Coronavírus: A Verdade sobre Li Wenliang

Na guerra de narrativas travada entre EUA e China no que concerne a pandemia e a responsabilidade pelas mortes ao redor do mundo, a mídia ocidental tomou como bandeira o nome do dr. Li Wenliang, oftamologista de Wuhan que teria “denunciado” a epidemia nas redes sociais e que, por isso, teria sido “censurado” e “perseguido” pelo “governo comunista chinês”.

Foi realmente isso que aconteceu? Nesse texto, se apresenta a realidade sobre Li Wenliang, os seus comentários em redes sociais, a sua posição em relação ao governo chinês e a hipocrisia da instrumentalização de sua morte pelos governos e conglomerados midiáticos ocidentais.

É uma banalidade dizer que a pandemia de Covid-19 trouxe à tona os esforços e sacrifícios feitos principalmente pelos profissionais da saúde – médicos e enfermeiros em primeiro lugar – que pagaram e estão pagando um preço alto em termos de fadiga e vidas humanas em todo o mundo. Isto é verdade, independentemente das críticas e dos problemas relativos ao papel dos técnicos no influenciar e determinar as decisões políticas, da mesma forma que em um conflito bélico o trabalho muitas vezes questionável dos generais não deve fazer-nos esquecer o sofrimento e os esforços dos soldados na frente. Entre os muitos médicos que caíram nesta dura luta, um dos mais famosos é o chinês Li Wenliang.

Seu caso se tornou particularmente famoso por sua suposta ação de “denúncia” contra a censura imposta pelo governo chinês. Entretanto, os fatos estabelecidos mostram uma realidade muito diferente das narrativas interessadas que tem prevalecido no Ocidente, e que ajudam a explicar a realidade chinesa, muito diferente das democracias liberais, mas também dos totalitarismos clássicos do século XX. Isso também depende da abrangência dos modernos meios de comunicação que permitem uma circulação de informações e dados, até algumas décadas atrás impensável. As informações que seguem têm circulado amplamente não só nas redes sociais, mas também na mídia chinesa.

Li Wenliang (李文亮) nasceu em 12 de outubro de 1986, em Beizheng, Província de Liaoning, no sul da Manchúria. Ele pertencia ao povo manchuriano, terceiro em população entre as 55 comunidades étnicas reconhecidas na China, e conhecido por expressar a última dinastia imperial, a Qing. Depois de passar o temível gaokao com excelentes notas, foi admitido na Faculdade de Medicina da Universidade de Wuhan, uma das 10-15 melhores universidades da China. Em seu segundo ano de universidade, foi admitido no Partido Comunista Chinês, como prova de sua preparação e determinação, bem como de sua consciência política. Basta dizer que, em 2014, dos 22 milhões de candidatos, apenas 2 milhões tinham sido aceitos.

Após se graduar, ele se especializou em oftalmologia em Xiamen, e depois começou a trabalhar como oftalmologista no Hospital Central de Wuhan. Ele não era, portanto, um especialista em virologia, mas em 30 de dezembro de 2019 (no dia seguinte, a China relatou à OMS a presença de um surto de pneumonia por causas ainda desconhecidas) em Wuhan ele havia lido um relatório, de Ai Fen, diretor do departamento de emergência, certificando a presença de casos de SARS. Ele então espalhou o boato no grupo WeChat de seus colegas de universidade: “Há 7 casos confirmados de SARS no Mercado de Peixes de Huanan”, anexando a foto e o vídeo da reportagem, mas especificando: “Não circule a informação fora deste grupo. Diga à sua família e entes queridos para tomarem precauções”. Como sempre acontece nesses casos, seu pedido logo foi ignorado e a captura de tela começou a circular na Internet.

Imagem da notificação policial que Li Wenliang teve que assinar

Como resultado, ele foi repreendido pelas autoridades hospitalares e, em seguida, em 3 de janeiro, foi convocado pela Polícia Municipal. Li (como outros médicos) havia recebido um advertência por escrito por “propagar falsas afirmações na Internet” e “perturbar seriamente a ordem social”. O documento continuava, com paternalismo confucionista: “A autoridade policial espera que você coopere com nosso trabalho, que ouça a admoestação dos policiais e deixe de conduzir atividades ilegais. Você pode fazer isso? […] Aconselhamos que você se acalme e reflita bem bem. Nós o advertimos severamente: se você for teimoso, não mostrar arrependimento e continuar conduzindo atividades ilegais, você será punido pela lei. Você entende?” Após responder sim e assinar a advertência, Li pôde voltar ao trabalho sem mais nenhuma punição. No dia 8 de janeiro, visitando um paciente que sofria de glaucoma, ele contraiu o Covid-19 e após quatro dias foi hospitalizado e colocado em quarentena.

Entretanto, também devido ao surto da pandemia, o caso de Li e outros médicos, admoestados pelo mesmo motivo, foi reexaminado. Em 4 de fevereiro, o Supremo Tribunal Popular, a mais alta autoridade judicial, decidiu a seu favor, argumentando que suas declarações não eram totalmente falsas e que, em retrospectiva, teriam sido de utilidade pública. O médico chinês havia comentado positivamente esta resposta, mas no dia seguinte sua situação já havia se agravado. No dia seguinte ele foi transferido para os cuidados intensivos, mas sem sucesso, morrendo algumas horas depois, na manhã de 7 de fevereiro. Ele deixou uma viúva (grávida) e uma criança pequena.

Na época de sua morte, que teve ampla cobertura midiática, Li Wenliang já havia se tornado uma figura popular entre o público chinês. Nos meses seguintes, a polícia local pediu desculpas à sua família e os policiais responsáveis também foram punidos. Junto com os outros médicos que morreram durante a epidemia, ele foi celebrado como um mártir pelas autoridades chinesas.

Dessa história, muitas reflexões emergem, a começar por como a figura de Li foi completamente deturpada: ele não era um “denunciante”, muito menos um opositor anti-regime. Sua rapidez ao revelar, embora para alguns amigos, informações confidenciais foi inicialmente repreendida, mas depois totalmente e rapidamente reabilitada na esteira da mudança dos eventos. A pressão popular certamente jogou a seu favor, confirmando a precisão da frase “leninismo responsivo” ou “autoritarismo responsivo”, usada para descrever a sensibilidade do governo chinês ao input da população.

Por outro lado, a propaganda anti-chinesa mostrou mais uma vez sua hipocrisia, se considerarmos que mesmo no Ocidente existem regras que punem este tipo de conduta. Por exemplo, na Itália, o art. 656 do Código Penal pune com prisão de até três meses “a publicação ou difusão de notícias falsas, exageradas ou tendenciosas, suscetíveis de perturbar a ordem pública”, mas o art. 326 do Código Penal ameaça o funcionário público que “revela notícias de ofício, que devem permanecer em segredo” com prisão de seis meses a três anos. Para não falar da histeria da mídia que agora envolve as chamadas fake news, reais ou presumidas.

Em todo caso, o camarada comunista (同志), Li Wenliang, certamente não teria querido ser explorado pelos inimigos de sua Pátria. E o Ocidente, que vem perseguindo (entre muitos) Assange e Manning há anos, deveria ter o bom gosto de não fazer dele sua própria bandeira.

Fonte: Osservatorio Globalizzazione

Andrea Virga

Historiador, PhD em história política e autor do livro Cuba: Dio patria socialismo.

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