O Soft Power Americano como Instrumento de Hegemonia Global

Escrito por Giuseppe Gagliano
Se o poderio militar estadunidense segue sendo a principal ferramenta de garantia de sua hegemonia global, o soft power é tão importante quanto, na medida em que consegue operar e manipular em espaços onde não é viável a ação militar aberta.

Christian Harbulot, diretor e fundador da Escola de Guerra Econômica de Paris, dedicou grande parte de seu trabalho ao estudo da guerra econômica e do papel que ela desempenhou na dinâmica de conflito deste século. Mas ao lado da guerra econômica, um instrumento de importância semelhante que permitiu a conquista da hegemonia americana no chamado mundo multipolar é certamente o soft power.

Posando como o país-guia da livre concorrência, os Estados Unidos alcançaram a melhor operação de influência do século XX. Eles foram capazes de disfarçar sua agressão econômica chamando a atenção para a denúncia aos impérios coloniais europeus. Este truque retórico funcionou bem. A estigmatização das grandes potências reinantes permitiu-lhes disfarçar suas próprias iniciativas de conquista, como aconteceu com a colonização do Havaí. Foi com o mesmo espírito que conseguiram banalizar suas múltiplas intervenções militares externas como operações destinadas a proteger seus cidadãos durante o período crucial entre os séculos XIX e XX.

O soft power econômico americano foi construído em torno desta concepção equivocada. Os Estados Unidos apoiaram a emancipação dos povos da opressão colonial e, ao mesmo tempo, apoiavam as “portas abertas” e o livre comércio. Uma de suas principais críticas aos impérios coloniais europeus era o intercâmbio privilegiado entre esses impérios e suas metrópoles. A Commonwealth foi particularmente visada durante as negociações do GATT (1947) e Washington recusou-se a assinar a Carta de Havana (1948) que eles haviam desejado, mas que mantinha o princípio das “preferências imperiais” entre os países europeus e suas colônias.

Ao se apresentarem como o garantidores do discurso sobre livre concorrência e mercados abertos, os Estados Unidos construíram uma imagem de si mesmos como uma “juízes da paz” no comércio internacional. Esta vantagem cognitiva lhes permitiu mascarar suas iniciativas de conquista. O domínio americano sobre os campos de petróleo no Oriente Médio e no Irã tem sido a ilustração mais visível da máquina de guerra econômica dos EUA. O Departamento de Estado, agências de inteligência e empresas petrolíferas trabalharam juntos para impor sua vontade aos países interessados e a potenciais concorrentes. Os meios de ação utilizados foram frequentemente baseados no uso da força (participação indireta e depois direta em conflitos armados no Oriente Médio, golpes de estado como o derrube de Mossadegh no Irã em 1953, desestabilização de regimes que apoiavam o nacionalismo árabe).

O soft power econômico dos Estados Unidos tomou forma no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Armados com sua superioridade militar decisiva, os Estados Unidos procuram estabelecer um processo de dominação em alguns mercados vitais. Os planejadores do Plano Marshall encorajaram a agricultura européia a comprar soja americana para ração animal. Este desejo de estabelecer uma relação de dependência com os Estados Unidos se espalhará mais tarde para outros setores-chave, como a indústria de computadores e depois a tecnologia da informação. O armazenamento de dados (Big Data) é uma das áreas em que o sistema americano está mais determinado a manter sua primazia e domínio. Para “mascarar” esta lógica de dominação e dependência, as elites americanas têm recorrido a três tipos de ação.

1) A formatação do conhecimento.

As principais universidades americanas impuseram gradualmente suas opiniões sobre como funciona o comércio mundial, tomando muito cuidado para não falar sobre as lutas de poder geoeconômico. Esta omissão foi cheia de conseqüências, pois privou as elites européias de uma visão crítica sobre a natureza da agressão corporativa americana nos mercados estrangeiros. Disciplinas acadêmicas como ciências de gestão ou economia proibiram qualquer análise do fenômeno da guerra econômica de seu campo de visão, que os Estados Unidos, no entanto, praticavam com discrição.

2) A captura do conhecimento.

Para evitarem ser dominados pela dinâmica de inovação concorrente, os Estados Unidos desenvolveram ao longo do tempo um sistema de monitoramento muito sofisticado para identificar as fontes de inovação no mundo, a fim de contatar pesquisadores e engenheiros estrangeiros o mais rápido possível e oferecer-lhes soluções de expatriação ou financiamento através de fundos privados. Se este tipo de aquisição de conhecimento falhar, o uso da espionagem não está excluído.

3) Desinformação e manipulação

A ascensão ao poder das economias européia e asiática desde os anos 70 obrigou os defensores dos interesses econômicos americanos a adaptar suas técnicas de guerra econômica ao contexto pós-Guerra Fria. Os aliados dos principais adversários se enfrentaram antes da fase decisiva do surgimento da economia chinesa.

Nos anos 90, os Estados Unidos abriram várias frentes. A mais visível foi a política de segurança econômica implementada por Bill Clinton sob o pretexto de que as empresas estrangeiras eram vítimas de “concorrência desleal”. Os europeus foram os primeiros alvos. Expor a corrupção tornou-se uma arma favorita da diplomacia econômica dos EUA. Mas por trás deste princípio, houve operações muito mais ofensivas. Em 1998 o grupo Alcatel sofreu uma série de ataques de informação realizados na Internet, através de rumores na mídia sobre a falta de transparência financeira da administração geral. Esta campanha levou à queda histórica de uma ação na Bolsa de Valores de Paris. Para tratar desta questão, os industriais americanos apoiaram financeiramente a criação de ONGs como a Transparency International. Estes defensores da moralização empresarial estigmatizaram os países que não cumpriam com regras globais. Por outro lado, nenhum sujeito desse movimento estava interessado na opacidade dos métodos de pagamento dos principais atores das grandes empresas de auditoria fortemente envolvidas na assinatura de grandes contratos internacionais. A exploração de um discurso moralista está agora experimentando seu auge operacional com a extraterritorialidade da lei.

Mas a principal transformação do soft power americano nos últimos vinte anos é a exploração total da sociedade da informação. Todos se lembram da importância do sistema Echelon ou das declarações de Snowden sobre o tamanho da espionagem americana através da Internet e das mídias sociais. Em contraste, as técnicas de guerra da informação aplicadas na economia ainda não são familiares ao público em geral. Os Estados Unidos estão agora em guerra sobre como usar os atores da sociedade civil para desestabilizar ou enfraquecer seus adversários.

Fonte: Modern Diplomacy

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