O Último Testamento de Linkola: “O homem se agita quando a sua economia está ameaçada, não pelo planeta”.

Há pouco mais de um mês faleceu Pentti Linkola, o filósofo finlandês que foi o mais radical dos ecologistas do século XX. Apesar dos traços misantrópicos de seu pensamento, ele indubitavelmente tem muito a nos ensinar. Encontramos e traduzimos, para nosso público, as suas últimas entrevistas, feitas ainda em março, já durante a pandemia do novo coronavírus. Nessas entrevistas, Linkola opina sobre o impacto da pandemia e sobre as perspectivas para o futuro da espécie humana.

Pentti Linkola, o ambientalista mais radical do século XX, faleceu em 5 de abril de 2020, enquanto dormia. Nós já fizemos os comentários necessários sobre ele quando de seu falecimento. Encontramos, porém, dois artigos sobre Linkola na internet, contendo as suas últimas entrevistas, concedidas ainda esse ano durante a pandemia, e que constituem, muito provavelmente, as últimas declarações públicas feitas por Linkola.

Essa é uma das últimas entrevistas dadas por Linkola antes de seu falecimento:

Erkki Kiviniemi teve uma curta conversa telefônica com o filósofo, autor e pescador Pentti Linkola. “O homem se agita quando a sua economia está sob ameaça, não pelo planeta”.

Qual é a sua reação à atual pandemia e seu impacto?

O coronavírus pode engasgar ligeiramente a destruição do planeta Terra, mas quando for vencido, o mesmo modo de vida continuará. Enquanto o progresso e o desenvolvimento econômico forem os objetivos centrais do homem, a salvação da Terra está fora de cogitação.

Como você vê o futuro na Terra?

Sou um pessimista. O homem é a espécie mais horrível produzida pela evolução, mesmo que tenha criado grande cultura e civilização. Há atores menores na esfera cultural que podem retardar um pouco as más trajetórias. O vírus também pode criar algo de bom. A qualidade do ar já melhorou em muitos lugares, pois a quantidade de vôos diminuiu. Um dos bons atores é a Fundação Finlandesa do Patrimônio Natural, cuja gerente executiva é Anneli Jussila. Ainda assim, o quadro geral é destrutivo. O homem aproveita sua inteligência para o crescimento econômico. Esse é o constante telos central e inquestionável. Então não há esperança.

Alguns jovens parecem ter esperança de mudança. E se esse vírus for mais difícil de ser vencido do que os anteriores?

Esse será vencido também. Não quero negar a posse de esperança, mesmo que as perspectivas sejam terríveis.

Como você está se sentindo pessoalmente?

Eu sou um velho aleijado. Ando com uma bengala dentro de casa. Eu não tenho energia para acompanhar essas coisas de corona. Ajuda um pouco, mas as mudanças climáticas e a extinção de espécies são coisas esmagadoramente mais amplas. Agora o homem fica agitado, quando sua economia está ameaçada, não por conta do planeta.

Encontramos, ainda, outra de suas últimas entrevistas:

Hämeen Sanomat entrevistou Pentti Linkola em março. Na época Linkola via um lado positivo na pandemia do coronavírus: vôos de longa distância são inúteis, porque o homem não é uma ave.

O ano de 2020 será lembrado pelo coronavírus

Conservacionista natural, filósofo da floresta, pescador e ecologista profundo Pentti Linkola não vê a humanidade aprendendo com a pandemia mundial em curso.

Linkola chama por mudanças no estilo de vida, mas:

“Quando o corona tiver sido afastado, será fácil retornar ao velho modelo. A medicina moderna vai derrotar este vírus”.

Linkola, que critica a sociedade de consumo ocidental, tem repreendido com freqüência o estilo de vida finlandês, que diz depender do êxtase criado por uma economia de mercado, pelo culto acrítico à tecnologia e pela silvicultura e agricultura industrializadas.

Embora o corona tenha fechado países inteiros, Linkola vê um lado positivo na pandemia para os humanos.

“De fato, ele retarda a destruição final da humanidade quando o peso das viagens aéreas é reduzido. Os voos de longo curso são completamente inúteis para se viver, em primeiro lugar, o homem não é uma ave”.

O que sobrou na sombra do coronavírus? Devemos nos preocupar mais com algo mais?

O homem deveria se preocupar com as mudanças climáticas e com a ameaça de extinção.

Desde os anos 50, Linkola tem falado sobre como a pressão sobre o meio ambiente deve ser reduzida e a explosão populacional humana deve ser evitada.

Muitos pesquisadores estimam que a vida humana vai acabar por causa de vírus para os quais os humanos não têm imunidade. Especula-se que à medida que a mudança climática progride o permafrost pode revelar supervírus que estão dentro do gelo há dezenas de milhares de anos.

Por exemplo, os pesquisadores franceses Chantal Abergel e Jean-Michael Claverie reviveram uma amostra de vírus de 30 mil anos que era inofensiva para os humanos, encontrada no permafrost siberiano em 2015.

Você já se preparou para o coronavírus de alguma forma, Pentti Linkola?

Eu vivo sozinho, o coronavírus não me preocupa.

Deixe uma resposta