Andrew Korybko: “A Guerra Híbrida chegou aos EUA”

O assassinato de Floyd George por um policial americano causou indignação no mundo inteiro. Protestos eram inevitáveis, e muitos pessoas comemoraram diante das cenas de prédios em chamas. Mas e os ataques a pequenos empreendimentos? E os linchamentos de pessoas que estão tentando defender seus negócios? E os ataques a mendigos? Afinal, o que há por trás das desordens que ocorrem nesse momento nos EUA? É apenas “justa indignação” ou parte de uma operação dirigida pelo “Deep State” tendo em vista as eleições presidenciais do final do ano? Andrew Korybko, autor do livro “Guerras Híbridas”, fala sobre isso aqui.

Dezenas de Desestabilizações

Está se tornando norma os comentaristas opinarem que “a América está mais dividida do que nunca” a cada dia que passa, mas isso na verdade é um reflexo preciso da realidade atual, especialmente no contexto dos tumultos de quase uma semana que tomaram conta de dezenas das grandes cidades americanas. O pretexto para essa desestabilização é a morte de George Floyd nas mãos de (ou melhor, sob o joelho de) um policial de Minneapolis, mas ao invés de protestos pacíficos inspirados em Martin Luther King serem o método através do qual os enlutados memorializam o homem que muitos acreditam ter sido vítima de um abuso de poder racista por parte da polícia, muitos deles em vez disso exploraram esse incidente como um pretexto conveniente para realizar uma onda de crimes em âmbito nacional. Pilhagens e saques tem infelizmente caracterizado muitos desses supostos “protestos pacíficos”, dividindo ainda mais os americanos no processo.

“Os Manifestantes são Revolucionários Heróicos Dedicados à Paz e à Justiça!”

Aqueles que apóiam essas multidões violentas que estão se espalhando por todo o interior do país acreditam que esses crimes de destruição são “atos legítimos de protesto” ou mesmo o início de um “movimento de resistência revolucionário”. Não importa para eles que pessoas inocentes e seus bens estejam sendo atacados porque os perpetradores tendem a ser afro-americanos, o que lhes dá carta branca para fazerem o que quiserem aos olhos de praticamente todos os críticos dos EUA, sejam eles esquerdistas ou “anti-imperialistas”. Alguns chegaram a inventar a ridícula teoria de que todo criminoso capturado pelas câmeras é na verdade um “policial disfarçado” ou “supremacista branco”, o que desafia a crença, pois é óbvio, pela infinidade de filmagens disponíveis, que estes são apenas puros oportunistas que viram uma chance de roubar coisas e causar estragos. No entanto, esses criminosos estão sendo saudados como heróis, e qualquer reação de autodefesa a eles é enquadrada como um “crime de ódio racista”.

“Esses revoltosos são criminosos perigosos que estão punindo coletivamente os inocentes!”.

Isso inverte a análise para discutir as opiniões daqueles que se opõem ferozmente a esse violento colapso da lei e da ordem nas grandes cidades americanas. Os indivíduos com essa disposição de princípio não acreditam que pessoas inocentes ou seus bens devam ser punidos por causa de multidões violentas que estão loucas por algo que nada tem a ver com suas possíveis vítimas. Simplesmente viver nos EUA não é uma desculpa para punir coletivamente uma pessoa inocente, tampouco a raiva que se possa ter pelo governo americano é desculpa suficiente. A partir de inúmeras conversas e observações aguçadas, certamente parece que os apoiadores dos desordeiros são movidos por considerações ideológicas relacionadas às suas opiniões sobre raça (ou seja, “culpa branca”), política interna (“anti-Trumpers”), e/ou assuntos externos (“anti-imperialismo”). Estas são aparentemente importantes o suficiente para que essas pessoas tenham precedência sobre a moralidade e justifiquem a punição coletiva de americanos inocentes.

Para onde foram as preocupações da América com o COVID?

Em meio a tudo isso e antes de analisar o contexto maior em que essas desestabilizações estão se desdobrando, deve ser apontado que as preocupações da América com a COVID-19 parecem ter evaporado no ar. A pregação de terror da mídia hegemônica sobre a suposta infecciosidade e subsequente letalidade do vírus no centro desta pandemia global não é encontrado mais em lugar algum, apesar de ter dominado o ciclo de notícias durante a maior parte do ano. Sumiram os protestos televisivos contra o movimento de protesto anterior que se manifestava pacificamente contra o lockdown e que os “formadores de opinião” da mídia diziam estar colocando a nação inteira em sério risco epidemiológico. Em vez disso, essa narrativa – esteja certa ou errada – desapareceu porque seria “politicamente inconveniente” aplicá-la aos desordeiros apoiadores dos democratas que não só estão causando destruição física, como também teriam sido acusados de desencadear “armas de destruição em massa” epidemiológicas.

A Guerra Híbrida contra a América (de Trump)

A politização da resposta do governo americano ao surto global do coronavírus (Guerra Mundial C) foi até agora a manifestação mais dramática do que o autor descreveu anteriormente como a Guerra Híbrida contra a América de Trump, que se refere ao uso de táticas de mudança de regime, como a intensa guerra da informação, a fim de influenciar o resultado das eleições deste mês de novembro. A economia foi simplesmente um dano colateral neste conflito não convencional em curso, mas essa campanha se intensificou após a morte de Floyd na semana passada, após aquele trágico evento, servindo de pretexto para uma onda de crimes em todo o país disfarçada de forma pouco convincente como um chamado “movimento de protesto pacífico”. Algumas forças políticas acreditam sinceramente que os desordeiros têm um sério “potencial revolucionário”, enquanto outras desejam silenciosamente (embora poucos o admitam) que Trump apenas ordene aos serviços de segurança que usem força letal para que possam então fingir que ele se tornou um “ditador fascista”.

Tanto os inimigos ideológicos internos da América, como os ligados ao “Deep State”, estão se coordenando tacitamente entre si para estes dois fins aparentemente contraditórios. Os primeiros estão fazendo tudo o que podem para “justificar” o ataque sem sentido a pessoas inocentes e seus bens, enquanto os segundos estão ordenando à polícia que abandonem seus postos aos amotinados e, em geral, fazendo tudo o que podem para forçar o Trump a escalar a resposta de segurança do país para o nível federal. Ele ainda tem que assumir o controle federal da Guarda Nacional, como tem o direito legal de fazer durante uma crise, mas continua sendo uma possibilidade distinta, especialmente depois de seu tweet ameaçador avisar que ele vai ordenar que eles assumam o controle se necessário e muito possivelmente até atirar nos saqueadores se não houver outro recurso realisticamente disponível no momento para dispersar as multidões violentas. Para facilitar a tarefa do governo federal de garantir a segurança do país, Trump prometeu designar o Antifa como um grupo terrorista.

Antifa: “Vanguarda Revolucionária de Esquerda” ou “Organização Terrorista Doméstica?”

Esta organização é anunciada como uma vanguarda revolucionária de esquerda por seus apoiadores, mas fortemente condenada como uma organização terrorista doméstica por seus opositores. Independentemente do que se sinta sobre suas políticas e táticas, é indiscutível que o grupo utiliza estratégias clássicas das Revoluções Coloridas que foram instrumentalizadas em todo o mundo por agências de inteligência americanas nas últimas três décadas com o propósito de mudança de regime. No entanto, como o autor escreveu há mais de quatro anos, em abril de 2016, “A Tecnologia das Revluções Coloridas não é Preto-no-Branco”, pois ela está se proliferando rapidamente pelo mundo, não mais sob o controle exclusivo das agências de inteligência americanas, e pode assim teoricamente ser aplicada para o que quer que se acredite ser uma agenda “positiva” (como desestabilizar governos apoiados pelos EUA aos quais uma pessoa possa se opor ou mesmo utilizar criativamente algumas estratégias com o propósito de “reforço do regime” contra as ameaças de mudança de regime).

Como em tudo o que é político, a postura de alguém em relação à Antifa será, sem dúvida, subjetiva, mas o que é objetivo é como os países que a maioria dos aliados da Antifa apóiam têm respondido a grupos semelhantes. Ter visões positivas em relação à Rússia, à China, ao Irã e/ou à Síria, por exemplo, não faz de nós automaticamente um inimigo ideológico dos EUA, mas muitas das pessoas que defendem a Antifa e o resto dos desordeiros que estão tendo como alvo pessoas inocentes e seus negócios tendem a gostar de pelo menos um dos Estados acima mencionados. Nenhum deles, no entanto, tem qualquer tolerância a atividades semelhantes às da Antifa. Os membros da SCO (tanto oficiais como a Rússia e observadores como o Irã) estão oficialmente unidos em sua oposição ao terrorismo, ao extremismo e ao separatismo, e este grupo e seus aliados desordeiros encarnam orgulhosamente as duas primeiras ameaças. A China usou força letal para reprimir motins em Xinjiang em 2009, a Síria fez o mesmo em 2011, e o Irã seguiu o mesmo caminho no final do ano passado.

O Duplipensar da Mídia Alternativa

A maioria dos membros da Comunidade Alt-Media (que em geral são, no mínimo, simpáticos à Antifa e aos desordeiros, se não se tornaram seus partidários na guerra de informação na recém intensificada Guerra Híbrida na América na semana passada) apoiou os direitos desses estados de defenderem a si mesmos e às pessoas inocentes que estavam sendo visadas pelas multidões desordeiras, mas não estendem o mesmo apoio ao governo americano ou aos americanos comuns. Só eles podem explicar as razões por trás de sua gritante duplicidade de critérios, mas uma explicação provável é que suas posições são movidas por considerações ideológicas, principalmente seu ódio ao governo americano e seu desejo de punir coletivamente todos no país que não pegarem em armas contra o Estado por fins “revolucionários”. Se for esse o caso, então isso poria em questão um dos principais argumentos apresentados pela Comunidade Alt-Media para defender a Rússia, a China, o Irã e a Síria.

Nenhum outro apelo foi mais utilizado ao defender o seu lado contra ataques da mídia hegemônica do que lembrar a todos que pessoas inocentes que não tem nada a ver com os problemas de seu governo com os EUA estão sendo vitimizadas pelas tentativas de guerra híbrida sendo aplicadas contra eles. Isso é certamente verdade, mas esse apelo à moralidade é na maioria das vezes insincero, já que o mesmo padrão não é aplicado aos americanos comuns. Não há nenhuma conspiração estrangeira em jogo na agitação atual, pois os perpetradores são todos domésticos (sejam eles inimigos ideológicos do país e/ou alguns de seus agentes traidores do “Deep State”), mas pessoas inocentes e seus bens também estão sendo alvo. Ainda assim, os apoiadores da Antifa e dos desordeiros não vêem nenhum problema com isso, apesar de condenarem tais ataques sempre que ocorrem contra inocentes não-americanos.

Subindo a Escada de Escalada

A hipocrisia dos apoiadores dos desordeiros e da quase totalidade da Comunidade Alt-Media à parte (que curiosamente papagueiam as mesmas narrativas, neste caso, que seus supostos “rivais” da mídia mainstream), a situação está rapidamente se agravando e se aproximando do que parece ser um clímax inevitável. Nenhuma sociedade na história da humanidade jamais sobreviveu deixando que atos de violência em larga escala continuem a ser cometidos impunemente contra seus cidadãos, e os EUA certamente não são uma exceção a esta lei não oficial da ciência política. Assim, há uma grande chance de que as forças de segurança acabem usando força letal para dispersar essas multidões desordeiras, já que táticas não letais têm sido em grande parte ineficazes. Eles podem até ter que fazê-lo sob as ordens diretas de Trump, já que alguns agentes do “Deep State” nas cidades mais devastadas já ordenaram anteriormente que suas forças policiais parassem em vez de defender pessoas inocentes e seus bens, como deveriam fazer.

Atirar para Matar

Para o bem ou para o mal, as forças de segurança americanas podem muito em breve atirar para matar, assim como suas contrapartes na Rússia, China, Irã, Síria e outros países adulados pela Comunidade Alt-Media têm feito em situações semelhantes. Esta não só é uma forma muito eficaz de responder a motins, mas também pode servir como um poderoso dissuasor para novos atos de agitação. Além disso, estaria inteiramente dentro dos direitos das forças de segurança responder dessa forma, já que os “direitos” políticos das pessoas perdem seu significado no meio de uma emergência de segurança pública em andamento, o mesmo que eles fazem em qualquer lugar do mundo. A restauração da lei e da ordem é um pré-requisito para garantir a segurança do público, para que pessoas inocentes não sejam punidas coletivamente pela multidão desenfreada. Só então o país poderá começar a reabrir adequadamente após a devastação econômica do fechamento da COVID-19, o que, por sua vez, contribuirá diretamente para a melhoria do padrão de vida da população.

Da COVID-19 ao Caos da Revolução Colorida

Isto traz à mente a observação de que a politização da resposta do governo à Guerra Mundial C foi indiscutivelmente armada como parte da Guerra Híbrida contra a América de Trump, como o autor explicou anteriormente, o que faz do caos da Revolução Colorida em curso nas ruas a próxima fase desta campanha cada vez mais intensa. Essa manifestação inicial não-cinética foi impulsionada por interesses partidários, daí porque foi descrita como sendo contra a “América do Trump” mesmo que também tenha prejudicado os interesses dos americanos que não votaram nele, mas a fase atual dessa Guerra Híbrida é contra a América como um todo porque utiliza meios cinéticos (físicos) para literalmente fazer guerra ao país sem qualquer discriminação política contra suas possíveis vítimas. Seja democrata ou republicano, caucasiano ou afro-americano, todo americano e seus bens podem ser potencialmente alvo desta campanha. Pior ainda, esses atos de terrorismo urbano estão sendo orgulhosamente defendidos por muitos.

Pensamentos Finais

A Guerra Híbrida na América está rapidamente saindo de controle, e Trump parece destinado a projetar a ótica de se tornar o chamado “ditador fascista” que os seus oponentes tem propagandeado que ele tem sido há anos, ordenando às forças de segurança que usem a força letal como último recurso para restaurar a lei e a ordem. Esta campanha de mudança de regime que é ativamente orquestrada pelos inimigos ideológicos internos do país e pelos agentes do “Deep State” depende do sacrifício humano dos elementos criminosos da sociedade para que eles possam desencadear uma “guerra racial” no caso dos saqueadores afro-americanos serem mortos em massa durante a agitação. Por outras palavras, apesar de afirmarem apoiar os interesses demográficos desta população, eles estão na verdade mais do que ansiosos por sacrificá-los em busca do “bem maior” da “causa”, tal como a concebem. Mesmo assim, essa “causa” está em risco de retrocesso, uma vez que essas desestabilizações em todo o país podem apenas melhorar as chances de Trump de reeleição com uma plataforma de lei e ordem.

Fonte: One World

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro "Guerras Híbridas".

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