Coronavírus: “Querem colocar a implosão do sistema atual na conta do vírus”

No coração de uma crise mundial inédita por sua amplitude, em busca de respostas, devemos indagar especialistas nas mais diversas áreas, para que possamos construir uma visão completa dessa situação sem precedentes.

Segundo o ensaísta belga Robert Steuckers, a atual crise econômica mundial é uma continuação da de 2008, que não foi devidamente solucionada, e cuja culpa se pretende atribuir à pandemia. Suspeitando ainda de uma origem laboratorial americana do vírus, Steuckers indica que o atual caos global pode ser usado pelas elites para o estabelecimento de um sistema totalitário de vigilância absoluta dos cidadãos.

Ademais, ele aponta que os países que desmontaram seus Estados ao longo das últimas décadas serão os mais atingidos.  

Le blog de Robert Steuckers: octobre 2019

Lemos muitos elementos contraditórios segundo diferentes fontes de informação disponíveis ou de acordo com opiniões dos profissionais de saúde. Para você, qual é, de fato, a realidade desta pandemia?

Não podemos excluir uma origem natural da pandemia (embora eu permaneça cético perante a fábula do pangolim e do morcego), mas devemos aceitar discutir uma outra hipótese: isso é um ato de guerra bacteriológica dirigida contra a China, o Irã e a Europa, os três principais focos da doença. O vírus mutante, porque o vírus é, ao que parece, mutante, poderia também ter escapado de um laboratório chinês, ou outro, mas então por que ele atinge os rivais da hegemonia, quase excluindo outras regiões do globo? Se a hipótese de uma guerra bacteriológica se revelar exata, poderíamos estabelecer o seguinte cenário: o centro nevrálgico da China foi atingido, sua indústria impulsionada pelas deslocalizações neoliberais no resto do mundo, sobretudo na Europa, fica reduzida, o que tem um efeito sobre sua moeda, capaz, a médio prazo, de suplantar o dólar. Ademais, essa recessão ou essa sabotagem trava a realização das famosas “rotas da seda”. O Irã, inimigo número um de certos círculos neoconservadores, é, por sua vez, atingido, país que então poderia facilmente se tornar o principal fornecedor de hidrocarbonetos para a China e um parceiro comercial mais importante da Europa, como no fim do regime do último Xá, com os acordos EURATOM, em particular. Essa é a tese de Houchang Nahavandi, ex-ministro do Xá e autor de livros muito importantes sobre a história recente e antiga do Irã, cuja leitura recomendo enfaticamente.

Na Europa, as calamidades se abatem sobre os elos mais fracos e sobre o principal motor da economia europeia, a Alemanha. A Grécia deve enfrentar a crise dos refugiados na sua fronteira trácia, enquanto sua saúde econômica e financeira está vacilante há uma década, na sequência da crise de 2008. Ela ainda escapa amplamente do coronavírus mas… Wait and see… A Itália, recorde-se, assinara acordos especiais, fazendo dela o trampolim da China na UE. A Espanha igualmente recebeu a crise da pandemia em cheio, porque ela também é uma economia fragilizada que pode levar à ruína o projeto europeu, favorecido pelos Estados Unidos nas décadas de 1940 e 1950, em seguida considerado concorrencial e colocado, nomeadamente pela doutrina Clinton, como “alienígena”, ou seja, como inimigo potencial, se não inimigo declarado. A França também foi afetada, ainda que, oficialmente, seja considerada aliada desde Macron, presidente formado intelectualmente por uma escola americana. Ela está sendo progressivamente esvaziada de seus expoentes industriais (Alsthom, Latécoère…) e pesadamente infestada pelo coronavírus, tudo simplesmente porque o hiperliberalismo a debilita desde a presidência de Sarközy, cortada nos setores essenciais, não mercadológicos, incluindo o setor médico. Sem um setor médico forte, bem estruturado, prevenindo todas as formas de pandemia, compreendendo aquelas que poderiam ser desencadeadas por um ataque bacteriológico, um país é o alvo ideal para esse tipo de operação.

A desgaullização da França, a partir de Sarközy, constitui o desmantelamento de um Estado que possuía reflexos clausewitzianos, almejado pelo militar De Gaulle, pelo menos em seus escritos teóricos, com a influência que exercia Raymond Aron, grande especialista em estratégia alemã do século XIX, em sua práxis original dos anos sessenta, que poderia ser descrita como um modelo de “terceira via” entre os dois blocos da guerra fria. Era uma resposta aos imperativos da Terceira República, fustigados por Simone Weil em Londres antes da sua morte em 1943, e à má gestão política da Quarta República.

Esses tipos de regime administram o curto prazo, o mesquinho e não preveem nada, o que implica a incapacidade de decidir em momentos oportunos e de fazer face a catástrofes imprevistas, como uma pandemia. “O suicídio francês”, descrito por Eric Zemmour, é justamente esse desmantelamento progressivo do Estado clausewitziano – com todos seus dispositivos postos em ordem, que sempre previam o pior –, o que a Quinta República queria ser quando da sua proclamação e sobretudo nos anos 1963-69.

A moral disso é que todo Estado ou grupo de Estados deve, imperativamente, se quiser sobreviver às tramas de seus inimigos (pois há sempre um inimigo, dizia Julien Freund), conservar seus trunfos industriais e rejeitar deslocalizações e fusões com corporações estrangeiras, manter as infraestruturas médicas sólidas e um sistema educacional/universitário eficiente.

Na Alemanha, os dispositivos previstos para uma pandemia foram conservados, o que explica uma melhor gestão da crise do coronavírus. No entanto, o futuro da Alemanha não é róseo: os fluxos de refugiados que se instalaram em seu território estão arruinando o sistema de seguridade social exemplar que foi implantado no pós-guerra e engendram desordem em todo o lado nas ruas das cidades; o principal parceiro da indústria alemã hoje é a China, mas essa dependência é frágil, os chineses acabam sempre por produzir as coisas de que precisam, especialmente carros. A indústria alemã apostou demais na exportação de seus excelentes automóveis, sem imaginar que esse fluxo poderia um dia secar.

Além disso, a dupla de gás germano-russa está na mira da hegemonia: as empresas europeias que contribuíram para a conclusão do gasoduto Nord Stream 2 estão diretamente ameaçadas de processo pela “justiça” americana ou confisco de seus ativos em bancos do outro lado do Atlântico. O caso Frédéric Pierucci, quadro da Alsthom, ilustra bem qual é esse risco, especialmente no livro de testemunho que esse executivo redigiu depois de sua prisão nos Estados Unidos, Le piège américain.

Enfim, a Alemanha está diante de uma crise sem precedente em sua história pós-1945. Os partidos que foram a base de apoio da República Federal a partir do milagre econômico e desde a reunificação que se seguiram após o desaparecimento do Muro de Berlim estão em queda livre. O SPD socialista não é mais que sua própria sombra. A CDU, verdadeiro pilar do país, passa por derrotas problemáticas e perde nos seus redutos em todos os Länder da antiga RDA. Esse rebaixamento ou declínio não é exceção na Europa: os democratas-cristãos italianos desapareceram da cena há muito tempo já; o PPE espanhol está em liquefação, o que permite hoje a uma falsa esquerda, apesar das etiquetas, de mal governar o país em crise e face à pandemia; os dois partidos democratas-cristãos belgas estão igualmente em via de desaparecer. Esses enfraquecimentos democratas-cristãos e socialistas desafiam: uma outra normalidade política está em via de constituição, mas ainda não se sabe quais contornos ela assumirá.

Apenas Orban mantém sua forma húngara de democracia cristã em funcionamento, obtendo simultaneamente certo consenso em seu país, mas fustigado e mesmo ostracizado pelas instâncias eurocráticas que fazem pressão para que ele seja excluído de tudo.

O declínio alemão é inelutável, ao contrário do que se crê comumente hoje na França, onde certos círculos agitam novamente o espectro de um pangermanismo agressivo. No outro lado do Reno, a literatura contestadora do sistema está florescendo e não é mais reduzida às margens esquerda ou direita, mas doravante proveniente das mais altas esferas econômicas ou intelectuais. Será necessário regressar a isso, pois os argumentos apresentados por esses dissidentes, contestadores casam muito bem com as críticas à eurocracia em voga na França.

Se a pandemia se abateu há pouco sobre os Estados Unidos, cujo sistema hospitalar deixa muito a desejar, poderemos argumentar que a hipótese, que não é mais que uma hipótese, que esbocei aqui, está errada, já que a hegemonia, acusada de ter desencadeado uma guerra bacteriológica, será eximida dessa acusação, visto que ela mesma foi atingida pela pandemia. Mas toda operação bacteriológica tem isto em peculiar, a primeira vítima pode facilmente reenviar a bola e espalhar o agente perturbador na casa de quem o enviou.

Esta pandemia precede um colapso econômico e sistêmico?

Penso que sim. Primeiro, o confinamento desacelera a indústria em um sistema que não tolera qualquer pausa. Para Carl Schmitt, o mundo globalizado pela vontade de Roosevelt entre as década de 1930 e 1940, estabeleceu o elemento “água”, uma vez que a hegemonia construída pelo presidente americano é uma talassocracia ideologicamente liberal: navegamos, por conseguinte, neste imenso oceano simbólico e nos fluxos dos mercados e das comunicações controlados desde a partida pela potência naval americana: quem fica parado em tal contexto, simplesmente flui, escreveu Carl Schmitt em seu Glossarium. Destarte, sempre pensei que a crise de 2008, mais profunda do que acreditávamos até aqui, não foi, de fato, superada: colmatamos as fendas continuamente com toda sorte de artifícios, travando seus efeitos durante doze anos. Essas manobras de remendo chegam ao fim. E vamos colocar na conta do vírus a implosão definitiva do sistema para que os povos não procurem apontar os reais culpados.

Mais de 3 bilhões de pessoa no mundo foram instadas a se confinar. Pela primeira vez na história, a humanidade parece conseguir se coordenar de maneira unitária face a um inimigo global comum. O que você pensa disso?

Essa situação é assustadora porque se houver pandemia, indubitavelmente ela não é muito mais explosiva, ao menos até aqui, que as gripes sazonais habituais. O vírus parece certamente mais virulento que aquelas gripes, mais resiliente uma vez expectorado fora de corpos humanos e mais agressivo sobre o sistema respiratório dos pacientes mais fracos, cujo sistema imunitário está fragilizado por outras patologias. Estamos diante de uma situação comparável à de 1968 e 1969-70, em que um vírus gripal matou, em determinada altura, nada menos que até 4000 pessoas por semana na França! Em 2018, de 26 de fevereiro a 4 de março, 2.900 pessoas morreram da gripe sazonal na Bélgica, em apenas uma semana!

As hipóteses que defendem que os círculos dominantes orquestram um pânico para instalar um sistema ditatorial, panóptico, vetor de uma vigilância universal e onipresente, devem ser levadas a sério.

O comportamento seguidista dos cidadãos é surpreendente em tal contexto, enquanto que é patente que as esferas dirigentes têm interesse em promover tal sistema: a Itália de Salvini ou mesmo a Itália pós-Salvini é um país imprevisível que se deve observar; a França dos Coletes Amarelos que rejeitam o hiperliberalismo que lhes querem impor, merece, aos seus olhos, uma punição severa, e a Alemanha que vaia Merkel a cada aparição pública deve ser igualmente castigada, tanto mais porque se aquece com o gás russo e faz girar sua indústria com os hidrocarbonetos putinianos.

Nós chegamos à era do “Vigiar e punir” planetário, de que a Europa será a principal vítima, pois os chineses e iranianos estão mais próximos de aceitar os custos humanos e possuem capacidades de resiliência superiores a nós, encontradas na religião xiita, confucionista ou até mesmo na ideologia comunista revisada e corrigida, tanto que se assemelha mais aos projetos de Frédéric List no século XIX e com aqueles que inspiraram os ideólogos do Kuomintang, militante de um renascimento chinês depois do “século da humilhação”, quando o Império Celeste caíra em profunda decadência.

Essa pandemia vai forçar a humanidade a adotar um governo mundial como preconizava Jacques Attali durante a pandemia de influenza A em 2009?

Attali formula pelo menos o projeto e há traços dessa visão messiânica em bom número de seus escritos anteriores. Além disso, em uma obra que trata do mundo visto pela CIA, há uma década, Alexandre Adler aventa uma pandemia como aceleração de mundialização ampliada, se não definitiva. Não obstante, não vejo a China de Xi Jinping e a Rússia de Putin se entregando a tal projeto. Sem falar do Irã…

Ainda em 2009, Jacques Attali explicou que a “História nos ensina que a humanidade só evolui significativamente quando tem realmente medo.” O que você pensa dessa ideia?

Essa ideia é uma generalização. Quase um truísmo. Mas se Attali, cantor do projeto globalizante em via de realização, a evocava em 2009, é uma engenharia social e midiática que bem orquestrada poderia, se for esse o caso, criar medo para concretizar esse projeto com o qual ele sonha há muito tempo. Essa criação de um pânico global é o que estamos a testemunhar hoje.

Mas Attali é um velho guru, da idade daqueles que ele deseja que morram para que os governos hiperliberais não paguem aposentadorias. No entanto, o novo guru mundial se chama Yuval Noah Harari, célebre por dois best-sellers que encontramos em todos os idiomas, em todas as livrarias do mundo, mormente nas grandes estações e aeroportos, onde há aqueles que se nomadizam em grande ou pequena escala. Em 20 de março de 2020, esse Harari publicou um longo artigo no Financial Times (https://amp.ft.com/), no qual apresentou o programa de mundialização em curso de maneira prazerosa e atraente, como de praxe: não podemos censurar Atalli nem a Harari de terem um estilo maçante, incapaz de prender a atenção de seus leitores. Harari considera que, com o coronavírus, há uma urgência (emergência) e toda urgência é “um processo histórico acelerado”. Em seguida, cito: “As decisões em tempos normais, que podem exigir anos de deliberação, são tomadas em algumas horas (…). Tecnologias ainda não inteiramente desenvolvidas e mesmo perigosas são implementadas, porque os riscos são muito mais elevados se não se faz nada (…). Países inteiros servem de cobaias em grande escala para experimentações sociais.” Harari evoca, ato contínuo, um mundo em que haverá apenas teletrabalho e principalmente ensino a distância: o confinamento que vivemos parece então uma etapa preparatória para esse futuro de total reclusão, concebido nas altas esferas dominantes. Harari concebe também o monitoramento geral da humanidade, acompanhado de punições para os teimosos. Ele é até um pouco lírico dizendo que hoje os governos são mais fortes que a KGB soviética pois as autoridades dispõem agora de “sensores onipresentes e algoritmos poderosos”.

O coronavírus, acrescenta ele como se quisesse trazer água para o nosso moinho, já permite abrir tal arsenal, inédito na história da humanidade, particularmente na China, onde o Estado se manifesta continuamente por meio dos smartphones de seus cidadãos, utiliza o reconhecimento facial em grande escala e pode determinar qual é o estado sanitário de cada chinês por meio de aparelhos destinados a verificar sua febre, que qualquer policial pode levar e utilizar em vias públicas.

A etapa seguinte também nos é revelada pelo artigo de Harari: sentimentos como cólera ou alegria são fenômenos biológicos na mesma medida que a febre ou a tosse: podemos, pois, detectá-los e manipulá-los no início, com os mesmos instrumentos que servem para verificar nas ruas da China os febris potencialmente “coronavirados”.

Por fim, Harari revela o objetivo final, quase messianicamente, em suma, a Parusia finalmente em advento: a “cooperação global”, a única tábua de salvação contra o vírus que deve nos induzir a optar por um “espírito globalista”, tornando desnecessárias as reações locais ou nacionais.

Quer dizer, Harari opta por uma humanidade radicalmente diferente daquela que Claude Lévi-Strauss tinha preconizado em seus tempos: ele queria tantos tipos humanos quanto ainda existiam no planeta quando se dedicava a suas pesquisas em etnologia, queria promover um “espírito etnopluralista” para que o homem tivesse à sua disposição muitos modelos possíveis para imitar ou assimilar em caso de bloqueio ou de colapso do modelo ao qual pertencia, no qual diversas gerações de seus ancestrais tinham vivido. A humanidade devia ser plural para esse etnopluralismo lévi-straussiano. Para Attali e Harari, isso não parece ser o caso. Eu tenho, não escondo, a nostalgia do projeto de Lévi-Strauss.

Como você vê a evolução da pandemia e suas consequências políticas e sociais nas próximas semanas?

Eu penso que suscitará pânico ao menos até meados de maio, até o momento em que a desaceleração das indústrias europeias terá consequências irreversíveis e que a crise estará aqui, bem palpável, com um número incalculável de falências de pequenas e médias empresas. A crise social na França se acentuará e o movimento dos Coletes Amarelos retomará com vigor, com mais força. Os outros países europeus seguirão, incluindo a Alemanha. Por conseguinte, o confinamento acabará por incitar os mais pacientes entre os nativos e provocar tumultos nos bairros perigosos porque o Ramadã começa no final de abril e se estende ao final do mês de maio. Há algo mais grave: o mundialismo globalitário visa a erradicação da cultura europeia, cujo símbolo mais claro e espetacular foi o incêndio da Notre-Dame de Paris. O confinamento resultou numa primeira sabotagem da liturgia implícita da nossa civilização: as férias de Páscoa e as festividades pascais, inclusive a semana santa espanhola, serão canceladas pela primeira vez em séculos, do mesmo modo que o ciclo de primavera de maio, com as festas religiosas acompanhadas das comunhões, pretextos para festas de famílias que integram a sociedade.

Na sequência desse sacrilégio, pois isso deve ser classificado desse jeito, o ciclo de férias estivais será muito provavelmente afetado, uma vez que é uma tradição secular, também pontuada de celebrações. O povo de nosso subcontinente será profundamente perturbado, desestabilizado psicologicamente, com efeitos somáticos. Esse é o risco mais assustador num futuro próximo, visto que, desencadeado o sacrilégio de quebrar nossa liturgia milenar, haverá o risco de reincidência. Mas mesmo a ruptura do ciclo ritual litúrgico, herdado de Roma, durante um ano somente, é vaticínio de catástrofes: nunca ousamos isso.

Na sua opinião, há uma saída política para a situação que você acabou de descrever e que forma ela poderia assumir?

Uma saída política, verdadeiramente política no sentido, no entendimento de Carl Schmitt e Julien Freund, apenas é possível por uma demonstração de força, uma provação cruelmente conflituosa, por uma convulsão semelhante à revolução russa de 1917. Ora, não estamos mais nos anos 1920 ou 1930, quando milhões de soldados regressavam do front e não tinham medo de ser atacados ou de morrer baleados por governistas ou adversários políticos. Ainda por cima, não se quebra mais um regime hoje com simples fuzis, munidos de baionetas. Os Estados possuem armas mais sofisticadas, que não podemos comprar na loja da esquina, mesmo nos EUA. Eles dispõem de “sensores onipresentes e algoritmos poderosos”, para citar Harari. Em nossos dias, há drones, câmeras, complexos ocultos, para que não baste tomar o posto central dos Correios, como em Dublin em 1916, ou a Rádio de Moscou em 1993, face aos blindados de Iéltsin.

Nossa humanidade está adocicada demais por décadas de liberalismo (ou de festivismo) para ousar tal aventura.

A única forma que uma reação poderia assumir seria um deslocamento no sentido de um iliberalismo à Orban ou à Putin, sem repetir a estúpida dicotomia esquerda/direita, pois o inimigo de todos é único: se trata do hiperliberalismo imposto em nossas sociedades pela parelha Thatcher-Reagan a partir de 1979. Não obstante, à esquerda temos pesados reflexos hostis à política e, à direita, temos sempre a tendência a incorrer em uma forma ou outra de liberalismo. Essas são as armadilhas a evitar, apelando a uma imaginação metapolítica que fundiria corpos opostos em uma nova síntese, em que os princípios da justiça social e suum cuique sejam respeitados.

Como você relaciona a crise atual com sua expertise e seu campo de pesquisa?

Eu não sou um expert, mas um observador engajado. A meu ver, a crise atual é o ápice da crise financeira de 2008 e, mas posso me equivocar, uma demonstração de força bem orientada, perpetrada por um ato de guerra bacteriológica que visa destruir o poder econômico europeu (a única forma de poder que resta em nosso subcontinente), o adversário chinês, derrocar a “nova rota da seda”, com o apoio contínuo de uma orquestração midiática planetária.

Estamos em meio a guerras híbridas ou guerras de quarta geração, quer dizer, guerras em que não alinhamos mais exércitos, tanques, infantarias, mas nas quais aplicamos habilmente estratégias indiretas. A Europa, já constataram alguns observadores nos anos 1990 e 2000, era a menos preparada para manejar as ferramentas midiáticas e culturais dessa guerra de nova dimensão: isso era preocupantemente verdadeiro e hoje estamos pagando fortemente as consequências. Se seu projeto fosse clausewitziano ao invés de neoliberal, a Europa não estaria nessa situação…

Fonte: Strategika

Robert Steuckers

Nascido em 1956, em Uccle, Bélgica, formou-se no Instituto Maria Haps, ligado à Universidade de Louvain, onde obteve o mestrado em inglês e alemão. Ele dirigiu um escritório de tradução em Bruxelas durante vinte anos antes de se dedicar a várias tarefas de ensino de idiomas. Ele criara o think tank “Synergies européennes” em 1994, que organizou cursos de verão na França, Itália e Alemanha. Ele administra, com outros, o site Euro-Synergies, que apresenta aproximadamente 17.000 artigos. Steuckers é autor de vários livros e ensaios, especialmente a trilogia Europe, verdadeira summa sobre a identidade e história dos povos europeus, assim como La révolution conservatrice allemande e Sur et autour de Carl Schmitt.

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