Zeev Sternhell e a fundamental análise do fascismo

Escrito por Armin Mohler
Ontem, 21 de junho de 2020, morreu aos 85 anos Zeev Sternhell, grande historiador das ideias polaco-israelense. Adequadamente aos debates que estamos vivendo no momento, trazemos aqui uma brilhante exposição de seu livro Nem direita nem esquerda: a ideologia do fascismo na França, redigida por Armin Mohler em 1983 e publicada no n.° 76 da revista Criticón.

Um livro, publicado em Paris em 1983, mudou completamente a historiografia do fascismo. Este livro tem o título: Nem direita nem esquerda: a ideologia do fascismo na França (em francês: Ni droite ni gauche: L’idéologie du fascisme en France). Com um tamanho de 412 páginas, foi publicado pela editora Seuil, conhecida por suas tendências de esquerda. O autor, Zeev Sternhell, professor de ciência política na Universidade Hebraica de Jerusalém, nasceu na Polônia em 1935. Atualmente, é diretor do Centro de Estudos Europeus, e, pouco antes da publicação de “Nem direita nem esquerda”, fundou o Centro Interdisciplinar de Pesquisa sobre Civilização Francesa.

Seu livro é muito denso. Ele também está repleto de repetições porque, o que importa para Sternhell, um homem de temperamento ardente, é incutir no leitor certos julgamentos incomuns. Contudo, seria errado culpá-lo por usar “conceitos vagos”. Ao contrário do especialista até então acreditado no estudo do fascismo, Ernst Nolte, Sternhell não recebeu treinamento filosófico. Ele é um historiador autêntico que se preocupa em listar o passado. Para ele, cada realidade histórica é “iridescente”, não pode ser reduzida a um único conceito, as várias facetas devem ser consideradas. Portanto, diferentemente de Nolte, Sternhell não constrói um esquema abstrato do fascismo, no qual será necessário incluir fenômenos concretos. Ele preferencialmente refere esses fenômenos a toda uma variedade de conceitos que, no entanto, extrai do vocabulário político tradicional, a fim de identificá-los e localizá-los.

Embora seja nossa intenção resumir aqui um trabalho tão complexo, nossa apresentação não pode, no entanto, substituir a leitura deste livro. Pelo contrário, é a introdução.

  1. QUEM É ZEEV STERNHELL?
    • 1.1. Sem dúvida, ele é um autêntico esquerdista. O jornal Le Monde (14/1/1983) falou sobre o assunto: “Sternhell entrou em maio de 1977, após a vitória eleitoral de Begin e a queda do Partido Trabalhista, na vida política de Israel. Ele criou o Club 77, uma reunião de intelectuais da ala de extrema-esquerda do Partido Trabalhista. Este grupo adotou uma política moderada em relação ao mundo árabe e fez campanha pela evacuação da Cisjordânia; em questões de política interna, ele procurou favorecer uma política o mais ‘socialista’ possível, ou seja, garantindo o máximo de igualdade. Dentro do Partido Trabalhista, Sternhell faz parte de uma minoria, enquanto foi membro do Comitê Executivo.”
    • 1.2. Sternhell é um “gramscista”. Como todos os reclamantes e manifestantes de esquerda de sua geração, ele se libertou da ortodoxia marxista. Ele rejeita expressamente a concepção materialista da história (pp. 18-19). Seguindo Gramsci (e fortemente a inspiração deste comunista italiano, Georges Sorel), Sternhell se une à concepção historiográfico-filosófica que quer que as idéias não sejam o reflexo das realidades, mas o inverso.
    • 1.3. O ponto de partida da abordagem de Sternhell: o revisionismo. O fato de Sternhell se dedicar ao estudo do fascismo é sem dúvida explicado pelo seu interesse na biografia dos revisionistas, aqueles que tentaram mudar e reformar o marxismo ortodoxo. Em Nem direita nem esquerda, surge que o revisionismo “direitista” (p. 35), ou revisionismo “liberal” (p. 81), que leva a alianças e compromissos com o liberalismo burguês e que encarna um Eduard Bernstein (na França, Jaurès) fascina Sternhell menos que o revisionismo “esquerdista” (p. 290), um movimento iniciado por Sorel e pelos sindicalistas revolucionários que recusaram os “abrandamentos” do socialismo e depois se voltaram para o fascismo. Sternhell está particularmente interessado em uma nova corrente socialista na época que, indo além da oposição Sorel/Bernstein, viu a luz do dia após a Grande Guerra: o revisionismo “planista” ou “tecnocrático” (p. 36) do socialista Henri De Man belga e do neo-socialista francês Marcel Déat. Esse revisionismo leva diretamente ao fascismo.
  2. A FRANÇA, MODELO DO FASCISMO?
    • 2.1. Por que a França? O livro de Sternhell quer desenvolver uma definição de “fascismo” com base no exemplo francês. Essa intenção pode surpreender. A França, de fato, com a exceção do interlúdio da ocupação alemã, nunca conheceu um regime qualificado como “fascista”. Itália, Alemanha e até Espanha seriam melhores exemplos nesse sentido. Mas Sternhell, como veremos, emprega argumentos muito sérios para justificar sua escolha.
    • 2.2. Estudos anteriores de Sternhell. Esses argumentos, para nós, não podem ser deduzidos do trabalho anterior de Sternhell, todos relacionados à França. Desde o início, ele voltou sua atenção para o fascismo, mesmo que se possa supor que uma mudança de perspectiva poderia ter ocorrido e o fez escolher outra área de pesquisa. O que Sternhell descobriu muito cedo nessas áreas negligenciadas pela pesquisa foi que ele estava no caminho certo. Dois livros igualmente generosos precederam Nem esquerda nem direita. O primeiro foi intitulado Maurice Barrès e nacionalismo francês (em francês: Maurice Baurrès et le nationalisme français, 1972). O segundo, A direita revolucionária 1885-1914: As origens francesas do fascismo (La droite révolutionnaire 1885-1914 : Les origines françaises du fascisme, 1978), tratou do mesmo período histórico, mas o grande tema de Sternhell, fascismo, apareceu pela primeira vez na legenda. A pesquisa considerou imediatamente esses dois trabalhos como clássicos. Os assuntos desses livros são mais setoriais e mais gerais do que o tema do terceiro, sobre o qual comentamos aqui. Em Nem esquerda nem direita, Sternhell procura forjar uma classificação global e detalhada do fenômeno fascista que pretende dominar conceitualmente.
    • 2.3. A França inventou o fascismo. O primeiro argumento de Sternhell, para localizar o campo de sua pesquisa na França, é que este país viu o nascimento do fascismo 20 anos antes dos outros, principalmente por volta de 1885 (p. 41). Sternhell apenas ocasionalmente usa o termo “pré-fascismo” para descrever os eventos entre 1885 e 1914 (p. 21). Uma figura como a de Maurice Barrès já carregava dentro de si as sementes de todo fascismo subsequente. E quando afirmei a mesma hipótese em 1958, encontrei um surpreendente mal-entendido por parte dos especialistas franceses…
    • 2.4. A França como um contra-modelo. O segundo argumento apresentado por Sternhell é mais complexo. Contorna duas armadilhas. Entre os grandes países da Europa continental, a França é aquele em que a posição dominante da ideologia e da prática política do liberalismo foi a menos ameaçada, pelo menos até a derrota militar de 1940 (p. 41). Sternhell destaca (p. 42) o fato de que a revolução liberal mais importante e exemplar da história ocorreu neste país e chama nossa atenção para os fenômenos do “consenso republicano” (p. 43) e o “consenso centrista” (p. 52), que são os pilares da história francesa contemporânea. É precisamente por causa desse consenso inabalável que Sternhell opta pela França como um campo de investigação. Como o fascismo na França nunca chegou ao poder (p. 293) e, escreve Sternhell, “o fascismo nunca foi além do estágio da teoria e nunca sofreu com os compromissos inevitáveis que sempre distorcem, de alguma forma, a ideologia oficial de um regime. Assim, penetramos em seu profundo significado e, ao apreender a ideologia fascista em suas origens, em seu processo de incubação, chegamos a uma percepção mais fiel das mentalidades e comportamentos. E entendemos melhor, ao que parece, a complexidade das situações e a ambiguidade das atitudes que compunham o tecido dos anos trinta”. Obviamente, esse é um princípio heurístico, derivado de uma opção radicalmente gramsciana que coloca a primazia das idéias e refuta a das restrições factuais.
  3. OS PROBLEMAS DA “PERIODIZAÇÃO”
    • 3.1 Impossibilidade de se definirem datas exatas. Como qualquer historiador verdadeiro deve fazer, Sternhell varia ligeiramente as datas. Além de eventos específicos, não é fácil fornecer datas precisas, bem definidas no tempo, para designar o surgimento ou a suposição de uma corrente de idéias políticas. É por isso que Sternhell examina o fenômeno “fascista” no espaço de meio século.
    • 3.2. Continuidade entre 1885 e 1940. Um fato essencial para Sternhell: esse período é “na história da Europa, um período verdadeiramente revolucionário”. E continua: “Em menos de meio século, as realidades sociais, o modo de vida, o nível tecnológico e, em muitos aspectos, a visão que os homens têm de si mesmos mudam mais profundamente do que ‘em nenhum outro momento da história moderna'” (p. 45). Portanto, esse período forma uma unidade, se, no entanto, colocarmos entre parênteses os quatro anos da Grande Guerra (pp. 19 e 290). E Sternhell escreve expressamente: “Durante este meio século, os problemas fundamentais quase não variaram” (p. 60).
    • 3.3 Três gerações.Embora esteja ciente dessa continuidade, Sternhell prossegue, porém, com subdivisões ao longo do tempo; assim, por exemplo, fala dos “fascistas de 1913” como fascistas de um tipo particular. Ele distingue três gerações de fascistas (cf. pp. 30, 52 e 60): primeiro os boulangistas e os anti-dreyfusards do final dos anos 80; então, antes de 1914, os da “segunda geração”, aqueles do sindicalismo “amarelo” e da Ação Francesa de Maurras, que atingiram seu auge; na final, ele evoca, como terceira geração, o “fascismo pós-guerra”.
    • 3.4. O peso de uma época. Deve-se notar que Sternhell colocou muito mais peso nas primeiras décadas do tempo em que estudou. Para ele, qualitativamente, os anos que antecederam a Grande Guerra são mais importantes do que as décadas que se seguiram, porque, nesta pré-guerra, tudo que era essencial para o desenvolvimento do fascismo doutrinário foi dito e implementado.
  4. PROLEGÔMENOS DO FASCISMO
    • 4.1. Recusa em levar em consideração grupos excêntricos. Sternhell está interessado em “propagadores de ideias”. Ele não se dá a perder tempo estudando esse fascismo folclórico de algumas pessoas iluminadas que se fantasiam de bandidos, um fascismo caricatural cuja mídia faz barulho. Ele não tem nada além de desprezo por aqueles que focam suas pesquisas nesse tipo de fenômeno marginal (p. 9): “Na época, quando um grupo de solidariedade francesa era fotografado em treinamento com pistola, todos da imprensa de esquerda falam sobre isso há semanas: qualquer desfile de algumas dúzias de “camisas azuis” desperta muito mais interesse do que o paciente esforço para sabotar Thierry Maulnier ou Bertrand de Jouvenel (…)”
    • 4.2. Fascismo, uma ideologia como as outras. Sternhell fala da “banalidade do fascismo” (p. 296): “Nos anos 30, o fascismo constituía uma ideologia política como as outras, uma opção política legítima, um estado mental bastante comum, muito além dos círculos pessoas que assumem sua identidade fascista (…)”. Segundo Sternhell, o fascismo era “um fenômeno com seu próprio grau de autonomia, de independência intelectual” (p. 16). Ele protestou contra “a recusa fundamental de se ver o fascismo como algo além de um acidente na história da Europa” (p. 18). Para Sternhell, portanto, é um erro considerar o fascismo apenas como “uma mera aberração, um acidente, se não uma explosão de loucura coletiva (…)” (p. 18). No final de seu trabalho (p. 296), Sternhell nos adverte contra aqueles que propagam a opinião de que os fascistas eram apenas “marginais”. Muitos são os “fascistas” que foram julgados por seus contemporâneos como os “representantes mais brilhantes de sua geração” (Luchaire, Bergery, Marion, de Jouvenel).
    • 4.3. Correntes de transmissão. “A ideologia fascista constitui, na França, um fenômeno muito mais difuso do que a estrutura restrita e, em última análise, sem importância dos adeptos aos pequenos grupos aos quais esse título é atribuído” (p. 310). Duas páginas depois, Sternhell explica como pôde “a ideia fascista” ter se espalhado em um ambiente tão pronto para receber sua mensagem: “Os fascistas puros eram sempre poucos, e suas forças, dispersas. Sua verdadeira influência seria exercida por uma contribuição contínua para a cristalização de um certo clima intelectual; através do jogo de correntes de transmissão secundárias: homens, movimentos, revisões, grupos de estudo (…) ”(p. 312).
    • 4.4. Dificuldade em localizar o fascismo sociologicamente. Sternhell insiste que o fascismo “prolifera nos grandes centros industriais da Europa Ocidental, bem como nos países subdesenvolvidos da Europa Oriental” (p. 17). Ainda, ele gosta de tirar sarro daqueles que acreditam que podem classificar o fascismo em categorias sociais bem definidas. É significativo que Sternhell chame nossa atenção para uma constante na história do fascismo: “a mudança para a direita de elementos socialmente avançados, mas fundamentalmente opostos à democracia liberal” (p. 29). Se esta observação for verdadeira, ela se oporá a todas as tentativas de vincular a ideologia fascista a grupos sociais muito bem definidos.
    • 4.5. Para explicar o fascismo: nem crises econômicas nem guerras. O que me impressionou também em Sternhell é a insistência que ele se põe a demonstrar a relativa independência do fascismo em relação à conjuntura (pp. 18 e 290). Ele não acredita que o nascimento do fascismo tenha sido devido à pressão das crises econômicas e, surpreendentemente, acredita que a Primeira Guerra Mundial (ou qualquer outro conflito) teve pouca influência sobre o surgimento do fenômeno. Nesse sentido, Sternhell se opõe à maioria dos especialistas em fascismo (pp. 96 e 101). É precisamente nesta tese que a opção “gramscista” de Sternhell se manifesta claramente, apesar de o nome Gramsci nunca aparecer na obra do professor israelense. Sternhell leva a sério as “crises” apenas quando são crises morais, crises de valores ou crises globais, afetando a civilização como um todo.
    • 4.6. “Auschwitz” como argumento final não aparece em lugar algum. Sternhell mostra uma objetividade surpreendente, o que é particularmente raro nos estudos do fascismo. Essa atitude, contudo, se mostra aparentemente mais fácil de adotar em Israel do que em Nova York ou Zurique. Assim, Sternhell não hesita em reconhecer no fascismo “um certo frescor de protesto, um certo sabor da juventude” (p. 80). Ele renuncia a toda pedagogia moralizante. Contudo, está muito consciente do “problema de memória”, memória reprimida e suprimida; ele o mencionará em particular em relação a certas figuras com um passado fascista ou fascistoide que, após 1945, optaram pela reintegração, tornando-se porta-vozes do liberalismo: Bertrand de Jouvenel (p. 11), Thierry Maulnier (p. 12) e sobretudo o filósofo do personalismo, fundador da revista Esprit, Emmanuel Mounier (pp. 299-310).
  5. A FÓRMULA DO FASCISMO SEGUNDO STERNHELL
    • 5.1. As deficiências do liberalismo e do marxismo. Após essa introdução, agora somos capazes de explicar a alquimia do fascismo, de acordo com Sternhell. Para este historiador israelense, o fascismo pode ser explicado de acordo com uma preliminar histórica, sem a qual seria incompreensível: a incapacidade do liberalismo burguês e do marxismo de assumir as tarefas impostas pelo século XX. Esta incapacidade constitui uma deficiência global, afetando toda a nossa civilização, em particular todas as instituições, ideologias, convicções que ela deve no século XVIII, século de racionalismo e mecanismo burguês. O liberalismo e o marxismo são para Sternhell dois lados da mesma moeda. Incansavelmente, ele enfatiza que a crise da ordem liberal precedeu o fascismo, que esta crise criou um vácuo no qual o fascismo poderia ser constituído. Esse fascismo necessariamente teve que acontecer? Sternhell não se pronuncia, mas toda a sua demonstração sugere que essa necessidade era inevitável.
    • 5.2. Revisionistas de esquerda e nacionalistas decepcionados. Geralmente, para explicar o nascimento do fascismo, evocamos a presença anterior de um nacionalismo particularmente radical e exacerbado. Sternhell considera esta explicação absurda. De acordo com o modelo explicativo que ele nos sugere, a origem do fascismo é explicada muito mais pelo fato de que nas extremidades, tanto à esquerda quanto à direita, do espectro político, os elementos se destacaram para se encontrarem fora deste espectro, formando um terceiro e novo elemento que não é nem esquerdista, nem direitista. Na gênese do fascismo, Sternhell não vê contribuição apreciável do centro liberal. Segundo ele, o fascismo resulta da colusão de radicais de esquerda, que não aceitam os compromissos dos moderados de seu universo político com o centro soft liberal e os radicais de direita. O fascismo é, portanto, um amálgama de esquerda desiludida e direita desiludida, “revisionistas” esquerdistas e direitistas. O que parece importante para Sternhell é que o fascismo está fora da rede tradicional esquerda/centro/direita. Da perspectiva fascista, o capitalismo liberal e o socialismo marxista apenas se chocam na aparência. Na realidade, eles são dois lados da mesma moeda. A oposição entre a “esquerda” e a “direita” deve desaparecer, para que os homens da esquerda e os da direita não sejam mais explorados como vigias dos interesses da burguesia liberal (p. 33). É por isso que o final do século XIX vê cada vez mais noções aparentemente paradoxais que indicam uma fusão de oposições em vigor até então. O exemplo mais conhecido dessa fusão é a fórmula intercambiável: nacionalismo social + socialismo nacional. Sternhell (p. 291) insiste na vontade de “ir além” como uma característica do clima fascista. O termo “além” é encontrado nos títulos de muitos manifestos fascistas ou pré-fascistas: Além do nacionalismo (Au-delà du nationalisme, de Thierry Maulnier), Além do marxismo (Au-delà du marxisme, de Henri De Man), Além do capitalismo e do socialismo (Au-delà du capitalisme et du socialisme, Arturo Labriola), Além da democracia (Au-delà de la démocratie, Hubert Lagardelle). Este último título nos lembra que o conceito de “democracia” abrangeu o conceito de “liberalismo” até o final do século XX. Também em Sternhell, o conceito de “capitalismo liberal” alterna-se com “democracia capitalista” (p. 27).
    • 5.3. Anti-plutocratismo.O esquerdista Sternhell leva as manifestações social-revolucionárias do fascismo mais a sério do que a maioria dos outros analistas, historiadores e sociólogos do seu lado. Se Sternhell tivesse realizado um estudo mais aprofundado das correntes filosóficas e literárias do final do século XIX, ele teria descoberto que o ódio à “dominação do dinheiro”, à plutocracia, participava de uma vasta corrente na época, corrente que foi muito além do campo socialista. Essa repulsa contra a plutocracia foi, é claro, um fermento muito ativo na gestação do fascismo. Muitos grupos fascistas perceberam que o antissemitismo era uma popularização dessa repugnância, capaz de abalar as massas. O antissemitismo, portanto, ofereceu a possibilidade de fundir a dupla frente fascista, dirigida simultaneamente contra o liberalismo burguês e o socialismo marxista, em uma única representação do inimigo. Ao mesmo tempo, essa hostilidade contra a plutocracia naturalmente pré-programou o conflito que iria se opor a fascistas e conservadores.
    • 5.4. A longa luta entre conservadores e fascistas. Dada a definição de fascismo de Sternhell, não surpreende que ele fale de uma “longa luta entre o certo e o fascismo” (p. 20) como uma característica distinta, embora hoje em dia desconhecida, do tempo e das situações que ele descreve. E ele observa: “Este é o caso em toda a Europa: os fascistas nunca conseguem abalar verdadeiramente os fundamentos da ordem burguesa”. Tanto em Paris como em Vichy, tanto em Roma como em Viena, em Bucareste, em Londres, em Oslo ou em Madri, os conservadores sabem perfeitamente o que os separa dos fascistas, e não são enganados pela propaganda para assimilá-los”. (p. 20) Assim, Sternhell se opõe claramente (p. 40) à classificação convencional da direita francesa, operada por René Rémond, que a dividiu em três campos: os ultras, os conservadores liberais e os bonapartistas. De fato, nunca houve mais de dois campos de direita, os liberais e os conservadores, que foram contestados por revolucionários, dissidentes e contestadores.
    • 5.5. Simultaneamente revolucionário e moderno. Com esses dois termos, usados por Sternhell para designar o fascismo, o historiador israelense chocou seus colegas cientistas políticos. Para ele, de fato, o fascismo é um fenômeno verdadeiramente revolucionário e resolutamente moderno. “Uma ideologia concebida como a antítese do liberalismo e do individualismo é uma ideologia revolucionária”. Mais tarde (p.35), Sternhell expõe a idéia, segundo ele tipicamente fascista, segundo a qual o fator revolucionário que, no final, aniquila a democracia liberal não é o proletariado, mas a nação. E acrescenta: “É assim que a nação se torna o agente privilegiado da revolução” (p. 35). As passagens que evocam o modernismo do fascismo são igualmente surpreendentes. Em conexão com uma dessas passagens (p. 294), pode-se observar que essa atribuição do modernismo diz respeito apenas aos fascismos italianos e franceses: “Porque o fascismo tem um lado modernista muito desenvolvido que contribui para aumentar a lacuna com o antigo mundo conservador. Um poema de Marinetti e uma obra de Le Corbusier foram imediatamente adotados pelos fascistas porque, melhor que uma dissertação literária, simbolizam tudo o que separa o futuro revolucionário do passado burguês”. Outra passagem aborda claramente o fascismo como um todo: “A história do fascismo é, portanto, em muitos aspectos, a história de um desejo de modernizar, rejuvenescer e adaptar sistemas e teorias políticas herdadas de século anterior às necessidades e imperativos do mundo moderno. Como resultado de uma crise geral, cujos sintomas apareceram claramente no final do século passado, o fascismo foi estruturado em toda a Europa. Todos os fascistas estão perfeitamente convencidos do caráter universal da corrente que os guia e, portanto, sua confiança no futuro é inabalável.”
  6. ELEMENTOS PARTICULARES DA IDEOLOGIA FASCISTA

    • 6.1. Anti-materialismo. Já que, para Zeev Sternhell, o fascismo não é simplesmente o produto de uma moda política, mas uma doutrina, ele atribuirá certos conteúdos intelectuais a ela. Mas como esses conteúdos intelectuais também são encontrados fora do fascismo, que constitui concretamente o fascismo, é uma concentração de elementos frequentemente muito heterogêneos em uma unidade eficaz. Vamos citar os principais elementos desta síntese. Sternhell enfatiza principalmente o antimaterialismo (pp. 291 e 293): “Essa ideologia constitui acima de tudo uma rejeição ao materialismo, isto é, ao essencial da herança intelectual em que vive. Europa desde o século XVII. É essa revolta contra o materialismo que permite a convergência do nacionalismo antiliberal e anti-burguês e essa variante do socialismo que, embora rejeite o marxismo, permanece revolucionária (…) Nem todo antimaterialismo é fascismo, mas o fascismo constitui um variedade de anti-materialismo e canaliza todas as correntes essenciais do anti-materialismo do século XX (…)” Sternhell também cita os outros elementos da herança à qual o fascismo se opõe: racionalismo, individualismo, utilitarismo, positivismo (p. 40). Essa oposição indica que esse antimaterialismo é direcionado contra qualquer hipótese que gostaria que o homem fosse condicionado por dados econômicos. É quando Sternhell fala de psicologia que essa oposição é mais claramente vista. Assim, ele observa (p. 294) que os “moralistas” Sorel, Berth e Michels “rejeitam o materialismo histórico que eles substituem por uma explicação de natureza psicológica”. “Finalmente “, continua Sternhell, “eles acabam em um socialismo cujas relações com o proletariado deixam de ser essenciais”. E ele insiste: “O socialismo começa, assim, a partir do início do século, a se tornar um socialismo para todos, um socialismo para a comunidade como um todo (…)” (p. 295). Ainda mais explícita é uma passagem relacionada ao revisionismo de Henri De Man, que busca a causa raiz da luta de classes “menos em oposições econômicas do que em oposições psicológicas”.

    • 6.2. As determinações. Seria, no entanto, errado dizer que, para o fascismo, o homem não sofre nenhum tipo de determinação. Para os intelectuais fascistas, essas determinações simplesmente não são de natureza “mecânica”; com isso queremos dizer, de natureza “econômica”. Como Sternhell indica, o fascista não considera o homem um indivíduo isolado, mas um ser sujeito a restrições históricas, psicológicas e biológicas. Daí a visão fascista da nação e do socialismo. A nação só pode, portanto, ser entendida como “a grande força ascendente, em todas as suas classes combinadas” (p. 32). Quanto ao socialismo, o fascista só pode representá-lo como “socialismo para todos”, “socialismo eterno”, “socialismo educacional”, “socialismo ao longo da vida”, enfim um socialismo que não está mais vinculado a uma estrutura social determinada (cf. pp. 32 e 295).

    • 6.3. Pessimismo. Sternhell considera os traços mais característicos do fascismo “sua visão do homem movida por forças inconscientes, sua concepção pessimista da imutabilidade da natureza humana, fatores que levam a uma compreensão estática da história: dado que as motivações psicológicas permanecem as mesmas, o comportamento humano nunca muda”. Para apoiar essa consideração, Sternhell cita a definição de pessimismo de Sorel: “essa doutrina sem a qual nada de muito alto foi feito no mundo” (p. 93). Essa definição lembra em que consiste o verdadeiro paradoxo da existencialidade, segundo os conservadores: a percepção do homem sobre seus limites não o paralisa, mas o encoraja a agir. O otimismo, ao contrário, superestimando o potencial do homem, parece deixá-lo afundar constantemente em apatia.

    • 6.4. Voluntarismo e decadência. Sternhell, que não é filósofo, mas historiador, não tem consciência desse “paradoxo conservador”. Ele simplesmente observa a presença no fascismo de uma “energia tensa” (p. 50) e constantemente sinaliza essa vontade fascista de dominar o destino (p. 65 e 294). Sternhell observa que o problema da decadência preocupa muito os fascistas. É por isso que ele quer criar um “novo homem”, um homem que carrega virtudes anti-burguesas clássicas, virtudes heroicas, um homem com energia sempre alerta, que tem senso de dever e sacrifício. A preocupação com a decadência leva à aceitação do primado da comunidade sobre o indivíduo. A qualidade suprema, para um fascista, é ter fé na força da vontade, uma vontade capaz de dar forma ao mundo da matéria e de quebrar sua resistência. Sternhell faz essas observações até a última linha de seu trabalho; assim, na página 312: “Em um mundo em perigo, o fascismo aparece facilmente como uma vontade heroica de dominar, mais uma vez, a matéria, a domar, por uma implantação de energia, não apenas as forças da natureza, mas também as da economia e da sociedade.”

    • 6.5. A questão da verdade. Por um lado, pessimismo; por outro lado, voluntarismo. Para o pensamento lógico, isso poderia ser apenas um paradoxo. Mas o fascismo se pergunta sobre a questão da verdade? Vamos ver o que Sternhell diz sobre um dos “pais fundadores” do fascismo: “Para um Barrès, por exemplo, não é mais uma questão de saber qual doutrina é certa, mas qual força torna possível agir e superar.” (p. 50). Como prova do fato de que o fascismo não julga uma doutrina de acordo com sua “verdade”, mas de acordo com sua utilidade, Sternhell cita Sorel sobre o assunto de “mitos” que, para o autor das Reflexões sobre a violência, constituem o motor de toda ação : “(…) mitos são” sistemas de imagem “que não podem ser decompostos em seus elementos, que devem ser tomados como um todo como forças históricas (…) Quando nos colocamos no terreno dos mitos, estamos a ‘salvo de toda refutação (…)’ (pp. 93 e 94).”

EM SUMA…

Conseguimos resumir o livro de Sternhell apenas em suas linhas fundamentais. Tivemos que negligenciar muitos pontos importantes, como sua alusão à “nova liturgia” como parte integrante do fascismo (p. 51), ao antiamericanismo latente (mesmo antes de 1914) (p. 290); não aprofundamos sua observação, ressaltando que, para o fascismo, a luta contra o liberalismo interno sempre foi mais importante do que a luta contra certos ditadores contra ele (p. 34). Como resumidor, permita-me dois comentários, que podem ser úteis para o leitor alemão. Primeiro, a Alemanha quase não é mencionada em Sternhell. Como bibliografia alemã, ele cita apenas os livros de Nolte traduzidos para o francês; podemos, portanto, supor que ele não domina a linguagem de Goethe. Minha segunda observação será lembrar ao leitor alemão minha tentativa de dar substância ao conceito de “fascismo”, limitando-o a um certo número de fenômenos históricos (cf. Der faschistische Stil, 1973). Sternhell, por sua vez, deu uma enorme amplitude ao termo “fascismo”. Seu esforço é justificável, na medida em que sua ampla definição de “fascismo” corresponde basicamente ao que designei sob o rótulo de “Revolução Conservadora”. Em suma, podemos dizer do livro de Sternhell que ele mandou para o lixo a maior parte do trabalho dedicado ao estudo do fascismo…

Deixe uma resposta