Por que o governo dos EUA está agora contra o Facebook?

O Facebook, como outras gigantes da Big Tech, tem sido um aliado leal do governo dos EUA em sua campanha de censura ao dissenso, algo que se tornou ainda mais óbvio durante a controversa eleição de Biden ano passado. Mas será que essa amizade será duradoura, ou está prestes a desmoronar? Agora que os interesses do governo ianque começaram a se chocar com os interesses da firma de Zuckerberg, chegamos a um curioso ponto de impasse em que a revolução colorida se volta contra seus próprios aliados.

por Andrew Korybko

O Facebook tem sido há muito tempo um aliado leal da campanha de censura do governo dos EUA, especialmente desde a eleição de Donald Trump em 2016 e a controversa eleição do ano passado que terminou com Biden assumindo a presidência. Por isso muitos na Alt-Media Community (AMC) foram pegos de surpresa agora que um assim chamado “delator” está testemunhando perante o Congresso em apoio a práticas de censura ainda mais rigorosas na plataforma. O que realmente está acontecendo agora é que a assim chamada “revolução” do ano passado está, proverbialmente, “devorando os seus”.

Explicaremos. A guerra híbrida do terror na América já estava sendo fabricada há anos, só começando a operar efetivamente no último verão, com o movimento Antifa e “Black Lives Matter” agindo como a vanguarda desse movimento “revolucionário” semi-secreto. Forças ideológicas liberal-progressistas finalmente tomaram o poder através de uma mudança de regime, que usou como arma uma mistura criativa de progressismo e totalitarismo. Eu previ um pouco depois da eleição do ano passado terminar que a América de Biden seria um inferno distópico; depois, no início da primavera eu expus seus planos de criar uma “Cyber Stasi”.

A “revolução” agora atingiu a fase em que ela está se voltando contra seus antigos aliados, como o Facebook, que estão sendo relutantes em levar a cabo completamente a perspectiva dos líderes do movimento. A plataforma da Big Tech ainda é uma empresa privada cuja renda vem principalmente de anúncios, então ela tem um certo interesse próprio em não censurar tudo, arriscando perder mais ainda sua audiência e o lucro que vem de seu tempo gasto usando o site. É por isso que o Facebook ainda não baniu completamente toda forma de criticismo à revolução colorida interna dos EUA, para tentar ainda manter esses dissidentes por perto. Isso é, no entanto, bem ameaçador aos olhos dos mentores da “revolução”.

De acordo com o assim chamado “delator” que, curiosamente, é representado pela firma de relações públicas de Jen Psaki e pela equipe legal de Eric Ciaramella, o Facebook não só lucra instigando sentimentos auto-destrutivos em mulheres jovens, como também constitui uma ameaça à segurança nacional por ter falhado em parar os eventos do dia 6 de janeiro. Já existe um sentimento prevalecente de ceticismo entre conservadores de que essa pessoa é só um fantoche “revolucionário” cujo único objetivo é defender que o estado norte-americano tome controle do Facebook e force censuras mais rígidas na rede social. É por isso que os “revolucionários” temem as consequências que podem surgir por conta dos dissidentes poderem se conectar através do Facebook.

Afinal, essa rede social permite diálogo extenso entre seus membros, incluindo ainda grupos fechados, enquanto seu concorrente, o Twitter, só permite que seus usuários se expressem através de posts de no máximo 160 caracteres. O Facebook pode, portanto, ser uma ferramenta útil para organizar resistência pacífica à “revolução”, enquanto o único uso operativo real do Twitter nesse contexto é encorajar os assim chamados “flash mobs” (tumultos) da “revolução”. Ambos podem soltar desinformação e serem aproveitados pelos interesses da “revolução”, mas apenas o Facebook pode realmente ajudar a “resistência” a se organizar de forma significativa, enquanto o Twitter poderia no máximo ser usado para compartilhar notícias e críticas curtas.

É por isso que o Facebook está sob pressão, e não o Twitter. Ambas as empresas da Big Tech estão aliadas aos “revolucionários”, assim como a Amazon, mas apenas o Facebook está com a corda no pescoço por ser o único que poderia potencialmente representar um risco latente a eles. O Twitter, como explicado, está mais para uma ferramenta da esquerda liberal-progressista que no máximo permite que a “resistência” compartilhe notícias e faça comentários engraçadinhos, enquanto a Amazon não serve facilita a interação entre seus usuários de forma significativa. Muito pelo contrário, essa plataforma reforça estruturalmente o “sistema revolucionário” emergente, por meio do qual, corporações administradas por oligarcas financeiros tomam controle sobre porções cada vez maiores da economia com a ajuda dos “revolucionários”.

Se o Facebook tivesse censurado completamente seus usuários de forma a proibir qualquer dissenso à revolução colorida em sua plataforma, então seu comportamento objetivamente problemático de difundir conteúdo psicologicamente manipulativo entre jovens e de se tornar cada vez mais um monopólio através de sua compra do Instagram e do Whatshapp teria sido ignorado pelos “revolucionários”. Isso, no entanto, seria em algum momento endereçado e traria problemas para eles, algo que a liderança da empresa gostaria de evitar. O Facebook, então, de forma preventiva, se aliou aos “revolucionários”, achando que isso os protegeria, mas o movimento quis mais e agora isso os jogou contra eles.

A intenção, como Glenn Greenwald nota com astúcia, é “requisitar o seu poder de censurar”. A “revolução” quer que o Facebook funcione como seu “Ministério da Verdade”, não apenas por conta do poder que isso lhes conferiria para fortalecer sua posição doméstica, mas também a nível internacional. É por isso que o assim chamado “delator” também testificou que o Facebook promove os supostos genocídios na Etiópia e na Birmânia, além de ser explorado pelos serviços de inteligência chineses e iranianos. Os “revolucionários” anseiam por usar o Facebook para auxiliar mudanças de regime e espalhar mais desinformação contra seus rivais, através de censuras seletivas.

Com um vasto monopólio tecnológico no mundo inteiro por conta de seu controle de três plataformas de destaque global, o Facebook é a arma perfeita de Guerra Híbrida para a “revolução”. O Facebook poderia ter se rendido e abrido mão de seus interesses econômicos para seus “aliados” “revolucionários” (leia: senhores) em troca de se salvar, mas em vez disso decidiu reter pelo menos um semblante de soberania diante da pressão deles. A “revolução” tem tolerância zero a qualquer forma de dissenso, independente de se esse dissenso vem de um “inimigo do estado” / “terrorista doméstico” (dissidente) ou de um “aliado” como o Facebook, e é por isso que os punhais estão apontados na direção da empresa.

Talvez a “resistência” em breve não tenha outra escolha além de completamente migrar para outras plataformas como o Gab e o VK. E aqueles que estão no exterior, seja pessoas comuns ou governos estrangeiros que podem estar preocupados (corretamente) com os EUA potencialmente tomando controle de jure ou de facto sobre o Facebook, terão que seriamente considerar abandonar o site também. Os estados que forem capazes disso poderiam lançar suas próprias alternativas ao Facebook. No entanto, se os seus cidadãos ainda estiverem relutantes a mudar de plataforma, então esses estados podem ter que forçá-los a fazer a mudança – seja banindo o site, ou encontrando outras formas de pressionar as pessoas a fazer o que eles consideram necessário com vista aos interesses de segurança nacional.

A tendência geral é que a assim chamada “liberdade de expressão” provavelmente vai se tornar algo do passado, não apenas no Facebook, mas também em quaisquer alternativas estatais que possam vir a ser eventualmente lançadas. Algumas plataformas privadas como Gab e VK podem ainda tolerar esse conceito até certo ponto, mas até mesmo eles podem ser eventualmente pressionados de uma forma ou de outra pelo governo dos EUA a ceder, independente do quão difícil possa ser para os “revolucionários” fazerem isso na prática, dependendo do alvo. Isso tudo nos leva a crer que as circunstâncias não são muito promissoras para pensadores livres genuínos e aqueles que ainda valorizam o conceito de liberdade de expressão.

Fonte: Oriental Review

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro <em>"Guerras Híbridas"</em>.

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