A Epopeia dos Bandeirantes: Uma Visão a partir da Quarta Teoria Política

Uma das figuras históricas nacionais mais falsificadas é o bandeirante. Romantizado e “liberalizado” pela direita e demonizado pela esquerda, o seu papel na formação histórica nacional é desprezado em prol de narrativas moralistas e ideologicamente anacrônicas que tentam encaixá-lo dentro da mitologia progressista. Começar uma releitura da figura do bandeira e renovar o seu mito, mas sem os entraves progressistas e modernos, é essencial para reconstruir simbolicamente o Brasil.

Não existe figura da história nacional mais aviltada e deturpada que a do bandeirante. As más interpretações, como veremos em nosso texto, não vêm somente de um único espectro político. Podemos, aliás, dividi-las em duas chaves de interpretação, que criaram no imaginário popular imagens distintas e opostas do fenômeno das bandeiras. Ambas categorizações, entretanto, levam a caminhos problemáticos. Ao final do texto, apresentarei uma terceira via e uma possível atualização do mito bandeirante guiada por um ponto de vista nacional-revolucionário e tradicionalista.

No século XIX, os bandeirantes foram resgatados como personagens históricos relevantes. O gesto foi obra de uma elite paulista enriquecida pelos cafezais em busca de uma identidade e de um passado glorioso. Essa é a origem da primeira interpretação das bandeiras, a qual podemos caracterizar como uma visão “à direita”. No entanto, ainda que as extensas obras de pesquisas empreendidas por historiadores como Afonso Taunay sejam importantes até hoje, a imagem resultante desse empreendimento não fez jus aos antigos sertanistas.

O bandeirante europeizado, vestido à moda dos três mosqueteiros para “civilizar” os indígenas, seria dotado de um suposto impulso “empreendedor liberal”. Sendo assim, o personagem foi transformado em símbolo para uma elite de interesses apátridas e usurários, que, apesar de algum laço ancestral, há muito tinha perdido qualquer traço do espírito ou valor legitimamente bandeirante.

Apesar dos erros evidentes da primeira interpretação, a interpretação alternativa não poderia ser mais trágica: – a visão que podemos encaixar no campo progressista “à esquerda”, e que é a “vencedora” na batalha de narrativas, tornou-se hegemônica nas produções historiográficas e culturais recentes. Essa é a imagem típica dos livros didáticos: o bandeirante-genocida, que escravizou milhões em proporções bíblicas, arrasou tudo por onde passou e nada construiu. Uma vez mais, o bandeirante era identificado como símbolo de uma elite, agora em sentido negativo, e ainda uma figura “europeia”, o colonizador europeu em sua face mais agressiva e genocida.

Essa interpretação teve forte embasamento nos relatos daqueles que podemos considerar os maiores inimigos dos bandeirantes: os missionários jesuítas. Se os historiadores progressistas buscavam desconstruir uma historiografia “romântico-conservadora”, acabaram, ironicamente, criando uma ainda mais moralista e romantizada: o bandeirante-vilão-maligno, acompanhado do clássico fetiche progressista pela vítima e pelo oprimido, que transformou o indígena em um agente passivo, inerte e manso, ignorando, assim, a própria natureza índia das bandeiras. A construção dessa imagem precisou demonizar a violência e a força. Dessa forma, desconsiderou um dado antropológico fundamental: ao longo da história humana, diversos povos criaram sociedades guerreiras com valores marciais explícitos.

Para uma apreciação mais justa da história nacional, é importante entender o contexto histórico, e as complexas relações entre diferentes povos, sem os vícios daquelas leituras moralistas em que os vencedores são vilões e os vencidos são heróis. Há muita complexidade e profundidade envolvida na dinâmica histórica: até mesmo os supostos vilões podem ser heróis em determinados eventos.

Mas, afinal, quem foram os bandeirantes?

O primeiro bandeirante, considerado o “pai dos paulistas”, foi João Ramalho, um português de origens misteriosas que criou fortes laços com as tribos tupis do planalto paulista por meio do cunhadismo. Ramalho deu origem a uma linhagem de filhos mestiços, prática que se tornaria a norma para os futuros habitantes da capitânia de São Vicente. Darcy Ribeiro chamou esses mestiços, que vinham pipocando em núcleos por toda a costa brasileira, de “brasilíndios”. Nascidos da fusão de linhagens lusitanas e tupis, eles se encontraram em uma encruzilhada: não podendo mais ser tupis, e tampouco sendo considerados portugueses completos, teriam que reconstruir sua identidade a partir dos retalhos deixado por seus pais. Esses mestiços, inclusive, conservaram de suas mães índias uma língua própria: o nheengatu, ou língua geral tupi, dialeto que sobreviveu até o século XVIII. Era nessa língua que distinguiam todos aqueles que não eram de seu povo. Por essa razão, os estrangeiros eram chamados de emboabas.

Os paulistas de Piratininga foram o exemplar mais vigoroso dessa nova raça: isolados em uma capitânia empobrecida, onde as plantações de cana de açúcar não deram tantos frutos como ao norte, eles se viraram para o sertão e adotaram a prática marcial como meio de vida. Tal prática, o bandeirante incorporou por conformidade com a sua herança indígena: desde a abertura dos caminhos pelos sertões, seguindo as antigas trilhas do Peabiru, até o sistema de armamento e as formas de combate expedicionário. Embora as armas de fogo tenham sido alardeadas como grande vantagem tecnológica dos europeus, elas não eram tão eficientes assim no século XVI, ainda mais nos labirintos das matas úmidas tropicais. Não era incomum, portanto, a preferência pelo arco e flecha. Não por menos, o grosso do montante das bandeiras era formado por índios flecheiros.

Além de toda a habilidade de sobrevivência no sertão, um conhecimento milenar acumulado pelos povos nativos, alguns historiadores afirmam que o furor guerreiro bandeirante era fruto da influência Tupi. Os antigos tupis, diferentemente daquilo que nos ensinaram sobre o mito do “bom selvagem”, eram etnias marciais e a guerra tinha um papel sagrado e constante em suas vidas. Não é difícil vislumbrar, portanto, que o núcleo de povoamento em que a herança indígena esteve mais presente também foi o mais disposto a prática e costumes guerreiros.

Por volta do século XVI, as populações do Piratininga já se viam, e também eram vistas, como um povo distinto ao português e aos colonos de outras capitânias. Situados nas regiões fronteiriças dos territórios coloniais portugueses e espanhóis, seu espírito rebelde e autônomo incomodava politicamente as duas coroas europeias. Segundo o Padre Francisco Dias Tanho, eles eram “gente atrevida, belicosa, y sin ley, que solo tienen de cristianos el bautismo”. Um povo mestiço, marcado por costume indígenas e rebelde frente aos poderes coloniais: não estaria aí um herói perfeito para as narrativas progressistas? Essa é mais uma amostra da falta de consistência dos que insistem em dividir, de forma simplista, a história dos povos entre “bons” e “malignos”, “oprimidos” e “opressores”.

Se analisarmos os seus feitos sem o peso do moralismo progressista, os bandeirantes, de fato, são dignos de mitos e epopeias. Como amostra da grandeza citada, há o feito titânico de Raposo Tavares: uma marcha a pé, atravessando o continente, em que seguiram milhares, mas retornaram poucos. No retorno, de tão desfigurados pela jornada, não foram reconhecidos pelos familiares e nem pelos leais cães domésticos. Nas palavras de Carlos Alberto Nunes, escritor maranhense e tradutor de Homero, Shakespeare e Virgílio: – “Se pensássemos em mitos, como os gregos, e sublimássemos o passado, com pequeno esforço de imaginação poderíamos concretizar ao redor do nome desse bandeirante mais uma variante da Odisseia”.

Evidentemente, há aspectos reaproveitáveis em ambas interpretações: como os progressistas, não acreditamos que os bandeirantes civilizaram os nativos, haja vista que que eles não precisavam ser “civilizados”. Nos mantemos firmes, entretanto, na posição de enxergar as bandeiras como acontecimentos míticos, fundantes e heroicos. Não porque elas foram uma ponta de civilização europeia iluminando o sertão, ou porque supostamente portavam uma fagulha da mentalidade liberal empreendedora, como aquela que animou os pioneiros dos Estados Unidos. Elas são heroicas por sua vontade de poder e por seus feitos sobre-humanos, independentemente de seus fins ou de suas vítimas. As bandeiras não foram um rastro da civilização europeia no sertão, mas, sim, a própria civilização do sertão: – dois povos “bárbaros” que se uniram nessa terra inóspita e criaram uma nova raça capaz de conquista-la.

Sendo assim, por que não atualizar e resgatar esse mito?

Nós, brasileiros do século XXI, somos muito mais “mamelucos bandeirantes” do que portugueses ou tupis. De todos os povos novos nascidos do encontro desses dois mundos, o europeu e o indígena ibero-americano, os paulistas de Piratininga podem ser considerados os mais antigos.

Eles foram, aliás, a primeira semente de tudo quanto floresceria no futuro: um povo novo que não é português, nem Tupi e nem Bantu, mas que precisa se reconstruir em meio aos desafios do sertão infindo.

Guilherme Chaves Herrero

Graduando em história, responsável pelas artes do Laokratia, e membro da NR-SP.

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