A filosofia do mito em Tolkien: A fantasia e o mundo real

Uma discussão antiga diz respeito ao uso da ficção para interpretar a “realidade”; se a linguagem da ficção seria apenas uma fuga da realidade, projeções psíquicas e imaginativas, ou se no seu âmago encontraríamos uma chave poderosa de conexão com o mundo e com o real para além do empírico. A fantasia nos revela sob a luz da totalidade do real natural e sobrenatural entre os quais nos encontramos.

por Joseph Pierce

Terá a literatura fantástica alguma relevância para o mundo real? Tal questionamento é tão válido quanto sua resposta, mas ele só pode ser abordado sob uma clara compreensão do que constitui a fantasia e a realidade. Se sucumbirmos à presunção reducionista de que a fantasia é a ausência de realismo ou realidade, responderemos de forma dogmaticamente negativa antes de qualquer consideração. Por outro lado, se nos deixarmos levar à presunção igualmente reducionista de que a realidade é qualquer coisa que o indivíduo perceba como tal, diremos que o real e o fantasioso estão no olhar de quem vê; tornando a questão irrelevante. Se a fantasia de um homem é, no fim de tudo, a realidade do outro, que direito temos de distingui-las? Quem somos nós para julgar?

A percepção reducionista demanda fatos empírico-literários e nada além destes, tornando a percepção da realidade através da significação alegórica impossível. Se podemos demonstrar a inexistência de dragões no reino da realidade física, para além da sua figuração artísticas, eles não são reais; eles não tem nada a nos ensinar. A outra percepção reducionista pode ver dragões como projeções psíquicas de uma angústia subjetiva, a natureza voraz de nossos próprios vícios, mas isso possui aplicações pessoais e nenhuma aplicabilidade universal. São “meus” dragões, não seus, e só simbolizam minhas “verdades”, não as suas.

Nenhuma destas percepções da questão original estava na mente de J. R. R. Tolkien quando ele ministrou sua famosa palestra sobre contos de fadas. Para Tolkien, um filólogo e professor de linguística em Oxford, essas percepções são um mal-entendido sobre o próprio entendimento: “A mente encarnada, a língua e o narrar são o contemporâneo do nosso mundo. A mente humana, dotada com o poder da generalização e da abstração, não vê apenas a grama verde, discriminando-a das outras coisas (e achando-a bela), mas vê que é verde, assim como vê grama.” A invenção do adjetivo, presumidamente no próprio berço da linguagem, estava inextricavelmente conectada com o alvorecer das histórias. Para Tolkien, “nenhum feitiço ou encantamento das fadas é mais poderoso” que o poder do adjetivo quando este ilumina e dá vida à percepção humana da realidade. O adjetivo inicia uma “gramática mítica”.

A mente que contemplou a luz, o pesado, o cinza, amarelo, o parado, o ligeiro, também concebeu uma magia que torna-se o pesado leve e capaz de voar, o chumbo cinzento em ouro amarelado, e a rocha imóvel em água corrente. Se pudesse fazer um, podia fazer o outro; ela inevitavelmente fazia os dois. Quando pegamos o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos a força de um encantamento […] e o desejo de possuir esse poder no mundo exterior à nossa mente desperta.

Esse poder pode colocar “um esverdeado mortal sobre a face de um homem e produzir horror” ou pode “encantar uma floresta de folhas prateadas e carneiros com pelo áureo.” Ele pode “colocar fogo ardente nas entranhas de um verme gélido”. É, portanto, no vero alvorecer da língua, e na própria aurora humana, que se inicia a mythopoeia (a construção dos mitos): “Mas em tal ‘fantasia’, como é chamada, surgem novas formas; A fada surge; O homem torna-se um subcriador.”

Ainda sim, pode este entendimento radical da “fantasia” ou construção de mitos responde nossa questão inicial? Terá essa literatura fantástica alguma relevância para o mundo real? Não poderíamos bancar o advogado do diabo e dizer, assim como C. S. Lewis disse antes de aprender, que “mitos são mentiras e destarte inúteis, ainda que soprados como prata”? Não será a fantasia meramente o ato de dourar a mentira, apresentando-a com uma bela máscara para seduzir os ingênuos? Afinal, não será a mentira uma linguagem primeva em si? Assim que o homem adquiriu o poder de contar histórias, ele também adquiriu o poder de contar histórias falsas, manipulando a realidade para empunhar a mentira.

De fato! Todo poder para o qual há uso, há abuso. Isso é tão verdade para um fato, quanto para a fantasia. Não haverá mentira, maldições e estatísticas?

O fato é que a ficção pode ser tão real quanto o fato. Ademais, ela pode ser mais hábil em revelar a realidade. O filho pródigo é ficcional. Assim é seu pai, assim como seu irmão e os porcos. Mas a história é tão real que não comparamos o filho pródigo a nós, mas nos comparamos a ele. O ficcional, o figmento da imaginação Crística é mais real que nós, ainda que menos factual. É o arquétipo do qual somos meramente tipos.

Talvez a maior defesa da mythopoeia seja que Cristo a tenha santificado em suas próprias parábolas. O trabalho da ficção imaginativa é um poderoso portador da realidade. Tolkien nos revela que os contos de fada tem o poder de revelar o natural, o sobrenatural e espelhar o próprio homem. A fantasia nos revela sob a luz da totalidade natural e sobrenatural na qual nos encontramos. Se a fantasia possui relevância no mundo real? Pode apostar que sim! O que Cristo uniu nenhum homem pode separar.

Fonte: The Imaginative Conservative
Tradução: Augusto Fleck

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