Após explosão em Beirut, narrativas de guerra se espalham pelo globo

Uma grande explosão em Beirut na terça-feira (4) matou mais de 100 pessoas e feriu mais de 4 mil perto do porto da cidade. Um dos navios da missão de paz das Nações Unidas em Beirut também foi danificado e várias pessoas da missão ficaram feridas. Relatos não confirmados circulam, segundo os quais, teria havido não apenas uma, mas duas explosões – a segunda perto da residência do ex-primeiro ministro Saad Hariri. Tenha sido uma ou duas explosões, sua força foi suficiente para destruir vidraças a quilômetros de distância do epicentro da explosão. Inicialmente foi noticiado que um incêndio (em um prédio onde estavam armazenados explosivos) teria sido a causa. No entanto, isso foi negado pelo chefe de Segurança Geral do Líbano – segundo ele, havia ali apenas fogos de artifício (e não explosivos).

Esta tragédia ocorreu em meio a uma situação muito tensa no Líbano. Internamente, o país passa por uma crise econômica severa (segundo alguns, a pior em 30 anos), que tem gerado protesto em todo o país desde pelo menos outubro de 2019. Tal situação resultou na renúncia de Saad Hariri. Além disso, no plano externo, as tensões com Israel estão crescendo e teorias da conspiração estão se espalhando no Líbano e no exterior.

Uma autoridade do Ministério da Defesa libanês foi citada afirmando que não se tratou de ataque terrorista. O presidente dos EUA, Donald Trump,, contudo, descreveu o ocorrido como “ataque” (quando expressava simpatia pelas vítimas). No contexto atual das tensões entre Israel e Líbano, boatos sobre Israel estar por trás da tragédia estão se espalhando rapidamente. Recentemente, Israel bombardeou Damasco (na Síria), alvejando combatentes do Hezbollah, o que contribuiu para aumentar a tensão. O Hezbollah, claro, é bastante popular no Líbano – e aqui é necessário contextualizar: a organização teve um papel chave em expulsar os israelenses do país durante o conflito de 1982-2000, quando Israel invadiu o Líbano para neutralizar a Organização pela Libertação da Palestina (os israelenses se retiraram no ano 2000 e isso foi amplamente percebido como uma vitória do Hezbollah). Mais recentemente, as forças armadas israelenses e forças paramilitares do Hezbollah travaram conflito durante a guerra de 2006. Mais uma vez, Hezbollah declarou vitória – embora Israel ainda ocupe parte das Colinas de Golã. Pode-se, portanto, dizer que o Hezbollah está profundamente enraizado na sociedade libanesa. Ele administra hospitais, escolas e vários projetos sociais e de infraestrutura no país. Tecnicamente, Líbano e Israel ainda estão em guerra.

Em meio a este quadro tenso, algumas autoridades israelenses fizeram declarações na terça-feira (4) negando que Israel tivesse qualquer envolvimento com a tragédia – por exemplo, a TV do parlamento israelense (TV Knesset) colocou no ar um anúncio que negava tais acusações. O Ministro das Relações Exteriores, Gabi Ashkenazi, por sua vez, afirmou que a causa da explosão possivelmente foi um acidente relacionado a um incêndio. Enquanto isso, um porta-voz das Forças Armadas de Israel se negou a comentar, afirmando que as Forças Armadas do país não comentam informes vindos da imprensa estrangeira. Israel chegou a oferecer ajuda humanitária ao Líbano após o incidente.

Por ora, só se pode especular. É claro que pode ter sido um ataque terrorista ou operação clandestina – e também pode não ter sido. Seja como for, a guerra de informação certamente seguirá seu curso. Podemos pensar no incidente um tanto confuso de 27 de julho, que envolveu combatentes do Hezbollah e militares israelenses (na região disputada das Fazendas de Shebaa): ainda não é claro se houve baixas ou não. Algumas fontes asseguram que não chegou a ocorrer incidente algum. De qualquer forma, as tensões explodiram e autoridades israelenses fizeram várias ameaças contra o Hezbollah, o qual, por sua vez, prometeu retaliar qualquer ataque.

Podemos ainda pensar no vôo 752 da Ukraine International Airlines (que foi derrubado no Irã em 8 de janeiro) ou mesmo no vôo 17 da Malaysia Airlines, que foi derrubado quando voa sobre a Ucrânia oriental. Em ambos os casos, narrativas contrastantes surgiram. Algumas delas foram tachadas de “teorias da conspiração” e, como frequentemente é o caso, a questão da “credibilidade” depende de quem está afirmando o quê sobre quem.

Não se trata simplesmente de “teorias da conspiração” ou “fake news”. Deve-se pensar nisso como parte de um quadro maior – isto é, como parte de uma guerra de informação em busca de soft power (e, às vezes, em busca da escalada de tensões).

A guerra moderna sem dúvida se estende hoje para muito além do campo de batalha. É um processo complexo, envolvendo muitos atores e várias zonas cinzentas – de algum modo, todos os principais atores do grande tabuleiro lutam esta guerra. Assim sendo, a tragédia recente no Líbano – e as narrativas sobre ela – inevitavelmente serão instrumentalizadas nesta guerra.

Autor: Uriel Araujo

Fonte: InfoBrics

Tradução: Nova Resistência

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