Correntes identitárias na América Latina

O secretário-geral do instituto Suvorov de Vienna, Alexander Markovics, apresenta as propostas de dois atuais governos da América Latina (Peru e El Salvador) de como estão construindo uma identidade cultural com o esforço de superar seus conflitos ideológicos e econômicos. Numa releitura geopolítica e econômica de como se pode haver esse enfrentamento do sistema neoliberal.

Por Alexander Markovics

Quando o erudito alemão Alexander von Humboldt começou suas extensivas viagens pela América Latina em 1799, ninguém tinha ideia do quanto isso contribuiria mais tarde ao entusiasmo europeu pela cultura da América do Sul e Central – surpreendentemente, não pelos seus recursos naturais.

Por volta dos séculos XVIII e XIX, era comum a crença de que as Américas estagnaram culturalmente quando comparadas com a África, Ásia e a Europa. A expedição de Humboldt, de alguma maneira, acabou com essa concepção errônea e não apenas descobriu a natureza fascinante da América Latina especificamente, mas também promoveu e publicou as culturas de populações minoritárias para uma larga audiência. Para o começo do século XIX em diante, ambos os indígenas americanos e os habitantes Europeus do Novo Mundo começaram a desenvolver autoconsciência, respectivamente. O famoso libertador das américas, Simon Bolivar, até chamou Alexander von Humboldt de verdadeiro “Descobridor do Mundo Novo”.

Hoje em dia, a América Latina pode ser soberana politicamente num nível estatal, todavia, desde que os Estados Unidos da América começaram a visualizar a América do Sul como um sertão a ser explorado desde a formulação da Doutrina Monroe, a América do Sul tem estado num constante estado de agitação, após inúmeras intervenções, operações secretas, mudanças de regimes e sanções econômicas financiadas pelos Estados Unidos. Como eventos recentes na Bolívia e Venezuela nos mostraram, a América Latina continua em seu esforço pela sua soberania. Nós podemos ver dois novos exemplos nessa luta por autodeterminação em El Salvador e Peru também. Por mais de 20 anos, El Salvador, com seus 6 milhões de habitantes, não possui moeda nacional própria. Ao invés disso, o país está preso ao dólar americano desde 2001, estando então sob custódia do sistema monetário da dolarização, que apenas pode ser mantida sob as sete frotas da marinha americana e bases militares ao redor do mundo e guerras inacabáveis.

Porém, o presidente Nayib Bukele – ele próprio sendo um populista unindo as políticas da esquerda e da direita – deseja acabar com a dependência de seu país com um movimento espetacular. El Salvador foi o primeiro país a introduzir Bitcoin como sua moeda oficial de estado, ao lado do dólar americano. O Banco Mundial imediatamente anunciou que não apoiaria essa decisão de um pequeno estado, primeiro pela natureza volátil do Bitcoin e alto consumo de energia que vem junto da grande utilização da moeda criptografada. Entretanto, Bukele não adota essa medida para deixar seu país emergir no caos. Preferindo então buscar ajuda ao seu povo empobrecido, no qual mais de 70% não tem acesso a uma conta bancária. Além disso, mais de 2 milhões de cidadãos vivem no exterior e seus pagamentos de transferência fazem 20% da receita do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Então o Bitcoin poderia ajudar drasticamente a reduzir as tarifas de transição – muito ao desgosto dos Estados Unidos.

O presidente Bukele, em última análise, quer utilizar da energia térmica de vulcão (há diversos vulcões ativos em El Salvador) para poder minerar Bitcoin e satisfazer o apetite das criptomoedas por energia. O que soa fantasioso no começo, faz sentido em segunda instância. Ele também conseguiu reduzir a taxa de homicídio num país instável em 50%, o que é extraordinário, considerando a reputação de El Salvador como um dos países mais perigosos do mundo com suas taxas de homicídio. Nós podemos esperar de Bukele medidas socioeconômicas e políticas que servirão para seu povo lutar contra a pobreza com muito sucesso no futuro.

Peru quer proteger a educação da Nação e estrutura familiar

Onde El Salvador tem lutado pela sua soberania nacional, peruanos, por outro lado, tem tomado outros passos, por mais que diferentes à frente de sua independência política. Lá, o católico devoto e socialista Pedro Castillo venceu as eleições de maneira surpreendente contra a direita de Keiko Fujimori. Castillo venceu com uma margem de 44.000 votos. Seu chamado à luta era, “Sem mais pessoas pobres em um país rico”. Mas ele não venceu somente com as massas pela sua luta contra a corrupção, em contraste com a esquerda nos Estados Unidos e Europa; o professor de uma pequena cidade do Peru se mantém contra todo tipo de ideologia de gênero e LGBT. Aborto, eutanásia e casamento igualitário de gênero também foram renunciados.

As duas instituições que Castillo deseja apoiar mais no futuro são a família e a educação – a demanda de um professor comprometido e agora cabeça de um país grande, representa um ataque. Outro ponto importante da agenda de Castillo é a soberania do Peru como um todo. Chamando pela proteção dos recursos naturais pertencentes às cordilheiras dos Andes. Castillo também apoia a mudança a favor do povo, que a situação atual foi causada diretamente e indiretamente pelas companhias ocidentais e o próspero sistema neoliberal desde a descoberta dos depósitos ricos de urânio e lítio por todo o Peru.

Como a atual receita mencionada acima de extração de recursos estão circulando mais de 70% nos bolsos de companhias internacionais, apenas 30% chegam aos peruanos. O presidente deseja modificar essa relação renegociando os acordos internacionais. Finalmente, ele também defende o fim da presença militar dos Estados Unidos da América em seu país, ao invés dessa presença apoiando uma forte cooperação entre os países da América Latina. O objetivo atual de Castillo é criar uma nova constituição, que ele deseja que seja criada por intermédio de um plebiscito popular. Pelas políticas propostas por ele, o neoliberalismo deve ser extinguido, desde que o líder peruano entenda que seu país é alvo das corporações internacionais. Por isso será fascinante ver se Castillo terá sucesso com suas ambições.

Fonte: Europa Terra Nostra

Alexander Markovics

Bacharel em História pela Universidade de Viena, Secretário-Geral do Instituto Suvorov, cofundador do Movimento Identitário Austríaco.

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