Sobre oferendas e visões de mundo

Por João Cezar (NR-MG)

Voltou à baila nas redes sociais um antigo debate acerca de oferendas realizadas em encruzilhadas por adeptos das tradições espirituais afro-brasileiras. O motivo é um texto – viralizado já há algum tempo e atribuído a um “professor Leandro, da UnB” – que desqualifica as liturgias afro-ameríndias e suas cosmovisões complexas e sofisticadas, como observou Luiz Antonio Simas. Esclareçamos, ponto a ponto, os equívocos cometidos pelo autor:

1- Nas religiões afro-brasileiras, o poder de realização- a força vital conhecida como axé (entre os iorubás) ou ngunzo (entre os bantos)- ocupa espaço fundamental. O axé está presente na natureza – nos reinos vegetal, mineral e animal – e proporciona saúde, harmonia e estabilidade aos iniciados da comunidade (egbé) e à roça de santo quando redistribuído através das oferendas.

2- As oferendas podem ser depositadas em lugares que, segundo o povo de terreiro, também têm axé. A encruzilhada- principal domínio de Exu (o Orixá), Pambu-Njila (o Inkice), Legba (o Vodum) e de ancestrais conhecidos como Exus e Pombagiras (cultuados nas Umbandas) – é um desses espaços sagrados em que convergem simbolismos diversos: para os iorubás, na “ikoritá metá” – a encruzilhada de três caminhos – os mundos dos vivos (Ayê) e dos mais vivos (Orun) se encontram. O movimento de Exu, o Orixá Primordial (Yangi), abre possibilidades e incertezas que possibilitam a concretização de todas as coisas.

3- Os elementos das oferendas, diversos, são manipulados pelos iniciados e sacerdotes conforme seus conhecimentos das coisas do santo: é preciso muito tempo – anos! – vivenciando intensamente a tradição para versar-se no axé. É indispensável, aí, a iniciação, que aprofunda a relação do ser humano (ara-ayê) com os seres divinos (Irumale/Orixá), com seu destino (Babá Ori), com seus ancestrais (Egungun) e com sua comunidade (egbé).

4- O texto viralizado nas redes sociais desqualifica essa sofisticação (simbólica, ética, litúrgica etc.) e reduz as religiosidades afro-brasileiras a reações ingênuas à escravidão, ignorando o complexo jogo de reinvenções e continuidades que conforma essas espiritualidades. Trata-se, assim, de uma perspectiva sociológica e historicamente equivocada, além de materialista, racista e folclorizante – algo, aliás, muito comum às nossas esquerdas e a movimentos que se pretendem representantes do povo de santo enquanto trocam o cheiro do abô de terreiro pelos perfumes de grife importados.

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