EUA e OTAN querem transformar o Ártico no novo Oriente Médio

Negligenciado ao longo das últimas décadas, graças ao foco atlantista no Oriente Médio, o Ártico começa a ver uma crescente presença militar americana e da OTAN, o que põe em risco a segurança internacional e aumenta as chances de uma nova guerra mundial. 

Esta semana, a Marinha americana divulgou, em vídeo, a emersão de seu poderoso submarino USS Toledo no Ártico, em claro ato de propaganda militar. A manobra foi conduzida como parte do programa Ice Exercise (ICEX), que consiste em uma série de testes militares americanos no Ártico a serem realizados nas próximas três semanas. Além do USS Toledo, o igualmente poderoso submarino USS Connectcut também foi enviado ao Ártico. Ao ser entrevistado acerca dos exercícios no Ártico, o vice-Almirante americano Dary Caudle afirmou “O Ártico é um corredor estratégico potencial – entre Indo-Pacífico, a Europa e os EUA […] A força submarina deve manter a prontidão, treinando nas condições do Ártico para garantir que poderá proteger os interesses de segurança nacional e manter um equilíbrio de poder favorável no Indo-Pacífico e na Europa, caso seja necessário”.

Os testes americanos devem ser analisados com profundidade, levando em conta todo o contexto no qual estão inseridos. A OTAN anunciou para esse ano o programa “Ice Response 2020”, a ser conduzido pelos países da aliança militar, com papel central a ser ocupado pela Noruega em razão de sua condição geográfica. O programa consiste em uma série de operações militares que deveriam ser realizadas entre os dias 2 e 18 de março de 2020. Sem dúvidas, o programa possui uma clara natureza provocativa e pode ser comparado ao “Defender Europe 2020”, sendo ambos projetos da OTAN para provocar reações da Rússia. Contudo, os testes foram cancelados em razão da epidemia do coronavírus.

Em paralelo, no começo desse ano, EUA e Canadá iniciaram outro programa militar com intuito de fazer frente à presença russa no Ártico, o chamado “Arctic Edge 2020”. Nesse programa, ambos os países conduziram exercícios na região do Alasca, testando sua capacidade de defesa em baixas temperaturas. Porém, a imagem que ambos conseguiram transmitir não foi promissora, revelando suas debilidades nessa área, não convencendo a opinião pública de que o Ocidente possui poder suficiente para conter a presença russa no Ártico em eventual caso de guerra. De acordo com o analista militar Ivan Konavolov, “eles (EUA e Canadá) fazem isso para mascarar a debilidade da OTAN na região. Há dois anos, a aliança conduziu exercícios massivos na Noruega, que não foram bem-sucedidos. Esses exercícios mostraram que as forças da OTAN não estão preparadas para manobras de grande escala”.

O grande enfoque dado pelos EUA ao Oriente Médio e ao Pacífico – e mais recentemente à América Latina – está custando caro à presença americana no Ártico. Por essa razão, Washington e toda a OTAN agora tentam recuperar seu prejuízo conduzindo manobras cada vez mais arriscadas na região, que põem a segurança internacional em risco desnecessariamente. A importância estratégica do Ártico tem sido enaltecida nos últimos anos. O derretimento das geleiras tem proporcionado a descoberta de novas reservas de petróleo e gás natural que até então não haviam sido exploradas, aumentando o interesse geral pela região. O pesquisador Hal Brands, da Universidade de Johns Hopkins, ressalta que “o mar de Bering pode se tornar um futuro golfo Pérsico e terá forte influência no cenário internacional. No entanto, os EUA já não têm mais lugar nessa região”.

A Rússia tem aumentado seu poder militar na região, aumentando o controle de rotas marítimas – principalmente a Rota do Mae do Norte – e criando um sistema de guarda costeira. O presidente Vladimir Putin declarou recentemente que “a realização da política estatal da Federação da Rússia no Ártico a partir de 2020 proporcionou […] a criação de um grupo de designação geral das Forças Armadas da Rússia na zona ártica do país, capaz de fornecer segurança militar em diferentes condições político-militares.” A China igualmente tem buscado elevar sua presença no Ártico como parte do projeto “Um Cinturão, Uma Roda”. Diante desse cenário, o Ocidente se torna cada vez mais agressivo. Os EUA manifestaram interesse em implantar mísseis de pequeno e médio alcance na região, logo após sua retirada do Tratado INF. O Pentágono está desenvolvendo um sistema de defesa no qual pretende, até 2023, implantar 20 mísseis interceptores no Alasca, onde já possuem 44 unidades militares implantadas.

Ainda, a OTAN criou no ano passado um novo comando do Atlântico Norte, aumentando significativamente sua frequência de exercícios no Ártico. Em Outubro, a Organização fez uma licitação para comprar um conjunto de “camuflagem de neve para operações no inverno”, que inclui 78.000 conjuntos de calça, casacos e mochilas especiais, todos com capacidade para resistir a temperaturas de 40 oC negativos, criando a suspeita de que a aliança militar do Ocidente estaria se planejando – ou ao menos se preparando – para uma blitzlkrieg contra a Rússia na região, caso as tensões aumentassem.

Acima de tudo, fica o questionamento: qual será o próximo passo do Ocidente? O petróleo e o gás certamente explicam uma parte considerável das movimentações militares e do interesse internacional pelo Ártico, mas não esgotam as razões pelas quais EUA e OTAN estão elevando sua presença no norte. Em verdade, o fato de a presença militar russa em uma região qualquer do planeta ser maior do que a americana já é razão suficiente para o desespero dos estrategistas sanguinários do Pentágono. A hegemonia alcançada pelo Ocidente no Oriente Médio custou a desatenção com o Ártico, somente agora percebida. E Washington não cessará de pôr o mundo em perigo para buscar sua hegemonia na região. Porém, confrontando o Ocidente no Ártico não estarão micro-Estados árabes impotentes, mas a Rússia.

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

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