Coronavírus: “O impacto será maior por termos uma economia mundial em crise permanente”

Escrito por Alfredo Serrano Mancilla
A pandemia do covid-19 ameaça colapsar a economia mundial, que já estava extremamente fragilizada e em crise. Ninguém pode prever com certeza absoluta como será o mundo econômico pós-pandemia, mas é um fato que o modelo neoliberal e rentista foi posto em cheque. É preciso fazer com que a economia pós-coronavírus traga um novo pacto social em que os direitos básicos estejam no centro do sistema.

Mais uma vez, um novo acontecimento, desta vez a chegada do coronavírus, põe em xeque toda a economia mundial, especialmente a economia latino-americana. O impacto desse acontecimento fatídico será maior por termos uma economia mundial débil e em crise permanente (contração da economia real, atividade comercial reduzida, baixa produtividade, endividamento massivo e excessiva volatilidade especulativa).

Cabe a essa ordem econômica global, complexa e cheia de desequilíbrios, resistir a outra prova de fogo: o coronavírus. Hoje, ninguém poderia prever com exatidão quais serão as consequências para a economia mundial e, em particular, para a América Latina. Ainda é muito cedo para isso, mas já podemos fornecer alguns dados para termos uma primeira aproximação nessa situação tão difícil.

  1. O Instituto de Finanças Internacionais calcula que o valor da saída de capital registrado das economias emergentes nos primeiros 50 dias de coronavírus no mundo (muito antes de se espalhar pela União Europeia) é de cerca de 60 bilhões de dólares. Esse valor é recorde a nível global, superando até o que ocorreu após o colapso financeiro de 2007-2008. Isso significa que, quando existirem dados atualizados, certamente haverá uma saída de capital sem precedentes das economias emergentes que afetará – e muito – a economia latino-americana.
  2. No lado oposto, estão aqueles que se beneficiam com essa fuga. Surpresa! O principal refúgio é o título americano. Assim, os fluxos financeiros se reorganizam a favor do país hegemônico.
  3. Sempre que há um choque externo, seja qual for, busca-se uma resposta monetária expansiva e anti-cíclica. Até a ortodoxia neoclássica cede nesses casos. A Reserva Federal dos Estados Unidos disponibilizou 1,5 trilhão de dólares para o sistema financeiro; o Banco Central Europeu anunciou que injetará 1,1 trilhão de euros na economia; o FMI também está disposto a mobilizar um trilhão de dólares. No entanto, a partir do momento que se faz uma emissão maciça, esquecemos de identificar a rota desse dinheiro. Chegará à economia real ou optar-se-á por alocá-la ao mundo financeirizado?
  4. A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento prevê uma perda global de receita de 2 trilhões de dólares como consequência dessa crise. Somente em fevereiro, pelo efeito da crise na China, as perdas na produção manufatureira foram de 50 bilhões de dólares. A Organização Internacional do Trabalho estima que 25 milhões de empregos em todo o mundo estão em risco. Definitivamente, estamos também perante uma crise de fornecimento que ainda não dimensionamos: muitas cadeias globais de produção e também de fornecimento estão sendo paralisadas.

Vivemos em um mundo cheio de incertezas. Com o coronavírus, tudo é mais incerto. A economia não pode ser entendida sem expectativas. E quanto mais doente estiver, pior será sua capacidade de gerenciar fatores de alto risco. Até o momento, houve uma deterioração em todos os indicadores que dependem, precisamente, das expectativas: preços do petróleo, índices das bolsas, taxas de câmbio, risco país, etc. A dizimada economia global continua em declínio.

Veremos o que acontecerá depois desse grande tsunami. Após cada grande crise, a ordem econômica global sempre se reacomoda. Depois de 2008, a economia global aprendeu pouco e continuou a vilipendiar a economia real. A partir de agora, o interessante é saber se o consenso surgido durante a contingência perdurará ao longo do tempo: mais e melhor saúde pública, mais Estado, política fiscal mais expansionista quando apertarem as dificuldades, mais economia real e, sobretudo, dar muito mais importância aos assuntos verdadeiramente imprescindíveis à vida humana. Faz sentido o capitalismo global ter produzido mais de 1,5 bilhão de smartphones em um ano e tão poucos ventiladores assistidos no caso de uma pandemia? Não. Faz sentido estarmos tão pouco preparados economicamente para uma pandemia que, até agora, foi letal para 0,00013047% da população mundial (e infectou 0,0031%)? Também não.

Esperemos que, ao menos, o coronavírus nos sirva para alguma coisa. E oxalá que apareça uma espécie de novo New Deal, um novo contrato social e econômico, no qual a saúde e outros direitos básicos estejam no centro da economia, e que a economia financeira esteja a serviço da economia real, e não ao contrário.

Fonte: CELAG

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