A Doutrina Rumsfeld/Cebrowski

por Thierry Meyssan

Por duas décadas, o Pentágono tentou aplicar a “doutrina Rumsfeld/Cebrowski” ao “Grande Oriente Médio”. Por diversas vezes, considerou extendê-la à “Bacia Caribenha”, mas resistiu à tentação, concentrando seu poder sobre o primeiro alvo. O Pentágono age como um centro autônomo de decisões efetivamente externo ao poder presidencial. Trata-se de uma administração civil-militar que impõe seus objetivos sobre o resto dos militares.

Em meu livro L’Effroyable Imposture [1] [2], escrevi que os ataques do 11 de Setembro almejavam a aceitação dos EUA a:
• internamente, um sistema de vigilância em massa (O Ato Patriótico);
• externamente, o retorno das políticas imperialistas, sobre as quais não havia documentação disponível, na época.

As coisas só ficaram claras em 2005, quando o Coronel Ralph Peters – comentarista da Fox News, na época – publicou o famoso mapa do Estado-Maior Conjunto de “remodelação” do “Grande Oriente Médio” [3]. As chancelarias entraram em choque: o Pentágono planejava redesenhar as fronteiras da colonização franco-britânica (Acordo Sykes-Picot de 1916) sem qualquer respeito por nações, inclusive aliadas.

Dali em diante, cada Nação na região fez tudo que pôde para evitar que a tempestade caísse sobre seu povo. Em vez de unir vizinhos em face do inimigo comum, cada um tentou jogar o Pentágono para cima do outro. O caso mais emblemático é o da Turquia, que por vezes mudou de posicionamento, passando a confusa imagem de um cão raivoso.

No entanto, o mapa revelado pelo Coronel Peters – que odiava o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld – não possibilitava um entendimento geral do projeto. Antes, na época dos atentados de 11 de Setembro, ele publicara um artigo na revista Parameters, do Exército [4]. Ele aludia ao mapa que seria publicado quatro anos mais tarde, e sugeria que o Estado-Maior se preparava para levá-lo adiante com crimes atrozes subcontratados para não ter as mãos sujas. Talvez isso soe como referência a mercenários, mas a história mostra que eles tampouco poderiam se engajar em crimes contra a humanidade.

A palavra final sobre o projeto estava com o “Escritório de Transformação pela Força” criado por Donald Rumsfeld no Pentágono nos dias seguintes ao atentado de 11 de Setembro. O escritório era ocupado pelo Almirante Arthur Cebrowski. Este famoso estrategista era o designer da computadorização das forças armadas [5]. Poderiam dizer que esse Escritório era um meio para finalizar seu trabalho, mas ninguém mais argumentava sobre essa reorganização. Não, ele estava lá para transformar a missão das forças armadas, como atestam as poucas gravações de suas palestras em academias militares.

Arthur Cebrowski passou três anos palestrando a oficiais superiores dos EUA, portanto, a todos os oficiais gerais atuais.

Seus ensinamentos eram bastante simples. A economia global estava se globalizando. Para manter a hegemonia, os EUA precisavam se adaptar ao capitalismo financeiro. A melhor forma de alcançar isto era garantir que países desenvolvidos pudessem explorar os recursos naturais dos pobres sem obstáculos políticos. Disso, dividia-se o mundo em dois: em um lado, economias globalizadas (incluindo Rússia e China) destinadas a tornarem-se mercados estáveis, e no outro lado, todos os países que deveriam ser privados de estruturas estatais e largados ao caos exploratório das transnacionais livres de resistência. Para atingir isso, os povos globalizados deveriam ser divididos por linhas étnicas e controlados ideologicamente.

A primeira região a ser afetada foi a dos árabes, entre o Marrocos e o Paquistão, com a exceção de Israel e dois microestados vizinhos encarregados de evitar que o incêndio se alastrasse, Jordânia e Líbano. É isto que o Departamento de Estado chamava “Grande Oriente Médio”. Essa área não estava definida por reservas de petróleo, mas por elementos culturais comuns.

A guerra que o Almirante Cebrowski imaginava deveria cobrir toda essa região. Ela não deveria levar em conta as divisões da Guerra Fria. Os EUA não possuíam mais amigos ou inimigos ali. O inimigo não estava definido por uma ideologia (comunismo) ou sua religião (“choque de civilizações”), mas tão somente por sua não-integração à economia globalizada do capitalismo financeiro. Nada poderia proteger os desafortunados do destino de serem seguidores, e não independentes.

Esta guerra não serviria ao propósito de tornar os EUA o explorador exclusivo de recursos naturais, como fizeram em guerras anteriores, mas todos os estados globalizados. Ademais, os EUA não estavam mais interessados em capturar matéria-prima, mas em dividir o trabalho em uma escala global, fazendo outros trabalharem para eles.

Tudo isso implicava em mudanças táticas na forma de fazer guerra, já que não se tratava mais de vitória, mas uma “guerra perpétua”, como colocou o Presidente George W. Bush. De fato, todas as guerras iniciadas desde o 11 de Setembro permanecem ocorrendo em cinco frentes diferentes: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e Iêmen.

Não importa se governos aliados interpretam essas guerras de acordo com as comunicações ianques: não são guerras civis, mas palcos de um plano preestabelecido pelo Pentágono.

A “Doutrina Cebrowski” chocou os militares dos EUA. Seu assistente, Thomas Barnett, escreveu um artigo para a Esquire Magazine [6], e publicou um livro onde apresenta a doutrina de forma mais detalhada para o público: The Pentagon’s New Map [7].

O fato de que nesse livro, publicado após a morte de Cebrowski, Barnett reivindique autoria da doutrina não deve enganar. É apenas um meio do Pentágono não assumi-la. O mesmo fenômeno ocorrera, por exemplo, com o “choque de civilizações”. Ele era originalmente a “Doutrina Lewis”, um argumento comunicativo desenhado dentro do Conselho de Segurança Nacional para vender novas guerras à opinião pública. Ela foi apresentada ao público pelo assistente de Bernard Lewis, Samuel Huntington, que a apresentou como a descrição acadêmica de uma realidade inescapável.

A implementação da Doutrina Rumsfeld/Cebrowski enfrentou altos e baixos. Alguns de dentro do próprio Pentágono, outros de pessoas sendo esmagadas por ela. Portanto, a resignação do comandante do Comando Central, Almirante William Fallon, foi organizada porque ele havia negociado a paz com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad por conta própria. Ela foi provocada por… o próprio Barnett, que publicou um artigo acusando Fallon de abusar do Presidente Bush. Ou ainda, a falha em derrubar a Síria causada pela resistência do povo e a entrada do exército Russo. O Pentágono tem, desde então, queimado plantações e organizado bloqueios ao país para deixá-lo faminto; ações revanchistas que atestam sua inabilidade em destruir estruturas estatais.

Durante sua campanha eleitoral, Donald Trump advogou pelo fim da guerra perpétua e pelo retorno das tropas para casa. Ele foi capaz de não iniciar novos combates e trazer alguns homens de volta, mas falhou em controlar o Pentágono. Este desenvolveu Forças Especiais sem “assinatura” e foi capaz de destruir o estado Libanês sem o uso de soldados visíveis. Esta é a estratégia sendo implementada em Israel, organizando pogroms contra árabes e judeus como resultado dos confrontos entre Hamas e Israel.

O Pentágono tem insistido na expansão da Doutrina Rumsfeld/Cebrowski sobre a Bacia Caribenha. Eles planejaram uma derrubada não do regime de Maduro, mas República Bolivariana da Venezuela. Por fim adiaram o plano.

Deve ser notado que o Pentágono adquiriu autonomia. Possui um orçamento de 740 bilhões de dólares, aproximadamente duas vezes maior que o de todo o estado francês. Na prática, seu poder é ainda mais extenso, já que controla todos os membros da Aliança do Atlântico. Em teoria, ele deveria responder ao presidente dos EUA, mas as experiências dos presidentes Barack Obama e Donald Trump mostram o oposto. O primeiro falhou em impor sua política sobre o General John Allen diante do Daesh, enquanto o último foi deixado para trás pelo Comando Central. Não há razões para acreditar que isso mudará com Joe Biden.

A recente carta aberta de ex-oficiais dos EUA [8] mostra que ninguém mais sabe quem está no comando dos militares. Não importa o quanto suas análises políticas são dignas da Guerra Fria, isso não invalida sua observação: a Administração Federal e os oficiais não estão no mesmo patamar.

O trabalho de William Arkin, publicado pelo Washington Post, mostra que o governo federal organizou um grupo nebuloso de agências sob a supervisão do Departamento de Segurança Nacional depois do 11 de Setembro [9]. Com máximo sigilo, eles interceptaram e arquivaram comunicações de todos os residentes do país. Arkin revelou na Newsweek que, da sua parte, o Departamento de Defesa tem criado Forças Especiais secretas, separadas dos uniformizados [10]. Eles agora controlam a doutrina Rumsfeld/Cebrowski, independentemente de quem está na Casa Branca e da sua política externa.

Quando o Pentágono atacou o Afeganistão e o Iraque em 2001, utilizou tropas convencionais – não possuía outras – e as dos aliados britânicos. No entanto, durante a “guerra perpétua” no Iraque, fortaleceu forças de jihadistas iraquianos, sunitas e xiitas, para mergulhar o país numa guerra civil [11]. Uma dessas, derivada da al-Qaeda, foi utilizada na Líbia em 2011, outra no Iraque em 2014 sob o nome de Daesh. Estes grupos gradualmente substituem as tropas oficiais para fazerem o trabalho sujo descrito pelo Coronel Ralph Peters em 2001.

Hoje, ninguém mais veste uniformes estadunidenses no Iêmen, no Líbano e Israel. O Pentágono propagandeia sua retirada. Mas há 60.000 forças especiais clandestinas e não uniformizadas criando caos via guerra civil nesses países.

Notas

[1] MEYSSAN, Thierry. September, 11 2001: The big lie. Carnot, 2002.

[2] Contrariamente ao senso comum, esse livro não lida com os ataques em si. Apenas a primeira parte (“Bloody staging”) demonstra a impossibilidade material da versão dominante. As outras duas partes lidam com as políticas de vigilância (“Death of Democracy in America”) e o projeto imperial (“The Empire Attacks”).

[3] PETERS, Ralph. “Blood borders. How a better Middle East would look”. Em: Armed Forces Journal, 1º de Junho de 2006.

[4] PETERS, Ralph. “Stability. America’s ennemy”. Em: Parameters, #31-4. Inverno de 2001.

[5] BLAKE, James R. Transforming Military Force. The Legacy of Arthur Cebrowski and Network Centric Warfare. Praeger Security International, 2007.

[6] BARNETT, Thomas. “Why the Pentagon Changes Its Maps. And why we’ll keep going to war”. Em: Esquire Magazine, Março de 2003.

[7] BARNETT, Thomas. The Pentagon’s New Map: War and Peace in the Twenty-first Century. Paw Prints, 2004.

[8] “Open Letter from Retired Generals and Admirals”. Em: Voltaire Network, 9 de Maio de 2021.

[9] ARKIN, William M.; PRIEST, Dana. Top Secret America: The Rise of the New American Security State. Back Bay Books, 2012.

[10] ARKIN, William M. “Exclusive: Inside the Military’s Secret Undercover Army”. Em: Newsweek, 17 de Maio de 2021.

[11] MEYSSAN, Thierry. “The fusion of the two “Gladio” networks and preparation of Daesh”. Em: MEYSSAN, Thierry. Before Our Very Eyes, Fake Wars and Big Lies: From 9/11 to Donald Trump. Progressive Press, 2018.

Fonte: Voltairenet
Tradutor: Augusto Fleck

Thierry Meyssan

Intelectual francês, presidente e fundador da <em>Rede Voltaire</em> e da conferência <em>Axis for Peace</em>, é autor de diversos artigos e obras sobre política externa, geopolítica e temas correlatos.

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