Coronavírus: “Os países que observaram a experiência chinesa não aprenderam nada”

Escrito por Fabio Massimo Parenti; Traduzido por Raphael Machado
Desde que se iniciou essa nova crise sistêmica ligada à pandemia começam a aparecer os erros, falhas e fraquezas estruturais acumuladas nas décadas anteriores pelos países que adotaram, voluntariamente ou não, o modelo político-econômico da globalização neoliberal. A pandemia intensificou as contradições entre países pautados na competição e países pautados na cooperação, com os primeiros se saindo muito pior que os segundos, e representa um marco na decadência e extinção da unipolaridade atlantista.

O caos comunicativo, a fragmentação institucional, a subestimação e a politização da pandemia pelas autoridades ocidentais fizeram empalidecer os erros cometidos em dezembro pelas autoridades Wuhan e Hubei na primeira fase da epidemia, em nosso prejuízo. Se os erros chineses foram corrigidos muito rapidamente, a fim de se desenvolver ações coordenadas, rápidas e eficientes (aqui, aqui e aqui) – a China está gradualmente retornando a uma condição de semi-normalidade – no Ocidente, onde se tinha dois meses de vantagem, se está pagando um preço muito alto (escrevi sobre isso aqui em 27 de fevereiro). Nos últimos meses, todos os países que observaram a experiência chinesa “de fora” não aprenderam nada e, em muitos casos, em vez disso, politizaram desde o início a tragédia da República Popular, que de fato já representava uma emergência global.

A mutação da ordem liberal global, dita global shift, cujas trajetórias muitos de nós seguimos há anos, está se revelando também para aqueles que permaneceram ancorados em uma visão estática, ligada à hegemonia americana. Uma visão obsoleta, ultrapassada pelos fatos, mesmo antes da pandemia (ver Geofinança e Geopolítica, 2016). Mais genericamente, no alvorecer desta nova crise sistêmica, estão surgindo aqueles erros e fraquezas estruturais acumulados nas décadas anteriores, correlacionados com o modelo político-econômico da globalização neoliberal. Este último tem sido um processo concebido pelo Ocidente desde a contrarrevolução monetarista do final dos anos 70. Décadas de crescente interconexão, às quais diferentes áreas do mundo foram ligadas de forma mais ou menos vantajosa, mas que ao mesmo tempo exacerbaram as desigualdades socioeconômicas e aceleraram os processos de desestabilização: basta pensar nos ciclos sistêmicos de crises financeiras e econômicas dos anos 80 (dívidas soberanas), 90 (bancária, monetária e de debitória) e 2000 (financeira e debitória) e nas inúmeras guerras “humanitárias” e mudanças de regime tentadas ou bem-sucedidas em nome de uma falsa guerra contra o terrorismo (esta última alimentada e apoiada em grande parte por funções anti-chinesas, anti-russas e anti-iranianas de dominação estratégica).

Mantendo uma perspectiva global, esta crise está desnudando todas as falhas e fraquezas estruturais acumuladas pelo Ocidente nas últimas décadas. O esgotamento do impulso propulsor da globalização ocidental é cada vez mais evidente, ao qual corresponde, inversamente, uma clara força construtiva da globalização com características chinesas. Se o primeiro, sob o chamado Consenso de Washington, promoveu durante décadas processos de liberalização e privatização estendidos a nível planetário, o segundo propôs e está praticando mais interconexão entre Estados, através de estratégias de investimento e cooperação voltadas para o desenvolvimento de áreas deprimidas, a estabilização de regiões estratégicas e a conexão mais eficiente entre diferentes regiões do mundo. Estes dois modelos percorrem caminhos diferentes e muitas vezes antitéticos: unilateralismo vs. multilateralismo, abordagem one-size-fits-all vs. respeito por diferentes caminhos de desenvolvimento, hipercompetição vs. Cooperação/benefício mútuo, interesses do capital vs. interesses das sociedades, individualismo vs. coletivismo. Idiossincrasias que levaram ao surgimento de uma ideia alternativa de globalização. Ver, por exemplo, o discurso de Xi Jinping em Davos, em 2017, a favor de mais interligação e cooperação entre os povos, respeitando a diversidade econômica, política e cultural.

Hoje, cada vez mais, se desvenda a natureza da globalização neoliberal que, tendo promovido uma crescente redução da intervenção do Estado na economia (com uma desregulamentação dos mercados), reduzindo o seu papel de porta-voz das comunidades empresariais e dos seus interesses particularistas, mostra todos os seus limites. Isto é evidente especialmente quando ela é confrontada com o socialismo com características chinesas e com a ideia de construir uma comunidade humana com um destino comum. Nada a ver com o darwinismo econômico-social promovido pelo neoliberalismo. Como dito, a história da globalização neoliberal tem sido marcada por crises sistêmicas e guerras humanitárias (na verdade, operações de apoio ao terrorismo regional para fins estratégicos), restituindo a imagem de uma globalização dos mercados e das guerras por demais desestabilizadora, frágil e cada vez mais volátil. Processos que têm mostrado os resultados mais nefastos e destrutivos desde os anos 90. Em contraste, a BRI (Nova Rota da Seda e a extensão da influência da China a nível intercontinental, relaciona-se com uma nova geografia de infraestruturas, portos, ferrovias, zonas industriais, ligações digitais e aéreas, bem como a cooperação na pesquisa e na gestão de problemas globais como os sanitários.

A pandemia do covid-19 mostra, portanto, a consolidação do Consenso de Pequim e da globalização com características chinesas, em comparação com as políticas internacionais mais conhecidas ligadas ao Consenso de Washington. Na verdade, estas duas abordagens, que, como mencionado, têm trajetórias históricas diferentes, refletem-se nas respostas atuais à pandemia. Os países ocidentais fecharam-se, suspendendo o Schengen na Europa, bloqueando os fornecimentos essenciais aos países mais afetados e demonstrando uma considerável incapacidade de gerir a crise. Os casos dos bloqueios de abastecimento pela Alemanha, República Tcheca e Polônia, como o bloqueio aos voos russos, assim como as sanções impostas ao Irã, Cuba e Venezuela, mesmo nesta fase, são todos exemplos de falta de solidariedade e cinismo, onde nada de edificante pode ser encontrado. Para não falar em “direitos humanos”. Olhando para os Estados Unidos, eles não poderiam ter fornecido ajuda comparável à dos chineses, pois faltava-lhes capacidade de produção adequada para os materiais necessários. Pelo contrário, a China está fornecendo todo tipo de apoio à Itália e a muitos outros países (está auxiliando 80 deles), multiplicando ajudas, doações e suprimentos, assim como oferecendo e compartilhando pessoal médico, experiências e informações. À China juntaram-se, entre outros, países como Cuba, Vietnã e Rússia. Em termos paradigmáticos, econômico-políticos e culturais, a comparação é entre neoliberalismo e socialismo. Em outras palavras, entre a primazia dos interesses do capital e o interesse egoísta do indivíduo sobre os interesses das sociedades e comunidades. É o confronto dicotômico entre hipercompetição e cooperação; autodefesa reacionária e solidariedade internacional, confronto militar e a busca de soluções compartilhadas e pacíficas.

Por parte dos países ocidentais vemos um déficit de ajuda e de solidariedade; mas também uma condição de fraqueza política e de sofrimento econômico para enfrentar a pandemia. Neste contexto, tanto o Financial Times como o Foreign Affairs, por exemplo, notaram a necessidade de trabalhar com a China para gerir a crise. Trump, só hoje, está oferecendo aberturas tímidas. Isso é bom. Vamos acompanhar os desenvolvimentos. No entanto, a ordem mundial já mudou e precisará de um Ocidente capaz de adaptação e flexibilidade. Menos gastos militares e mais bens públicos, apoio à BRI (Nova Rota da Seda), encerramento definitivo do G7 e expansão do G20… Cruzemos os dedos.

Fonte: L’Intellettuale Dissidente

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