O pensamento estratégico de Mário Travassos

Mário Travassos é um ponto capital no pensamento estratégico brasileiro. Apesar de marcado pelas conjunturas de sua época [como disputas com a Argentina e a transição do país para a industrialização], suas ideias geopolíticas sintetizaram correntes de disciplinas e teóricas de seu tempo em um todo original que revela um olhar profundo sobre o destino nacional e sul-americano.

O cerne dessa elaboração era a integração sul-americana como redimensionamento dos esforços pela articulação do território brasileiro — uma das maiores preocupações do Império. Daí o esforço de unir a Bacia do Prata à Bacia do Amazonas através de um eixo pivotal do subcontinente: o triângulo boliviano formado pelas cidades de Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba e Sucre.

Por esse pivô se daria também a ligação do Atlântico colombiano/venezuelano ao Pacífico andino, essencial para a contenção da influência norte-americana na América do Sul [que depende do controle do mar do Caribe, da abertura do Canal do Panamá, do movimento de pinça realizado na Colômbia e do Chile, e no escanteamento do Brasil].

Esse modelo adentrou a perspectiva militar e diplomática brasileira de tal modo que permaneceu basilar mesmo no período posterior à fundação da ESG, quando se desenvolveu um direcionamento a uma forma de ”dependência vantajosa” em relação aos Estados Unidos, mais do que de rivalidade embrionária ou explícita.

As ideias de Travassos estavam em perfeita consonância com o que imaginavam os principais elaboradores da geopolítica ianque para a América do Sul, que temia a aliança entre as três potências terrestres [Brasil, Argentina e Chile], dando ao subcontinente possibilidade para se projetar como potência anfíbia [e portanto não mais regional] e até permitir a penetração de influências da Eurásia — o fundamento da estratégia dos EUA é o cerco à Eurásia pelo ”oceano único” por meio de cooptação permanente de regiões da Rimland.

O mais estupendo, no entanto, é a expressão de um imaginário em torno do coração da Amazônia e da Bolívia como vínculo entre as coordenadas da América do Sul.

Em um delírio místico, essa região se encontra entre os famosos paralelos do sonho de Dom Bosco. É também a região de Qullasuyu, uma das quatro principais regiões do ”Império Inca”. Os Andes possuem uma misteriosa conexão com tribos tupis e com os marajoaras, além da cidade de Kuhikugu, parte de um complexo urbano que podia chegar a 50 mil habitantes, comparável à Lisboa da época.

Travassos procurava o caminho do Peabiru.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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