Instagram, ou como ser feliz de uma maneira tóxica

Felicidade permanente? No presente texto, Kalev Leetaru adverte sobre o perigo de viver em prol de uma vida virtual. Ele analisa como as redes sociais, em especial o Instagram, têm afetado a saúde física e mental das pessoas.

Por Juan Diego Godoy

Imagine um lugar em que qualquer sentimento que não seja a felicidade esteja proibido. De início, talvez pudesse-se pensar que esse lugar utópico seria muito bom. Mas diversos estudos e especialistas chegaram à conclusão contrária. A imposição do pensamento positivo como única solução aos problemas banindo as emoções negativas se conhece como “positividade tóxica” e, segundo um artigo acadêmico publicado em maior de 2021 pela National Education Association (NEA) dos Estados Unidos, pode fazer com que certas emoções negativas se tornem mais poderosas. Por quê? Porque quando uma pessoa não pode sentir-se otimista e se sente obrigada a isso, tende a sentir que está falhando.

Frente ao pensamento positivo, que se centra nos benefícios de ter uma perspectiva otimista ante os problemas, esta atitude tóxica exige a positividade das pessoas, independente dos desafios enfrentados, o que potencialmente silencia suas emoções e as dissuade a buscar apoio social. As redes sociais, com perfis que projetam vidas perfeitas, contribuem com essa atitude, fazendo com que o resto dos usuários tenham que estar felizes e manter uma vida equilibrada e exitosa o tempo todo. O Instagram, especialmente, onde se convergem os corpos e rostos “perfeitos”, a roupa da moda e os produtos em tendência, as melhores paisagens e as férias que todos pensam e querem, se converteu em caldo de cultivo ideal para a dita “intoxicação”.

O empresário e acadêmico de internet Kalev Leetaru já advertia, em um artigo publicado em 2019 na Forbes, que “um crescente corpo de investigação e argumentação sugere que estar saturado com imagens tão perfeitas onde, em cada cena, se representa a vida em seu melhor momento pode fazer com que as pessoas sejam menos felizes quando comparam suas imagens encenadas com sua própria vida”. Leetaru assinalava que é irônico que em um mundo digital “cheio de ódio e horrores”, o Instagram seja criticado com frequência “por ser demasiadamente positivo, feliz e edificante”. E os estudos demonstram que ele não estava totalmente equivocado.

Segundo a Associação Estadunidense de Psiquiatria, é menos provável que as pessoas se sintam pressionadas a sorrir ante a adversidade busquem apoio médico e psiquiátrico quando se trata de sua saúde mental, pois “podem sentir-se ilhados ou envergonhados de seus sentimentos, o que os dissuade de buscar ajuda”. E acrescentando, de acordo com um estudo da University of East London publicado no International Journal of Wellbeing, um viés positivo poderia fazer com que as pessoas experimentem abuso “subestimando a gravidade e permanecendo em suas relações”. “O otimismo, a esperança e o perdão aumentam o risco de que as pessoas fiquem com seus abusadores e sejam objeto de um abuso cada vez maior”, sublinha o estudo.

Instagram, como chegamos até aqui?

“Vemos uma positividade tóxica nas redes sociais quando as pessoas que compartilham conteúdos sobre os desafios da vida obtém como única resposta comentários demasiadamente positivos que ignoram que essa pessoa pode sentir-se cansada, aborrecida ou preocupada”, explica um artigo da ABC Everyday Brock Bastian, investigador da Faculdade de Ciências Psicológicas da Universidade de Melbourne e que centrou seus trabalhos no impacto que a busca pela felicidade pode causar em nosso bem-estar. “Mas de outras formas, a experiência da positividade tóxica poderia não ser uma publicação, um comentário ou uma série de comentários específicos, mas sim um sentimento que se apodera do usuário pouco a pouco à medida que se consome mais conteúdos de pessoas que só compartilham os melhores e mais emocionantes momentos da sua vida”, sublinha Bastian.

Naturalmente, os usuários que compartilham bons conteúdos exibem apenas um recorte de sua realidade e, involuntariamente, transmitem a seus seguidores essa pressão de que tudo sempre precisa ser especial e brilhante. Não há lugar no feed para as caras tristes, os fracassos e a ansiedade. Mas os sentimentos negativos não desaparecem pelo fato de não querer mostrá-los. Segundo a psicóloga alemã Doris Röschmann, consultada pela agência DPA, “as consequências de ocultar e enterrar os sentimentos negativos podem ser insônia e depressão” e também que “não ser honesto consigo mesmo, a longo prazo, pode afetar o sistema imunológico”.

“Um crescente corpo de investigação sugere que esta ênfase na perfeição inalcançável na realidade tem um efeito danoso em nossa saúde mental. Que, em vez de ser inspirado por um fluxo interminável de imagens felizes, começamos a comparar nossas próprias vidas reais com os momentos falsos dos demais. Que, em vez de nos sentirmos fortalecidos pelas conquistas e sorte de alguns poucos sortudos, nos sentimos deprimidos por nosso próprio estado “, diz Leetaru na Forbes.

Mas o que se pode fazer? É necessária essa nocividade nas redes para poder participar plenamente do mundo digital? O Instagram e sua felicidade eterna é uma condenação para o sofrimento de seus usuários?

Equilíbrio e consciência

“Nem todo mundo quer compartilhar suas lutas nas redes sociais, e tudo bem. Mas é bom lembrar quando você o está usando”, explica Bastian ao ABC Everyday. “Positividade saudável é abrir espaço para emoções negativas e se sentir à vontade com elas, pois a melhor forma de ser feliz é contar com essas experiências incômodas, pois se as evitamos, elas pioram”, enfatiza a especialista.

Existem maneiras de evitar positividade tóxica. Algumas estratégias recomendadas pela psicóloga clínica especialista Jacquelyn Johnson em Medical News Today incluem práticas como identificar e nomear emoções em vez de tentar evitá-las, falar com pessoas de confiança sobre elas – incluindo sentimentos negativos – e reconhecer emoções. Emoções negativas como algo normal e importante na experiência humana e buscar apoio de um terapeuta.

O Instagram, por sua vez, parece já ter tomado algumas medidas em relação ao assunto. Acima de tudo, pelos ‘likes’. A rede social tornou pública a ferramenta que permite retirar o contador de reações com o intuito de melhorar a saúde mental de seus usuários. Vários estudos, como o estudo Social Media Use and Its Impact on Relationships and Emotions publicado pela Brigham Young University ou Online Social Networking and Addiction publicado pelo International Journal of Environmental Research and Public Health, tentaram mostrar que as pessoas, em particular as mais jovens gerações que usam esses aplicativos estão experimentando efeitos negativos para a saúde mental que estão enraizados no ‘ecossistema tóxico’ das redes.

Será que uma rede cheia de “felicidade” só pode ter sucesso e nos fazer felizes? Para Leetraru, a experiência do Instagram sugere que mesmo uma plataforma que incentiva conteúdos como o “feliz primeiramente” só nos fará buscar a tristeza que sentimos. “Em suma, primeiro pelas lentes cor-de-rosa dos lugares felizes, vemos apenas breves momentos de felicidade encenada, e não a realidade das experiências de vida totais que cercam esses momentos, comparando toda a nossa vida a esses breves momentos”, detalha o especialista.

Talvez tudo se reúna numa realidade que todos vivemos, mas que costumamos disfarçar: nem tudo é sempre ótimo. O que é exibido nas redes sociais é apenas uma parte – nem sempre verdade – da realidade.

Fonte: Morning Express

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