Duna: O Domínio sobre o Medo

Duna, clássico da literatura de ficção científica, já adaptado por grandes diretores como David Lynch, para não falar na saga épica da tentativa de adaptação por Jodorowsky, ganhou recentemente uma nova adaptação por Denis Villeneuve. Longe de ser mero entretenimento pueril, a saga de Paul Atreides comporta um conteúdo iniciático guerreiro interessante para a juventude contemporânea.

Duna é um filme de ficção científica dirigido em sua última versão por Denis Villeneuve. O filme, agora nos cinemas, é na verdade a primeira parte da adaptação cinematográfica do romance homônimo escrito por Frank Herbert, já transposto por David Lynch com o filme de 1984 (mas a tentativa fracassada de Alejandro Jodorowsky nos anos 70 também deve ser considerada). Os críticos de cinema vão se deter na comparação entre as duas produções – bem sucedidas, em nossa opinião, se compreendidas no contexto da realização imponente do cinema contemporâneo filtrado por uma poética pessoal que inclui elegância (inspirada no traço gráfico estético de Moebius) e um certo grau de lirismo visual – mas o que nos interessa aqui é algo mais. Para interpretar a relação entre significante e significado, a união da forma e substância, é necessário submeter-se ao valor simbólico do conteúdo, evitando as muitas nuances possíveis e as ricas digressões que têm, apesar de si mesmas, a dispersiva implícita da vacuidade.

Cinematograficamente, é possível limitar-se a dizer que o filme triunfaria com uma autorrealização – uma homogeneidade prevista, aliás, na versão literária – em oposição às necessidades comerciais dominantes.

Duna é, portanto, principalmente uma narrativa mitopética sobre a formação iniciática de um jovem posicionado entre a consciência e a vontade, Paul Atreides, filho do Duque Leto o Justo e sua mãe, a concubina Jessica, que das exuberantes águas do planeta Caladan – onde persiste uma civilização tradicional que ecoa o Meio Invariável – se tornará o predestinado esperado pelo subjugado povo fremen, levando-o contra a família adversa do explorador Harkonnen. família dos exploradores Harkonnen. Os Atreides são a dignidade, o orgulho, o heroísmo de um mundo fiel ao princípio que concilia ser e devir, compreende a autoridade somente quando exercida sobre si mesmo. É uma base ontológica que entra em conflito no jogo cósmico com seu oposto complementar, a Casa de Harkonnen, uma expressão de utilitarismo, brutalidade, traição e abuso dos outros, levado ao ponto de genocídio dos povos e da natureza violada. O katechon não pode deixar de participar intimamente do princípio que pretende refrear, atrasar, se não parar. É impossível não manter dentro de si aquilo que se deseja conter. A manifestação consiste precisamente na possibilidade de sua aparente negação, sem a qual tudo permaneceria indiferenciado.

O pilar de toda a construção narrativa é, portanto, o caminho de Muad’Dib – Paul Atreides – cuja condição existencial consiste em superar os testes iniciáticos para ser reconhecido como digno de seu próprio destino. Por agnição, uma vez que ele tenha alcançado a consciência de que não pode controlar o amanhã, permanecendo assim refém do passado, a pessoa libertada vive o presente até o limite de suas possibilidades. Aprendendo a dominar seus próprios medos, antes de tudo. Citando Frank Herbert diretamente em uma das passagens mais famosas do romance e dos filmes baseados nele:

“Eu não devo ter medo. O medo mata a mente. O medo é a pequena morte que traz consigo a aniquilação total. Olharei meu medo de frente. Permitirei que ela me espezinhe e me atravesse. E quando tiver passado, eu abrirei meu olho interior e perscrutarei seu caminho. Para onde for o medo, não haverá nada mais. Somente eu estarei lá.”

O choque parece desigual, mas mesmo diante do deserto sem limites ao qual o planeta Arrakis está reduzido, desprovido de água e no qual nada parece ser capaz de crescer, a dignidade de ser homem não aceita a rendição na terra desolada do niilismo.

Uma lágrima de cada vez, uma gota de cada vez, toda umidade possível deve ser coletada para criar um futuro sem nostalgia. Quem tem a força desta semeadura não verá o fruto concreto de seu compromisso, mas é um futuro pelo qual faz sentido lutar, pois é o ideal, eternamente presente, que conta mais do que a realização do objetivo.

A tarefa da imaginação é a redenção da realidade.

Eduardo Zarelli

Professor de História e de Filosofia, ensaísta, editor, membro do GRECE-Italia.

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