Chuck Palahniuk, Psicótico Americano

Um dos filmes mais populares das últimas décadas é Clube da Luta, uma ode à virilidade niilista em meio à mediocridade das vidas burocráticas e confortáveis modernas. O filme se baseia em uma obra literária homônima, de Chuck Palahniuk, uma figura iconoclasta da chamada “América Profunda” que merece atenção.

Chuck Palahniuk? Quem é esse cara? Quando eu lhes digo que ele é o autor do romance no qual o filme Clube da Luta é baseado, tenho certeza de que o interesse será despertado na mente de muitos de nossos leitores. Um autor americano, ele tem a distinção de ainda estar vivo e perambular pelo noroeste dos Estados Unidos, de acordo com os últimos rumores.

White Trash

Nascido em 1962, ele pertence àquela classe trabalhadora branca da América que foi deixada para trás pelo sonho americano e sobrevive à beira da pobreza. Como um dos eternos forasteiros agarrados a sua casa móvel, sua família se separou quando ele ainda era criança e ele teve que se defender sozinho. Seu pai foi supostamente morto pelo ex de sua nova noiva e seu corpo foi queimado para que as provas desaparecessem. Entendemos que a infância de Palahniuk não foi a mais cor-de-rosa e que sua passagem pela escola e por instituições psiquiátricas não ajudou. Antes de escrever, o jovem Chuck ateou fogo em tudo o que estava ao alcance de um fósforo. Se sua escrita é tão ardente, é porque está voltada para a expressão brutal de sua existência caótica. Quando terminou os estudos, ele se formou em jornalismo, mas não conseguiu encontrar um emprego nesta área. Ele se tornou mecânico e depois assistente de enfermagem em uma enfermaria para casos terminais. Ele se alimenta sofrimento e tenta não perder a cabeça: “O que eu fiz durante esse tempo? Eu bebia muito, realmente muito, também brigava muito, me cansava fazendo trabalhos de merda, e todas as sextas-feiras se resumia a uma única coisa, estar bêbado e ferrado o suficiente para esquecer que eu tinha que voltar ao trabalho na segunda-feira”.

O Clube de Luta será o reflexo sombrio desse vagar, desse desejo de encontrar sentido em uma vida em um mundo vazio: “Como a maioria dos meus amigos católicos fracassados, eu vivia com o sentimento de que o mundo era feito de salvadores e de futuros salvos. Seria Jesus Cristo apenas esperando para morrer pelos pecados dos outros. Ainda hoje, esta ideia persiste em meus romances, no caráter salvífico de certos personagens”.

Sol Negro

Clube da Luta nunca devia ter sido publicado na opinião do autor; ele o tinha concebido precisamente como uma resposta radical à indiferença do mundo editorial em relação à sua obra. Uma espécie de grande cuspe na cara da indústria do entretenimento. Seu sucesso parece ter perturbado Palahniuk por muito tempo, o livro havia se tornado um culto e o filme de David Fincher apenas amplificou o fenômeno. De que o Clube da Luta é nome, diria a múmia de Alain Badiou? De uma geração de homens sem rumo, gerentes médios e funcionários com vidas muito comuns que se tornam heróis durante um combate a mãos nuas. O suor e o sangue, os golpes que nos lembram que estamos vivos quando os recebemos. O retorno dos bárbaros reprimidos pela educação e a reunião em torno de novos ritos de uma comunidade neoprimitivista, Cluba da Luta, é esta ode do retorno às origens.

Tyler Durden, seu (anti)-hero, simboliza esta necessidade de transgressão dos falsos valores da sociedade de consumo. “As coisas que possuímos acabam nos possuindo”. Sua lógica é que se deve recusar a integrar os códigos deste mundo: “Talvez o autoaperfeiçoamento não seja a resposta. Talvez a resposta seja a autodestruição”. De uma inspiração libertária à lógica “totalitária” do terrorismo, o projeto nascido da mente de Tyler é no final apenas a trágica busca de um destino em um mundo fechado: “Somos os filhos esquecidos da História, caras, não temos objetivo ou lugar real; não temos grande guerra, não temos grande depressão. Nossa grande guerra é espiritual, nossa grande depressão é nossa vida; a televisão nos ensinou a acreditar que um dia seremos todos milionários, deuses do cinema ou estrelas do rock, mas isso não é verdade! E estamos lentamente aprendendo essa verdade… Estamos realmente, realmente fartos”.

Estar no sistema ou fora dele?

Com quase um livro por ano e excursionando pelos Estados Unidos para leituras públicas, Chuck Palahniuk tem construído um lugar para si na indústria cultural. Ele é muito claro sobre isso e não finge ser um rebelde da moda. Ele falava às crianças sobre a MTV e o Facebook nos anos 2000, ele compartilha o vazio existencial deles. Mas ele está ciente disso e destila o veneno da ironia nas redes de entretenimento. Ele sabe que os Clubes da Luta existem em todo o mundo (e devem ter existido mesmo antes dele escrever sobre isso). Seu estilo não é brilhante e pode parecer menor, mas a força da emoção que carrega de forma caótica é mais forte do que seu valor estético. “Com o Clube da Luta, como com os livros que se seguiram, meu desafio e meu sonho era trazer as crianças da geração de videoclipes e videogames de volta à literatura, oferecendo-lhes algo como existente e como arrojado, e carregando outro ponto de vista sobre a realidade que o da mídia. E estas são as crianças que me escrevem hoje, estes jovens de 17 ou 30 anos que pensavam que a leitura era para perdedores antes de um amigo lhes recomendar um de meus livros junto com um álbum dos Nine Inch Nails”.

Após a controvérsia sobre o Clube da Luta (o filme será julgado em bloco como uma apologia do nazismo, homossexualidade, violência gratuita e a fabricação caseira de sabonetes não orgânicos…), Chuck Palahniuk responderá com o muito sombrio e cínico “Sobrevivente“. Este romance marca o desgosto do autor pela formatação que as seitas religiosas ou a mídia podem impor. Mostra que o vácuo espiritual do Ocidente deixa o campo aberto para muitos monstros e que um salto é urgente antes que nos afundemos na loucura. O lado negro do mundo moderno também está no coração de No Sufoco, o conto mórbido da odisseia dos viciados em sexo. Enquanto Michel Houellebecq permanece no registro da pequena burguesia, ele deplora a perversão da vitimização desenfreada.

Em Pigmeu, seguimos um agente provavelmente norte-coreano que veio para destruir “a Grande Nação Americana” a partir de dentro. Choque cultural para o infiltrado que cumpre sua missão com dedicação. A moral? Que morra o Ocidente!

Fonte: Rebéllion

Louis Alexandre

Redator-chefe da Revista Rebéllion, especialista em questões sociais.

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