Rumo ao Mar Multipolar

Nosso articulista analisa a expansão da Marinha chinesa sob a perspectiva multipolar.

A ciência da geopolítica faz comumente uso do dualismo geográfico “terra e mar”. As grandes potências mundiais são assim classificadas como potências da terra ou potências do mar, de acordo com suas atitudes. Um país que escolhe se desenvolver pela terra possui foco em um crescimento regional, demarcado pelos limites terrestres do continente, buscando afirmar uma zona de influência em determinado local. As potências que escolhem se desenvolver pelo mar tendem a se expandir para fora de suas zonas continentais, criando zonas de influência em qualquer continente ao qual cheguem pelas vias marítimas.

Tradicionalmente, Rússia e China são classificadas como potências terrestres e os Estados Unidos da América como uma potência do mar. A nação americana é herdeira histórica da Inglaterra, que durante muito tempo reinou soberana pelos oceanos. A geopolítica americana, assim, é baseada em táticas de expansão pelo mar, permitindo a esse país a ação em zonas fora de seu continente, influenciando o mundo inteiro e garantindo assim seu poder hegemônico global.

Ocorre, porém, que o avanço da Marinha chinesa pode acabar definitivamente com essa supremacia naval americana. Uma frota chinesa em treinamento recentemente retornou à sua base, terminando uma viagem longa e ousada de mais de 40 dias por diversas regiões do Oceano Pacífico, zona sobre a qual há muito tempo os EUA alegam manter supremacia. A missão foi um exercício militar completo e extremamente avançado, havendo sido realizados treinamentos de resgate, disparos de canhão, lançamento de mísseis e reabastecimento de navio. Em sua frota, os chineses levavam equipamentos diversos, como o destroier de mísseis guiados Hohhot, a fragata de mísseis Xianning, o navio de vigilância eletrônica Tianshuxing e o navio de reabastecimento Chaganhu.

Com o exercício, a China cruzou a Linha Internacional de Mudança de Data, que delimita as zonas Oeste e Leste do globo. “Atravessar a Linha Internacional de Mudança de Data significa que a Marinha chinesa está ativa não apenas no oceano Pacífico Ocidental, mas que avançará no Pacífico Central e Oriental gradualmente”, afirmou o especialista naval de Pequim, Li Jie. Segundo esta especialista, a China demonstrou ter capacidade suficiente para acabar com a supremacia naval americana nos oceanos nos próximos anos, estando habilitada para navegar livremente por qualquer zona, inclusive o Oceano Atlântico.

Em um primeiro momento, alguns podem pensar que a China está provocando os EUA com esses atos. Mas, na verdade, trata-se de uma resposta. Por muito tempo, a supremacia naval americana criou a falsa ideia de que estas zonas do Pacífico e do Atlântico fossem algum tipo de “território americano”. Isso é um mito a ser derrubado. Os oceanos possuem um estatuto jurídico próprio, que os coloca como “territórios internacionais” – zonas sobre as quais nenhum Estado pode reivindicar soberania. Além disso, as políticas marítimas de Washington têm se tornado cada vez mais agressivas.

Há pouco tempo, os EUA lançaram dois drones de reconhecimento MQ-4C Triton para a base da Força Aérea de Andersen, em Guam. O objetivo dos militares americanos com esses drones é, publicamente, espionar as atividades militares da China e da Coreia do Norte, captando informações de vigilância que são imediatamente repassadas ao Pentágono. “A introdução do MQ-4C Triton na área de operações da Sétima Frota aumenta o alcance de patrulha marítima e a capacidade de reconhecimento da Marinha dos EUA no Pacífico ocidental”, afirmou o comandante da Marinha dos EUA Peter Garvin. Esses drones possuem uma autonomia de 13.000 quilômetros e podem voar por até 24 horas, segundo dados da Military Watch. Sua atuação incessante pela zona pacífica coletará mais informações de inteligência sobre China e Coreia do Norte do que qualquer outra tecnologia até então utilizada para a mesma função.

Também esse ano, os EUA enviaram às Ilhas Spratly, território disputado no sul da China, um navio de guerra, em resposta à instalação de bases militares chinesas na região. Os americanos chamam essas manobras de “operações de liberdade de navegação” e alegam que são movimentações marítimas pacíficas. Porém, qual seria o “interesse pacífico” em enviar navios de guerra extremamente equipados e preparados para o combate real até zonas ocupadas por uma potência regional nos seus arredores continentais?

Podemos ver aí a distinção entre uma potência do mar e uma potência da terra. A China reivindica soberania sobre uma série de ilhas próximas de seu território, que integram o seu subcontinente. Os EUA, porém, com sua geopolítica marítima, tentam intervir em zonas completamente fora de seu território continental e atuam assim como uma polícia global, fiscalizando as operações militares de qualquer país do mundo.

No fim do ano passado, Pequim exigiu oficialmente que os EUA cessassem com suas “operações de liberdade de navegação” em ilhas do mar do sul da China, classificando tais operações como provocatórias. Como podemos ver, Washington ignorou arbitrariamente o requerimento chinês e agora está lidando com uma simples resposta do país asiático, que, pela primeira vez, realizou operações marítimas de mesmo teor.

O que estamos testemunhando é a mudança de atitude da China em relação à sua geopolítica, de um programa terrestre para um programa de maior atenção para os mares. É provável que em pouco tempo Pequim esteja disputando a soberania dos oceanos com os EUA e isso possibilitará que outros países de mesmo potencial empreendam projetos de mesma natureza, criando um mar verdadeiramente multipolar.

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

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