O nascimento das milícias no Rio de Janeiro

O Prof. André Luiz dos Reis sumariza as origens das milícias cariocas, as formações de seus currais eleitorais e suas ligações com a família Bolsonaro.

O livro ”República das Milícias”, de Bruno Paes Manso, é bastante didático na exposição da formação das milícias no Rio de Janeiro. Esse modelo de ”máfia territorial” liderada por policiais civis e militares se espalhou a partir de duas diferentes áreas da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A primeira área é a de Jacarepaguá/Barra da Tijuca/Recreio dos Bandeirantes. Esses bairros foram ocupados muito recentemente, e possuem um desenvolvimento muito mais desvinculado das outras regiões da cidade. Eram isolados por causa do Maciço da Pedra Branca, e sua incorporação ao tecido urbano se deu a partir dos anos 1950. Antes disso, era lar de jacarés, cobras e onças.

A alta classe média começou a se mudar para esses bairros quando o acesso foi facilitado pela abertura de túneis que os ligavam à Zona Sul. E, como é comum na reprodução da formação social brasileira, as favelas se multiplicaram ao redor das aglomerações de moradias e prédios da pequena burguesia.

Essas favelas foram formadas por migrantes vindos principalmente do sertão do Nordeste. E algumas delas estabeleceram formas de barrar o desenvolvimento de certo tipo de bandidagem no seio das comunidades. Surgia a famosa ”polícia mineira”, como ainda hoje é chamada por moradores de Rio das Pedras, que cobrava ”taxas de proteção” para manter casas e comércios seguros, e inclusive afastados do tráfico de varejo que começou a se estabelecer nas favelas a partir dos anos 1980.

As associações de moradores conquistaram um papel fundamental no diálogo dessas novas favelas com o poder público, atraindo benefícios [redes de esgoto, iluminação elétrica, doação de terrenos para novas casas etc.] em troca de ”currais eleitorais”, em um esquema que se tornou praticamente institucionalizado durante o governo de César Maia.

Como é região de rápida expansão populacional, surgiu a oportunidade de fazer fortunas com grilagem de terras e com o mercado imobiliário. Foi da confluência da ”polícia mineira”, com a fachada das associações de moradores, e ”investimentos” e ”golpes” em construções de imóveis que se desenvolveu esse modelo miliciano em meados da década passada.

Mas existe um segundo núcleo de expansão das milícias, que se iniciou na parte da Zona Oeste que fica do lado de cá do Maciço da Pedra Branca, mais especificamente os bairros que vão de Campo Grande à Santa Cruz e Guaratiba.

Esses bairros têm um histórico de ocupação diferente da Barra, sempre foram muito mais integrados no desenvolvimento geral da cidade do Rio. No período colonial, eram espaços de Engenhos de Açúcar e mosteiros jesuítas. A Estrada Real que ligava às Minas Gerais passava por aqui, e o próprio Imperador trilhava esses caminhos em busca de períodos de lazer em Senador Camará e Santa Cruz. A estrada de ferro ligou essa zona oeste ao centro, e a primeira Estrada Rio São Paulo partia de Campo Grande.

Os bairros dessa área também passavam por uma explosão populacional a partir dos anos 1950, mas muito mais afim com a dinâmica do restante do Rio. Os moradores viajavam dezenas de quilômetros para trabalhar no Centro ou na Zona Sul, ou ainda na Barra da Tijuca — novo centro comercial a partir de meados dos anos 1980, dado o deslocamento das altas classes médias e a proliferação de shoppings.

O transporte público não conseguiu atender esse deslocamento cada vez mais maciço, nem tampouco a expansão interna dos bairros. Daí a consolidação de alternativas a partir de meados dos anos 1990, inicialmente à margem da lei, na forma de vans e kombis, que operavam tanto em rotas de longa distância [Campo Grande/Centro, por exemplo], como no interior da Zona Oeste.

A proliferação de tipos de transporte alternativo levou a uma verdadeira guerra por rotas mais rentáveis, com assassinato da concorrência, criação de cooperativas, e, evidentemente, a criação de máfias que controlavam linhas inteiras. Surgiu um novo modelo de milícia em torno desse caos, que tinham uma interação mais direta com a política do que aquela de Jacarepaguá e Barra. No início dos anos 2000, policiais milicianos foram eleitos vereadores no Rio de Janeiro. Todo mundo por aqui lembra de Natalino [chamado de ”mata rindo”] e Jerominho, por exemplo.

Evidente que, a partir do fim da década passada, os dois modelos de milícia passaram a se ”mesclar” de maneira mais forte. Aliás, os principais grupos milicianos surgidos a partir desses dois lados do Maciço chegaram a iniciar conversas e alianças nesse período — e também conflitos sangrentos.

O clã Bozó tem um papel muito importante na proteção política das principais figuras ligadas à expansão das milícias. A família possui não só vínculos pessoais como se tornou porta-voz desses grupos no poder legislativo. A trajetória de Flávio Bozó, eleito deputado estadual pela primeira vez em 2002, está umbilicalmente vinculada à expansão dos núcleos milicianos, que se tornaram sua principal base eleitoral.

É a esgotolândia no poder.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

Deixe uma resposta