Há alguma ”solução liberal”?

Por Michel Froissard

Guy Sorman, professor de economia no Institut d’études politiques de Paris, não é, em rigor, um “teórico do liberalismo”. Ele se declara um mero “observador”. Primeiro fruto de suas observações: um livro intitulado La Révolution Conservatrice américaine (1983). Esta obra conta as desventuras, a evolução e o itinerário dos pequenos grupos e dos comícios mais importantes, em termos quantitativos, que tinham dado a Reagan sua primeira vitória eleitoral. Esse livro foi agradável de ler, nos fornece o pano de fundo de uma América “profunda”, estranha a qualquer forma de intelectualidade. Recentemente, Sorman retornou com La Solution Libérale, compilação de histórias que visa mostrar o que é o liberalismo real, concreto, nos EUA, na Grã-Bretanha thatcherista, no Japão e na República Federal da Alemanha.

A vantagem estratégica, que retira os liberais, em déficit de teorias, deste livro, é discorrer sobre liberalismo sem recorrer à teoria. “Eu quis fazer um balanço concreto do liberalismo de fato, tal como se apresenta no estrangeiro, enquanto na França estamos falando sem experiência, por modismo, de um liberalismo teórico”, declara Sorman à revista Hebdo, em 7 de setembro passado. O liberalismo “concreto” de Sorman é o retorno às fontes mandevillienas do liberalismo, uma ideologia que acredita firmemente que o progresso é a soma das ações individuais espontâneas motivadas pelo interesse, sejam vícios, sejam virtudes.
Sorman traça esta visão, saída diretamente do séc. XVIII, um liberalismo libertário, um espontaneísmo social criador e permissivo, capaz de abarcar as ideias de maio de 68. Esse liberal-espontaneísmo tenciona se privar da classe política, que vive (generosamente) das estruturas do Estado-Providência, seja de direita, seja de esquerda. Quando os membros da antiga maioria, na França, se reivindicam do liberalismo, o seu ou aquele de Hayek, Sorman fala de hold-up ideológico. Para ele, o liberalismo não pode se confundir com o absoluto patronal e o absoluto político: ele seria então somente uma reação conservadora sem o dia seguinte. O liberalismo de Sorman é essencialmente anti-político e se resume a um simples princípio: a superioridade da ordem espontânea sobre a ordem decretada.

O recurso à espontaneidade permite muita coisa, muitas conclusões apressadas. É a crítica maior que Pierre Rosenvallon dirige ao último livro de Sorman.

Depois da dissolução do marxismo primário do nosso pós-guerra, herdeiro do marxismo vulgar que De Man já tinha executado em 1926, assistimos ao nascimento de sua inversão quase perfeita: o liberalismo primário. Sem dúvida, Sorman suscita verdadeiras questões, escreve Rosenvallon, pois “é preciso, de fato, encontrar alternativas à crise do Estado-Providência, instituir substitutos às regulações keynesianas antes da crise, reduzir a opacidade e promover a eficiência dos serviços públicos, travar os efeitos perversos de algumas políticas sociais, limitar a rigidez corporativa etc.” (Le petit Hayek illustré, in : L’Expansion, 2/15 nov. 1984).

Infelizmente, Sorman não oferece qualquer solução. Ele se limita a substituir os slogans keynesianos pelos slogans neoliberais: “Abaixo o Estado, Viva o Mercado!” Ainda que seu argumento ateórico dificilmente seja refutado, por causa, precisamente, da sua ateoricidade, é importante recordar alguns princípios que proclamam a morte do liberalismo mandevilliano, matriz de todos os outros há dois séculos, e alguns fatos que demonstram que os sucessos político-econômicos dos americanos e de outros hoje não devem nada às velhas receitas liberais.

Reagan e Thatcher não interromperam o crescimento da máquina estatal. As despesas sociais e militares não diminuíram. Reagan praticou a velha estratégia político-econômica americana, derivada das teorias de Carey, que preconizam um protecionismo rigoroso no comércio internacional casado com um livre-mercadismo interno. Sob essa ótica, a política prevalece sobre o econômico e o Estado se vê revalorizado, apesar do discurso ideológico. O mínimo que podemos dizer é que não há desaparecimento do Estado.
Quando cremos que os vícios e as virtudes dos indivíduos suscitam o progresso, nos colocamos resolutamente em uma falsa perspectiva: apenas algumas sociedades extremamente urbanizadas revelam uma atomização excessiva do tecido social (Paris, Bruxelas, New York…). Neste vasto mundo, verifica-se que as sociedades economicamente eficientes, como o Japão, são aquelas em que as coesões naturais (famílias, clãs, trabalho negro na Itália etc.), religiosas ou nacional-religiosas (xintoísmo, sikhs, diásporas judaicas e gregas, maronitas) são poderosas e permitem economizar em um sistema de seguridade social rígido. Nossa sociedade foi dividida pelo liberalismo, de essência individualista, e precisa da seguridade social.

A ausência de seguridade social somente beneficia uma categoria de agentes econômicos que Sorman distingue perfeitamente: a “nova raça” cosmopolita que persegue os lugares higienizados, sem exotismo, aeroportos internacionais, hotéis, assentos da multinacionais, grandes lojas.
Uma “nova raça” sem coração e sem raízes, uma nova raça que não tem tempo para fazer filhos e cujo vil egoísmo recusa aos outros alimentarem decentemente os seus, uma nova raça sem poesia, toda preocupada com números e estatísticas infundados, substituto das antigas leituras de entranhas. Essa nova raça não deixará vestígios na história. A crise varrerá essa espécie grosseira de especuladores, em benefício de produtores ligados a um solo e a uma comunidade. Os japoneses nos demonstram que as raízes não são minimamente freios para a economia. Em matéria social, há indubitavelmente um obscurantismo liberal relativamente ao qual todo agregado histórico constitui um disparate. Sorman cai de pés juntos nesta armadilha.

Incorporar as ideias de maio de 68, para Sorman, é injetar o cosmopolitismo nos costumes. É levar em conta o Testamento de Deus” em economia, como B.-H. Lévy e Guy Scarpetta (Éloge du cosmopolitisme, Grasset, 1981) o fizeram em literatura: o mesmo horror perante as raízes, o mesmo gosto pela agitação dos homens e das mercadorias.
Lamentavelmente, quando você pega os vinte pratos mais deliciosos e os mistura, você obtém apenas uma infame sopa.

Dispensar uma classe política obsoleta: boa ideia! À classe política que estabelecesse seu poder sobre os discursos (vácuo) ideológicos e moralistas, religioso e hipócrita, não poderá suceder a ”nova raça” sem perspectiva de futuro, incapaz de raciocinar a longo prazo. À classe política-ideológica sucederá uma classe política de engenheiros que substituirão a especulação e a publicidade pela competência e a produção, e historiadores que oporão a luxuriante diversidade da história, o sentido do longo prazo, aos slogans fáceis e aos ”testamentos de Deus” frios e áridos. Haverá “lutas de tipos” e a “nova raça” sormaniana vai desaparecer como uma má lembrança no dia de uma festa.

Finalmente, a precipitação sormaniana se revela na página 150 de La Solution Libérale, em que Schumpeter é vislumbrado como um teórico precursor do neoliberalismo. Essa classificação do grande economista austríaco é um pouco apressada.

Para Schumpeter, a luta de classes provém precisamente do ódio que suscitam os especuladores entre os ”tipos” humanos enraizados. Thorstein Veblen, sociólogo americano-norueguês do começo do século, assumiu essa tese, valorizando o papel do engenheiro relativamente à ”classe dos ociosos”, vivendo do fruto de suas especulações.

Outra grave lacuna de La Solution Libérale: muitas referências americanas. A América não é a Europa. A economia europeia não precisa de uma solução america, senão de uma solução autóctone, que leve em conta nossa continuidade histórica. No fundo, não existe ”solução liberal”, há um sonho, uma quimera liberal que acomete facilmente os povos despertos.

Fonte: Le blog de Robert Steuckers

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