Hélio de Emesa

Por Franz Altheim

Neste trecho da obra Der Unbesiegte Gott, o historiador e filólogo alemão Franz Altheim apresenta, utilizando-se do método comparativo, algumas das características fundamentais do culto ao deus Sol venerado em Emesa (atualmente Homs – Síria). A divindade, conhecida como Elagábalo ou Heliogábalo, foi associada ao Sol Invicto romano e seu culto foi levado à Roma durante o curto reinado do imperador Marco Aurélio Antonino. Nesse contexto, Altheim enfatiza, ainda, a importância dos Baityloi nas antigas religiões politeístas do Oriente Médio.

À primeira vista, parece haver conexões entre os Baalim de Balbeque e de Damasco. Júpiter Heliopolitano e Júpiter Damasceno carregam a semelhança em seus nomes. Quanto ao Deus de Emesa, também podemos nos perguntar se ele pode ser igualado a Júpiter. No entanto, ficará demonstrado que aqui a situação é diferente.

Em Balbeque, a trindade de Júpiter-Adade, Vênus-Atargatis e Mercúrio-Samas era, de acordo com sua ordem, de origem mais recente. Inicialmente, o deus do sol, Samas, ocupava o lugar mais elevado. Foi somente sob a influência dos babilônios ou, como a antiguidade tardia denominou: o pensamento dos caldeus, que Adade se tornou o senhor do destino, e que passou a ocupar o primeiro lugar. Samas, posteriormente equiparado a Mercúrio, teve que se contentar com a função de servir: como o mensageiro dos deuses, Hermes ou Mercúrio, ele se tornou o órgão executivo do deus supremo. No Panteão de Palmira, Hélios, o deus do sol, estava ao lado de Bel. Ele foi novamente mensageiro e mediador, ao passo que Bel foi entronizado nas esferas celestes como senhor do mundo. De sua posição de ajudante o deus sol recebe esse nome: como Malakbel, ‘Mensageiro de Bel’, confrontado com a trindade divina de Palmira, é novamente igualado a Mercúrio.

Também em Emesa era conhecida a crença babilônica no destino e sua irmã gêmea, a astrologia. Julia, mais tarde esposa do imperador Sétimo Severo (193-211), estava destinada a se casar com um governante de acordo com seu horóscopo; ela era descendente da casa sacerdotal de Emesa. No romance etíope Heliodors, que transmite grande parte da imaginação emeseniana, é dito que a órbita das estrelas determina o destino humano inevitavelmente. Escavações ao nordeste da cidade revelaram tábuas astrológicas em formato cuneiforme.

No entanto, ao contrário de Samas em Balbeque e Palmira, em Emesa, o deus do sol não se deixou expulsar do primeiro lugar. Moedas e inscrições mostram que em nenhuma circunstância ele acabou transformado em Júpiter, Baal ou Bel, mas continuou sendo o deus do sol. Deus Sol Elagábalo ou Invictus Sol Elagábalo não deixam dúvidas; acredita-se que em uma inscrição de Córdoba o “grande Hélios” de Emesa é igualado ao deus egípcio Rá. Ele também foi chamado de “progenitor”, já que os moradores de Emesa por vezes carregam a origem do sol ou do próprio deus em seu nome.

O segundo deus, Dusares, também estava relacionado ao sol – principal deus dos nabateus, é possível encontrá-lo em todos os lugares onde o comércio de caravanas e as áreas de influência deles se estenderam. Como todos os deuses do sol, Dusares recebeu o epíteto de Invencível; ele era associado a Mitras e seu aniversário era em 25 de dezembro. Como o divino Senhor de Emesa, ele também possuía uma pedra sagrada.

Reconhecemos esse tipo de adoração para o deus da lua, Karrhai, e para deuses de origem árabe em geral. O nome destes “Baityloi” significa que eles eram a morada dos deuses em questão, não os próprios deuses. Em Emesa, a pedra sagrada tinha a forma de um cone com uma base redonda na parte inferior e afinada em direção ao topo. Saliências em destaque na superfície mostram uma águia com uma cobra em seu bico. É possível perceber o símbolo do Sol. Portanto, mais uma vez, a pedra não era o próprio Deus; mas carregava a sua imagem. E, não obstante, o deus havia entrado na pedra, de alguma maneira era idêntico a ela, como também se sabe pelos numerosos blocos de pedra que eram venerados na Arábia pré-islâmica.

Quase sempre se ouve falar deles quando fiéis muçulmanos começaram a destruir esses ídolos. Nos locais das pedras, os sacerdotes das antigas divindades árabes exortaram a luta contra os representantes da nova religião. Porque eles [os deuses] perdem seu culto e sua reputação se são incapazes de conservar a pedra e, portanto, sua ‘casa’. Um deus que não luta por sua pedra é “algo sem valor”. Al-Uzza, que perdeu uma batalha semelhante – não eram pedras sagradas, mas três árvores que a ele pertenciam – “doravante nunca mais será venerado”, segundo o veredito do profeta vitorioso Maomé (569 a 632).

Pedras não estão presas a um local específico: são móveis. A introdução dos deuses ocorre de tal forma que é possível levá-las para ou trazê-las consigo de um santuário existente. Quando o culto do deus sol foi transferido para Roma, a pedra sagrada de Emesa foi levada para as margens do Tibre. Quando o desejo foi desfazer-se do culto estrangeiro após o assassinato de Elagábalo (222), a pedra foi enviada de volta para sua terra natal na Síria.

Além da veneração à pedra sagrada, existe uma forma de culto igualmente antiga, o da caverna. “Elagabal” foi originalmente o nome do próprio deus: ele era denominado “Senhor da montanha”. A referência era a montanha do castelo de Emesa, porque ali se encontrava a morada do deus. Da planície em que a cidade se estende, a cidadela se ergue no sudoeste, bem em frente ao sopé norte do Líbano. Aqui ficava o templo, cujo topo, nas palavras de um testemunho da antiguidade, rivalizava com as alturas arborizadas das montanhas.

Mais uma vez surge a comparação com Dusares. A sudeste do Mar Morto, já às portas da atual Arábia, encontramos Petra. Capital dos nabateus, pertencia a um povo que escrevia em um antigo dialeto aramaico, mas que, de acordo com as evidências dos seus nomes, era árabe. Em meio a um caldeirão de pedras, incrustada nas rochas vermelhas e roxas de um maciço rochoso imponente e primordial, Petra parece isolada de seu entorno. O acesso só é possível através de um leito rochoso de riacho que corta profundamente as paredes íngremes. Local seguro, em razão de sua distância dos homens parece ser um domínio encantado, projetado para favorecer a proximidade com o divino. Entre a miríade de tumbas, cavernas e templos, impressiona o local para os sacrifícios, situado no pico mais alto das rochas. Altar e matadouro, a bacia profunda em que o sangue do animal sacrificado fluía – dois Baityloi não muito distantes transmitem uma ideia do que pode ter sido um antigo culto semita na caverna.

Não é por acaso que as comparações feitas foram tomadas do mundo árabe. Elas têm sua origem, como já mencionado, nos nabateus e seu soberano divino Dusares. O Deus de Emesa conduzirá ao mesmo local.

Bibliografia:
Der Unbesiegte Gott. Heidentum und Christentum; Rowohlts Deutsche Enzyklopädie; Hamburg 1957.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *