Serj Tankian: “Ninguém jamais conquistou Artsakh”

Hoje, nós entramos em mais um dia da agressão coordenada pelos turcos e azeris para invadir e fazer uma limpeza étnica para limpar Artsakh, uma região majoritariamente armênia que foi dada ao Azerbaijão pela URSS na década de 1920 na esperança de apaziguar a recém-fundada República Turca e para que ela também se tornasse uma República Soviética.

Os Azeris são culturalmente e linguisticamente parentes dos Turcos. Para o governo ultranacionalista turco, a Grande Turquia incorporaria os diferentes estados túrquicos na região, incluindo o Azerbaijão, assim como antigos territórios otomanos: essa é uma estratégia de longo-prazo de Ankara.

O armênio nascido em Beirute – Serj Tankian –, o famoso vocalista da banda de metal System of a Down e um ativista de longa data dos direitos humanos falou com o Greek City Times para discutir a tentativa Turca-Azeri de invadir Artsakh, mais conhecida como Nagorno-Karabakh, e fazer uma limpeza étnica da população armênia nativa.

GCT: Artsakh tem inegavelmente uma contínua herança armênia desde pelo menos 500 antes de cristo e sempre foi uma região majoritariamente armênia, inclusive até hoje. Por que Azeris e Turcos se sentem tão poderosos ao ponto de achar que podem expulsar a população armênia dessa região?

Tankian: Eu acho que Azerbaijão e Turquia têm diferentes intenções na sua agressão contra Artsakh e com a Armênia. Para o Azerbaijão é uma questão da sobrevivência de um regime que tem um governo corrupto de uma oligarquia do petróleo que está sendo desafiado pela oposição que está majoritariamente na cadeia. A motivação da Turquia é e foi por um pan-turanismo. Por causa disso que cometeram um genocídio contra armênios, gregos e Assírios um século atrás e obviamente usaram nossas nações como bodes expiatórios pelas suas derrotas na Segunda Guerra Mundial. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan e seu governo corrupto, coortes (subdivisões de uma legião romana), bandidos se você preferir, estão fazendo uma aventura militar na Síria, Líbia, no Mediterrâneo e agora no Cáucaso para cumprir sua agenda.
Pra mim essas são as maiores motivações desses dois agressores.

GCT: Como gregos, nós compartilhamos do mesmo trauma do genocídio e da limpeza étnica que os armênios passaram. A maioria dos gregos veem a agressão Turca-Azeri contra Artsakh como um potencial segundo genocídio contra os armênios.
Os gregos estão certos em acreditar nisso ou é um exagero?

Tankian: Quando os netos dos que cometeram o genocídio estão atirando nos netos dos sobreviventes do genocídio e bombardeando não apenas posições militares, mas civis, é seguro assumir que o povo de Artsakh e Armênia estão lutando uma batalha existencial. Isso também foi dito a partir de Yerevan. Armênios não podem se permitir perder a guerra.

GCT: O governo grego expressou solidariedade aos armênios e revelou que a visita do ministro das relações estrangeiras da Grécia, Nikos Dendias, a Yerevan é iminente. A Grécia, apesar disso, não condenou o Azerbaijão pela sua invasão. Apesar das palavras vazias de solidariedade, o que a Grécia e a comunidade internacional podem fazer para pôr um fim na agressão Turca-Azeri?

Tankian: Armênios são extremamente gratos aos líderes da Grécia e Chipre nessa batalha. Além de condenar Azerbaijão e Turquia por sua invasão, a Grécia pode se unir ao Chipre em convencer a EU a sancionar a Turquia e Azerbaijão pelo seu ataque na Artsakh e Armênia. Eu não entendo como a EU pode ameaçar sancionar a Turquia por uma perfuração e não por começar uma guerra no Cáucaso na mesma semana.

GCT: Apesar do fato de que o governo grego tem sido fraco, como é dito pela mídia grega em seu apoio à Armênia, há uma grande solidariedade pública pela Armênia. Independentemente do governo, teve protestos, usuários de Twitter gregos fizeram hashtags em apoio a Artsakh, hackers gregos desligaram mais de 150 sites do governo azeri e já tem uma primeira leva de gregos se voluntariando, assim como greco-armênios estão se preparando para lutar e defender Artsakh com mais levas de voluntários se organizando para deixar a Grécia nas próximas semanas.
Você tem alguma mensagem que deseja enviar ao povo grego e o que eles podem fazer pra apoiar a Armênia durante essa crise existencial?

Tankian: Primeiramente, agradeço pelo apoio, eu não estava ciente do hackeamento de sites. Seria bom mais disso contra os centros de comando e controle aéreos azeris e turcos.
A Armênia também apoiou a Grécia quando navios turcos começaram a perfuração pelo Mediterrâneo. Acho que precisamos trabalhar uns com os outros e nos ajudarmos nessas situações, já que estamos lidando com o mesmo agressor que conhecemos muito bem.
Também estou comovido com os voluntários que querem vir e lutar por justiça. A ajuda humanitária também pode ser muito útil, é claro, já que uma boa parte da população de Artsakh está vivendo em abrigos antiaéreos neste momento. Acima de tudo, fazer sua voz ser ouvida pela liderança e fazê-los trabalhar através da UE e de organizações internacionais para ajudar a Arménia e a Artsakh. Isso seria muito útil. Novamente, eu pessoalmente sou muito grato.

GCT: Sobre os EUA, o ex-Conselheiro de Segurança Nacional John Bolton descreveu o relacionamento de Donald Trump com Erdoğan como um “bromance”. Trump também disse que se dá “bem” com Erdoğan e o descreveu como “muito bom”.
Que tipo de impacto esse relacionamento teve em conduzir a esta crise em Artsakh?

Tankian: o “bromance” de Trump, como você disse, com Erdoğan deu a ele luz verde para fazer o que quisesse na região. Isso é claro. Os EUA não defenderam seus próprios aliados curdos na Síria contra Erdoğan. A administração dos EUA não moderou a Turquia na Líbia, Grécia, Chipre, nem no Cáucaso. Muitos dizem que é por causa de seus investimentos em hotéis na Turquia e no Azerbaijão. Pode haver algo ainda mais do que isso. É por isso que é imperativo que a Rússia e a UE moderem as ambições e agressões regionais da Turquia.

GCT: Embora a mídia do Azerbaijão já descreva os voluntários da Grécia que vão para Artsakh como “mercenários”, o fato é que eles não estão sendo pagos, ao contrário dos terroristas sírios que a Turquia recebeu e ainda estão transferindo para o Azerbaijão. Estes são os mesmos terroristas sírios que estavam/estão atacando e matando a minoria armênia na Síria. Esses mercenários jihadistas estão agora às portas do Irã e da Rússia, e a Turquia corre o risco de criar uma crise geopolítica mais ampla em toda a região.
Como você vê esses eventos?

Tankian: Eu concordo. O afunilamento de combatentes sírios sob o controle da Turquia desestabilizará ainda mais a região. Irã, França e Rússia expressaram seu desânimo com esta revelação. Há relatos de que o Irã está reunindo tropas na fronteira com o Azerbaijão. A Rússia não quer lutar contra a Turquia em outra frente, como já está na Síria e na Líbia, então a Turquia está realmente pressionando como sempre. Se não for interrompido, isso levará a uma guerra regional maior e talvez pior.

GCT: A Turquia e grande parte do mundo resistem em reconhecer o genocídio grego, armênio e assírio de 1914-1923. Agora, mais do que nunca, parece que o reconhecimento do genocídio é um imperativo internacional.
Você acha que o reconhecimento e a reparação internacional poderiam ter feito a diferença para evitar a atual tentativa de invasão de Artsakh pela Turquia e pelo Azerbaijão?

Tankian: Com certeza!!! Sem punir um crime, muito menos um crime contra a humanidade, os perpetradores podem continuar em impunidade.
600 anos de experiência diplomática turca estão em ação. Dizem a todos o que querem ouvir e depois fazem o que querem. São as chamadas muitas faces da diplomacia turca. Nós sabemos muito bem. No entanto, Erdoğan está abusando da sorte e em breve chegará o momento de se vingar. Acho que a comunidade mundial deve encorajar a mudança de regime na Turquia e no Azerbaijão para que possamos todos lidar com líderes mais razoáveis ​​e para que seu povo também possa progredir nos próximos milênios sem ser preso por falar o que pensa ou pertencer a este ou aquele grupo político ou partido.

GCT: A Armênia é um país pobre e sem litoral, com apenas 3 milhões de habitantes, contra 80 milhões na Turquia e 9 milhões no Azerbaijão. Os gastos militares do Azerbaijão e da Turquia em comparação com a Armênia são várias vezes superiores e incomparáveis. No entanto, os armênios são obstinados e defendem com sucesso suas terras ancestrais. Parece que um povo indígena lutando contra invasores neo-imperialistas pode superar essas adversidades intimidantes enfrentadas contra eles. No entanto, apesar da bravura dos armênios, mais da metade dos soldados martirizados têm entre 19 e 20 anos.
Você concorda com a declaração que acabamos de fazer e que tipo de impacto essa guerra terá nas gerações futuras?

Tankian: Artsakh e Armênia estão travando uma batalha existencial que não podemos perder. É por isso que toda a nação armênia está unida em fazer tudo que podemos para proporcionar um amanhã melhor para nossos filhos. Está correto. Estamos lutando contra um inimigo com mais armas, que gastam muito mais no orçamento de defesa que a gente. Mas a história nos ensinou que não são os exércitos que ganham as guerras, mas o espírito, os corações e as mentes daqueles que estão dispostos a se sacrificar que ganham as guerras. Ninguém na história conquistou Artsakh. Eles são nossos espartanos.

GCT: Obrigado pelo seu tempo, Serj.

Tankian: Obrigado, Paul.

Paul Antonopoulos

Ativista político de origem grega, colaborador independente da NR, jornalista e analista político do jornal. @oulosP

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