade. Creio que este deve ser o contexto através do qual devemos desenvolver relações diplomáticas entre nossos povos e não os princípios meramente utilitários ou economicamente igualitários que possam ser estabelecidos entre nossos respectivos países. É antes de tudo um chamado para compreender outros aspectos: civilização, valores, identidade, soberania. A Rússia tem muitas razões para desenvolver estas relações, além de investir em projetos de infraestrutura ou turismo. As relações entre Cuba e a Rússia também não podem ser bilaterais: não podemos mais pensar que se trata de uma relação entre países soberanos, mas de uma relação entre duas civilizações diferentes. É por isso que é muito importante que estas relações também estejam abertas para a história, para o futuro.

Mas o que é história? A história é a luta contra os Mestres que querem escravizar o mundo, ou seja, a história é uma realidade conflitante. E em meio a este conflito devemos escolher bem nossos amigos, aliados ou irmãos. Cuba deve ser repensada e reavaliada pelos russos como um símbolo da luta e dignidade dos povos da América Latina e de todos os povos oprimidos. É também muito importante que Cuba permaneça ideologicamente socialista. Os cubanos devem manter sua identidade socialista e não repetir o exemplo da URSS. A Rússia perdeu os melhores aspectos da ideologia da sociedade socialista e deixou que os piores aspectos do capitalismo liberal entrassem em sua sociedade. Pagamos um preço enorme por cometer este erro: quase deixamos de existir porque perdemos nossa identidade socialista. É por isso que não devemos repetir estes erros. Os camaradas chineses conseguiram aprender com nossos erros. É importante preservar as diretrizes gerais da política socialista de Cuba. Mas o socialismo deve ser transformado e desenvolvido. O socialismo é um sistema aberto: é como a vida, está sempre em movimento. O socialismo de hoje deve ser diferente do socialismo do passado.

Agora, existe um grande perigo para Cuba e esse perigo consiste em compreender o socialismo a partir de uma perspectiva liberal. É um perigo difícil de compreender, porque normalmente se pensa que o liberalismo de esquerda não é um inimigo aberto ou perigoso do socialismo, mas isso é um erro grave. Diante deste perigo é necessário defender a essência do socialismo e o socialismo é antes de tudo uma ontologia da sociedade: é independência, é dignidade dos povos, é identidade, é soberania, é democracia participativa (que é verdadeira democracia e não democracia representativa burguesa). As ideias socialistas não devem ser adaptadas ao liberalismo. O socialismo deve antes de tudo representar os interesses ideológicos do povo que luta por sua liberdade e identidade.

Acredito que compartilhamos com nossos amigos e camaradas estes princípios, pelo menos foi o que vi em várias reuniões e mesas redondas que já tivemos em outras ocasiões. Portanto, pouco a pouco estamos dando forma a esta nova forma de luta e a uma nova estrutura de relações internacionais: é uma aliança entre a grande civilização eurasiática representada pela Rússia e a grande civilização da América Latina, que é representada por todos os povos da América do Sul e Central. Como nos disse um camarada colombiano, há dois pontos muito importantes para a colonização e descolonização do continente: Cuba e Porto Rico. Cuba é a ilha de onde começou a colonização e a libertação do continente sul-americano, o que é muito simbólico. Creio que Cuba não deve ser subestimada e considerada como um lugar insignificante, sujeita ao bloqueio e à pressão dos Estados Unidos (aquela potência liberal agressiva e globalista). Cuba é antes de tudo aquela porta que abre ou fecha e que determina o futuro da América Latina: um espaço onde o futuro de todo o continente converge. A Rússia tem todos os motivos para descobrir mais uma vez a importância e a dignidade deste grande e pequeno país, que será sempre uma parte importante de nossos corações.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas <em>Quarta Teoria Política</em> e <em>Teoria do Mundo Multipolar</em>, é<em> </em>um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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